Sobre Jazz

Acordei, esfreguei os olhos e fiquei olhando para o teto por alguns minutos. Enquanto eu tentava me localizar no tempo e espaço, recordava a noite que passou e o quanto havia sido bizarra com todo aquele porre. Levantei e fui em direção ao banheiro ouvindo que “Baby, You’re a Rich Man” estava saindo da minha sala. Lavei o rosto torcendo para que aquela cara de ressaca melhorasse e fui até a sala. Ela estava ali, vestindo minha camiseta velha do Iron Maiden enquanto fumava na janela.

- Por que tu não me acordou?
- Você estava dormindo tão bem que eu não quis incomodar.
- Tu dormiu bem?
- Dormi sim. Estou com um pouco de dor de cabeça apenas.
- Eu também estou.
- A Leia me arranhou enquanto eu dava comida pra ela.
- Tu chegou perto do território dela. Aquela gata é girl power total.
- Eu percebi! — ela disse rindo.
- Sabe se o Aguirre já acordou?
- Não sei. Ele não saiu do quarto depois que eu acordei, pelo menos.

Fui até a cozinha alimentar os bichos, fiz um café e voltei pra sala. Ficamos ali conversando sobre qualquer coisa por umas duas horas, que pareceram dez minutos. Eu ficava olhando aqueles olhos grandes, aquele jeito de guria com aquelas caretas, ouvindo aquele sotaque nordestino que eu jamais pensei que fosse me chamar a atenção, tudo acontecendo na minha sala. Se alguém dissesse que eu estava sonhando, acreditaria cegamente. Ela tinha essa paixão pela Redenção desde a primeira vez que veio à Porto Alegre, então nós descemos, ela com uma água sem gás e eu com um mate, e caminhamos o parque inteiro, tomamos um suco de maracujá no final da tarde na lancheria do parque e voltamos ao meu apartamento, ainda vazio.

- Me diz teus defeitos.
- Em ordem alfabética ou cronológica?
- Qual o pior de todos?
- Porra, é difícil decidir agora…
- O meu é não ter medo.
- Então talvez o meu seja não ter receio de meter medo.
- Nossa.
- Tu sabe que eu não sou como ela, certo?
- Como assim, Tom?
- Eu não sou e sequer tento transparecer ser uma boa pessoa.
- Eu não ligo.
- E eu acho o caos necessário para a vida humana.
- Eu não ligo.
- E eu amo futebol.
- Eu não ligo, Minduim.
- Para o que tu liga, caralho?
- Para isso.
- Isso o quê?
- Estar aqui, conversando com você.

De novo, aquele maldito sotaque. Aquele maldito jeito de mulher que sabe o que quer, e como toda a mulher, realmente sabe. Eu prometi que iria cozinhar, perguntei se teria algum problema se não tivesse carne, “problema nenhum”, ela disse. Fiz minha melhor receita e devo admitir que mandei muito bem. A minha massa ao pesto com queijo ralado e tomate ficou no ponto perfeito. Começamos a ver alguns seriados mas os guris chegaram, a final, todos tinham que voltar ao seus cotidiano no dia seguinte. Decidimos ir para o quarto e escolher algo totalmente novo para assistir.

- Se tu roubar as cobertas de noite, eu não vou fazer café de manhã.
- Você vai fazer igual.
- É, eu sei.

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