Cartas para Dindi #2

Arthur Mesquita
Aug 24, 2017 · 4 min read

Oi, Dindi.

Como estão as coisas por aí? Espero que a primeira carta tenha chego a ti, assim como espero que essa chegue. Te escrevo no momento em que o Luan erra o penalti, e isso com certeza decreta a nossa eliminação. É, o arrombado do Cruzeiro fez. Tâmo fora. Eu sei que futebol não é importante pra ti, mas tu sabe que eu amo esse pão e circo. Porra, como eu amo. Lembro de quando fomos na despedida do Olímpico, eu fiquei bebendo e pulando como um lunático e tu ficou ali do lado da tua irmã, cantando e pensando: “esse guri é louco”. Depois tu veio a descobrir que eu deveras sou. Lembro também de um GREnal que vimos na tua casa com a tua família, que tu chegou a dizer “Tom, te acalma”. Acontece, acontece. Eu acabei me acalmando com o passar do tempo, creio. O que me assusta um pouco é eu estar com a sensação de que todo aquele sentimento tá voltando à tona. Mas isso eu consigo controlar.

Aproveitando esse momento de lembranças, recordei esses dias da última vez em que nos vimos, meses atrás. Nós já não nos víamos há um bom tempo, mas tu veio conversar, eu continuei a prosa, e concordamos em nos ver no dia seguinte. Acordei no outro dia com mensagens tuas dizendo que não poderia ir por alguns motivos, e lembro de ter pensando “Ah, não. De hoje não passa”. Me perdi naquele labirinto de ruas que ficam na volta da tua casa, e quando cheguei pensei “Bueno, eu sei que a gente não se vê há tempos, mas porra, é a Dindi. Eu vou dar um abraço nela”. Mas tu saiu do portão com um olhar diferente, que apesar de tanto tempo juntos eu não reconhecia. Se aproximou de mim, disse “E aí”, me deu um beijo na bochecha, e foi isso. Porra, “E aí”? Enfim, seguimos até a parada num silêncio ensurdecedor, entramos no ônibus no mesmo silêncio, até que meia dúzia de palavras foram trocadas. Tu perguntou se eu já tinha ouvido Ramil, num tom de quem questiona “tu já ouviu Bach?”. Eu respondi que sim, e retruquei se tu já havia ouvido Turma do Pagode, num tom de quem responde “Caguei pra Bach”. Mas esse foi um dos únicos momentos que tu sorriu. Passamos pela Arena, tu viu que eu tava distraído e avisou “Pode fazer o sinal da cruz”. O tempo passa, Pequena, mas tem coisas que nunca mudam. Alguns segundo depois tu disse que tinha algo para me contar e soltou: “Eu já estou com outra pessoa”. Como eu já sabia, nada tinha mudado naquele momento.

Sentamos no Café da Casa, rapidamente perguntei se eu poderia fumar ali e na mesma velocidade me foi dada a resposta negativa. Pedimos nosso café e tu disse “Vai, o que tu deixou de falar aquele dia?”. E eu comecei meu monólogo. Não me recordo exatamente a maioria das coisas que eu disse, me recordo com facilidade de ter parado de falar um segundo, ter olhado pra ti e ter visto teus olhos por trás daqueles óculos escuros tentando me ler. Porque caralhos tu estaria tentando me ler? Eu já achava que tu tinha jogado a chave da minha cabeça fora. Bebemos o nosso café, e tu decidiu descer até o jardim. Ali, no meio de meia dúzia de palavras soltas, tu disse “Tom, tu tá confundindo amor com saudade”. E tu tava errada. E, caralho, como é boa a sensação de estar certo. Todavia, havia muita coisa diferente. Tu mexia no cabelo com um ar grandioso, não mais daquele jeito que tu fazia quando usava uma camiseta velha do The Who com um All Star marrom. Tu caminhava como se estivesse desfilando, e não mais como se estivesse dançando com o mundo. Fria. Calculista. Descemos para ir embora, avistei uma daquelas bancas que vendem flores, e que eu sempre comprava pra ti quando passávamos ali, e lembrei de uma frase que eu havia lido na internet, sequer lembro dela direito ou sei quem a escreveu, mas era algo como “quando tudo for pedra, atire a primeira flor”. E foi o que eu fiz. Brinquei contigo dizendo algo como “sabia que quando descumprimos uma tradição recebemos sete anos de azar?”, e comprei os lírios que eu sei que tu disse pra tua mãe que eram pra ela. Mas pelo menos eu atirei a flor. Tu deixou escapar um sorriso naquele momento, então talvez tenha dado certo.

Depois desse dia, Pequena, eu levantei os dois dedos pro passado, acendi mais um cigarro mesmo tu dizendo que eu tava uma chaminé, e vivi. Meus amigos tem dito “Vai! Mostra que tu tá muito bem!”. Porra, eu não vou fazer isso, tu sabe. Eu não tô tentando vencer nenhuma competição. Ah, esses dias foi aniversário da tua melhor amiga, ou ex melhor amiga. Eu sei que tu tem teu outrém e teus novos amigos, mas espero que tu tenha lembrado de parabenizá-la. Para de ouvir “Construção” um segundo e tenta lembrar que tu veio de “True Men Don’t Kill Coyotes”. Assim encerro essa segunda carta, Dindi. Espero que eu esteja enviando para o endereço correto.

Sinto tua falta, Pequena.

Com amor,
Tom

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