Hellboy — Sementes da Destruição, de Mike Mignola

Edição Histórica vol.1

O primeiro arco de histórias de Hellboy narra o plano do feiticeiro Grigori Rasputin, místico da Rússia czarista, para trazer a destruição ao nosso mundo. Após se exilar, ele passa algum tempo estudando e aperfeiçoando seus conhecimentos arcanos antes de entrar para o grupo de gênios recrutados para o Reich de Adolf Hitler. Utilizando da estrutura e dos recursos do nazismo, em 1944 Rasputin evoca o demônio Hellboy em um rito que mistura magia e ciência. É aqui que começamos a entender o teor dessa obra, que vai transitar justamente entre o sobrenatural e a ficção científica.

O ritual é bem sucedido, mas a criatura surge longe dali, entre os Aliados, e é recolhida por um destacamento de agentes do Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal (BPRD — Bureau of Paranormal Research and Defence), dentre os quais está o Professor Trevor Bruttenholm, que dali em diante se torna a figura paterna para o jovem Hellboy.

Cerca de 50 anos depois, estamos diante da figura que reconhecemos como o Hellboy adulto: o agente de chifres serrados e sobretudo, investigando com seus colegas do BPRD, Abe Sapien e Liz Sherman, eventos sobrenaturais envolvendo sapos, o professor Bruttenholm, uma família obcecada por algo escondido no ártico, a figura vilanesca que será recorrente na história — Ogdru Jahad — , e um culto com o objetivo de libertá-lo de sua prisão milenar para trazer caos e destruição à Terra. Tudo isso ainda se entrelaça com as origens do Hellboy e do seu destino nesse mundo.

Pode parecer uma salada com elementos demais. E é exatamente isso que ajuda a construir o estilo de Hellboy. Mike Mignola enche de complexidades, explicações, ritos mágicos, experimentos científicos e o contraponto a tudo isso é a forma pragmática que o próprio Hellboy encara as situações.

Nesse primeiro arco, o enredo e a arte são de Mignola, cores de Mark Chiarello e o roteiro foi tratado pelo experiente John Byrne. Aqui o estilo de Byrne aparece principalmente no uso de recordatórios que nos dão uma dimensão dos pensamentos de Hellboy. Essa característica vai desaparecendo nos próximos arcos, onde o roteiro é assinado exclusivamente por Mignola, que prefere uma narrativa se passando mais nos diálogos do que nos pensamentos dos personagens.

Os textos soam bastante teatrais e as falas frequentemente se distanciam da oralidade, o que coloca a narrativa entre o teatro shakespeariano e um filme de terror B. Isso não chega a incomodar, já que Mike Mignola é tão consciente disso, que faz questão de quebrar a linguagem mais rígida e formal através das falas do Hellboy, que pode interromper um longo monólogo de um feiticeiro pomposo com um “Foda-se.

A arte, como era de se esperar, é onde Mike Mignola está mais confortável. Cada página é uma aula de composição e a narrativa visual muitas vezes dispensa texto. O estilo do desenhista consagra Hellboy como singular. O uso do preto surpreende pela forma que são construídas as noções de luz e sombra, assim como o clima propício para contar as histórias de terror. Cada página merece ser lida novamente só para se observar com mais cuidado as escolhas que Mignola faz no seu desenho: a cor chapada, a linha sem variação de espessura, os blocos de preto e uma síntese no desenho que é surpreendente.

Hellboy é o primeiro trabalho autoral de Mike Mignola e mistura tudo aquilo que o fascina e inspira, desde o folclore europeu, horror lovecraftiano, ficção científica, ao suspense policial, tudo isso transposto em painéis cheios de ação e movimento. Foi publicado pela primeira vez em 1994, pela Dark Horse, levando dois prêmios Eisner em 1995: Melhor Álbum Gráfico reimpresso e Melhor Escritor/Artista. No Brasil, os quadrinhos são publicados pela editora Mythos.