Foto: Fabio Mortara

A sustentabilidade em diversas formas

por Ana Carolina Becker, Artur Dullius, Carla Bagnara e Sofia Kich

E m tempos de crise econômica, transformar o visual da casa ou apartamento não tem sido prioridade. Mudar a pintura das paredes ou comprar móveis novos têm custado caro para o bolso do brasileiro. Mas é possível personalizar a casa do seu jeito, e melhor, gastando pouco. Como? Reaproveitando o que você já tem.

A ideia da preservação do meio ambiente conquistou a sociedade. E a reutilização de objetos e materiais que seriam colocados no lixo virou moda. Uma moda não passageira, mas que veio para ficar e está dominando o mercado da arquitetura e design de interiores. Soluções alternativas e peças artesanais reconhecidas cada vez mais por profissionais da área que ajudam na preservação do planeta por intermédio da reciclagem.

Foto: Guela Mix

Para a Arquiteta e Urbanista Fernanda Sebben a decoração sustentável é uma tendência de mercado. Ela afirma que há uma demanda, uma busca pela reutilização das coisas, pelo reaproveitamento daquilo que seria lixo.

“A sociedade atual segue o caminho rumo à sustentabilidade. As pessoas se preocupam com a questão do meio ambiente. Por isso que, a maioria dos arquitetos de hoje procuram trabalhar da maneira mais limpa possível.”
Fonte: Arquivo pessoal

Segundo o biólogo Diego Sehn, a importância da reciclagem está na reutilização de materiais para o propósito que eles foram criados, como por exemplo o ferro velho, que nas usinas são transformados em ferro novo. Ou para outra finalidade: garrafas pet se transformam em floreiras e pneus que viram asfalto. Assim evita-se que sejam descartados em aterros sanitários e diminui a extração de matéria-prima da natureza para a confecção de novos produtos.

Mais do que decorar, reutilizar

A decoração sustentável reaproveita matéria-prima de qualidade, que seria descartada em um aterro sanitário, evitando a extração na natureza de matéria-prima virgem para atender ao mercado. Consequentemente, ocorre um aumento na vida útil dos aterros, que deixam de receber materiais que ainda poderiam ser reutilizados.

O objetivo é sair do óbvio e trazer novidades para coisas que a pessoa já possui. Pneus, garrafas, metais, latas de alumínio, discos de vinil, caixotes, móveis velhos, restos de tecidos, roupas velhas. Tudo isso sendo transformado em móveis e/ou objetos reciclados, inovando, modernizando e dando um novo estilo para o cômodo da casa.

Fotos: Divulgação

A necessidade de reciclar e preservar o meio ambiente tornou o mobiliário reutilizado uma verdadeira expressão de arte. Design e estilo por um preço muito baixo. O lixo que, aos poucos, vai se transformando em luxo.

O programa do canal GNT, Mais Cor Por Favor, apresentado pela publicitária especializada em trabalhos manuais e decoração, Thalita Carvalho, mostra o passo a passo de ideias simples, de baixo custo, mas com resultados surpreendentes. Ela e sua equipe mostram que, com a ajuda de amigos, criatividade e mais cor, é possível reinventar qualquer ambiente com as próprias mãos.

Fonte: GNT

Confira esse e outros episódios no site.


ArqDetox, desintoxicando ambientes

Uma ideia sustentável foi lançada pelas arquitetas Laura Mottin Soares e Luísa Dresch Prediger, proprietárias da empresa Anello: a ArqDetox. O conceito relacionado com a desintoxicação de ambientes é prioridade nos projetos da empresa atuante na região do Vale do Taquari.

“Desenvolvemos uma nova proposta de trabalho: a Anello Detox traz uma dinâmica mais rápida e envolve mudanças menores. Trabalhamos com projetos tradicionais de arquitetura e interiores, com paisagismo e arquitetura efêmera — uma construção provisória, que utiliza materiais alternativos, como os recicláveis ”, explica Laura.
Foto: Arquivo pessoal

Ainda conforme ela, além da ideia de fazer o cliente gastar menos, a sustentabilidade também foi um fator importante quando a empresa foi projetada. “A missão da Anello é descomplicar a transformação que o cliente deseja, renovando o ambiente sem gastar muito e sem precisar comprar móveis novos”.

Marlon Dalmoro, Doutor em Marketing, afirma que os modos de consumo criados pelo sistema capitalista têm tomado proporções insustentáveis. A preocupação com o meio ambiente tem atingido não só especialistas da área, mas também a população em geral.

Foto: Tiago Silva/AI Univates
“A lógica da cadeia de produção em linha, no qual recursos, especialmente naturais, servem de matéria-prima para produção de bens de consumo, com um ciclo de vida programado, aliado a percepção de inclusão social via consumo de bens (posse com mecanismo de pertencimento e felicidade) começa a ser questionada tanto por ativistas ambientais (preocupados com o futuro do planeta como um todo) quanto pelas próprias pessoas, as quais questionam o modelo de busca da felicidade pelo consumo”, explica Dalmoro.

A demanda pela sustentabilidade, sejam móveis, objetos ou estilos de vida, tem aumentado. É perceptível a busca da população pela redução de gastos e, consequentemente, pela diminuição de impactos ambientais.

Abaixo um projeto concluído pela Anello Arquitetura:

Foto: Arquivo pessoal

As arquitetas explicam que a solicitação da cliente consistia em gerar melhor aproveitamento para um amplo espaço integrado de salas de estar, tv e jantar. “Buscamos através de peças soltas, restauro de mobiliário, cores nas paredes e a utilização de espelhos compor o ambiente”, comenta Laura.


Free Your Stuffs — Liberte suas Coisas!

Com a busca pela redução de gastos e pela diminuição de impactos ambientais, cria-se uma nova forma de consumo colaborativo. Dalmoro explica que o mais importante não é possuir um bem, mas ter acesso a ele. Esse movimento, consequentemente, molda um novo tipo de economia que irá reformatar as indústrias: Free Your Stuffs (FYS) ou Liberte suas Coisas.

A Free your Stuffs permite a redistribuição de bens e o reaproveitamento deles, sem a necessidade de se produzir algo novo. “O propósito do grupo é a troca ou doação das coisas que tendem a acumular e preencher os espaços que poderiam ser utilizados para algo mais interessante do que o simples armazenamento”, conforme divulgado pelo site. Em Berlim o grupo hoje já conta com mais de 37 mil membros.

“Um produto que não tem mais valor de uso para alguém pode ter valor para outro”, declara Dalmoro.

O profissional ressalta, ainda, que a ideia do valor de uso substitui o valor de posse, ou seja, o valor de um bem não está na sua posse e sim na experiência que ele proporciona.

Fonte: Tarcisio Secoli
“Assim, lentamente, a sociedade começa a ver que a produção inesgotável de bens irá esgotar os recursos naturais, suportando movimentos capazes de reinventar a forma como distribuímos os bens para consumo”, conclui Dalmoro.

Decoração sustentável

O que também começou a ser pensado de uma forma “inovadora” foram as decorações para festas. A sustentabilidade ganhou espaço e conquistou, principalmente, as decoradoras destes eventos. E fez repensar as ornamentações luxuosas, que envolvem altos valores e, na maioria das vezes, são utilizadas apenas uma vez com novos materiais que após o evento vão para o lixo. Por isso, a busca pela decoração sustentável também vem ganhando espaço no ambiente de festas.

Para fugir deste cenário de luxo e não reaproveitamento de materiais no mercado da decoração de eventos, a cerimonialista Patricia Miranda e a decoradora de eventos Angela Majolo, de Lajeado, criaram a empresa Maria’s Festa, especializada em decoração de eventos sustentáveis. Patrícia explica que por já trabalharem na área de eventos, as duas proprietárias sentiram vontade de criar algo diferente, percebendo a necessidade dos clientes em encontrar uma opção de decoração encantadora e mais em conta. Rolo de papel higiênico, caixas de fruta, velas antigas, flores, garrafas de vidro e madeiras descartadas por alguns têm valor para as decoradoras.

Os itens reciclados fazem parte da decoração que a empresa oferece.

“Procuramos usar flores da estação para baratear os custos, além de utilizarmos quase 100% de materiais recicláveis para a decoração, como o rolo do papel higiênico que vira porta-guardanapos para as mesas. Estou sempre de olho em tudo, costumo encontrar pedaços de madeiras na estrada e levo para casa para reformar”, comenta Patrícia.

Ela conta ainda que com essas madeiras que encontra, faz cachepôs (vasos de flor) que servem para enfeitar as mesas, além de ter inúmeras utilidades em diferentes eventos. Lembrando também que o cliente costuma procurar a empresa por estar preocupado em economizar, mas também atento ao meio ambiente.

A empresa oferece um orçamento relativamente mais baixo que outras empresas de decoração de eventos da região, o que torna a Maria’s Festa referência de preço baixo e sustentabilidade. As proprietárias relatam que em uma decoração tradicional de casamento gasta-se em média R$ 8 mil, mas com a utilização de materiais recicláveis é possível decorar um casamento com R$ 4 mil.

Elas ressaltam que ainda há uma certa desconfiança em relação a este tipo de ornamentação, pois alguns clientes acreditam que a decoração sustentável é, por vezes, “simples demais”, comenta Patrícia.

“Recentemente decoramos um casamento onde a mãe da noiva estava bastante preocupada com o resultado, acreditando que iria ficar muito pobre, mas no dia do casamento quando entrou no salão se surpreendeu. As luzes do ambiente, juntamente com as velas e luzinhas decorativas que inserimos em pontos estratégicos do salão acabaram por dar um toque super requintado ao ambiente”.

Confira abaixo algumas fotos deste evento:

Um dos itens mais caros dentro do orçamento de um casamento são as mesas, explica Patrícia. Para baratear os custos, as decoradoras utilizaram as mesas de madeira originais do salão, que eram cadeiras de palha. Na decoração foram utilizadas fitas de cetim e maços de trigo encontrados em plantações
Na decoração da mesa principal utilizaram flores de papel de crepom, confeccionadas pelas decoradoras Para criar um clima agradável utilizaram canhões de luz por baixo da mesa
As caixas de frutas foram doadas. Na reforma foi utilizada tinta cal, que tem um preço mais em conta e dá um toque rústico as peças. As flores utilizadas na decoração de todo o evento foram colhidas no sítio de Patrícia
A madeira utilizada neste item foi encontrada abandonada. As decoradoras reformaram e entalharam a escrita especialmente para a ocasião
Para criar o suporte foram utilizadas velas antigas que já não tinham mais uso. As velas foram derretidas sob o tronco

Patrícia justifica que antigamente os casamentos eram preparados pela própria família dos noivos, onde os pais se envolviam desde a decoração até o cardápio. “Os pais iam até o mato para colher as flores e preparam toda a comida do casamento”, comenta a decoradora. Para resgatar a ideia de “faça você mesmo”, as decoradoras procuram envolver os clientes na reforma dos objetos usados na decoração, além de elas fazerem 100% do que é usado. Os tecidos são comprados e tudo é feito à mão, o restante é guardado com cuidado e conservado para o próximo evento.

As decoradoras enfatizam que a decoração sustentável é questão de escolha e estilo, pois é preciso que se tenha consciência que pelo custo inferior a uma decoração tradicional (com materiais alugados) e pelo reaproveitamento de materiais o resultado do trabalho não será o mesmo que na decoração tradicional. O ambiente ganha sofisticação pelo fato da sustentabilidade aplicada ao ambiente, e não pelo luxo dos objetos usados.

Carine Ely é Relações Públicas e teve sua festa de formatura decorada pela Maria’s Festa. Ela conta que a opção surgiu pelo custo benefício deste tipo de decoração e que as decoradoras sugeriram que ela e a família “colocassem a mão na massa”. Foi então que janelas e restos de madeira de uma oficina antiga viraram peças de decoração da festa. “Os restos de madeira viraram o bar da festa, as caixas de frutas foram os porta-flores e os palets os sofás, tudo isso feito por minha família mesmo, lixamos e pintamos as madeiras para que ficassem de acordo com o restante da decoração”, explica Carine.

Para baratear os custos, após a festa os objetos reformados foram doados para as decoradoras.

“Ficou tudo como eu queria, simples mas com significado”, enfatiza Carine.
Fotos: Arquivo pessoal
Fotos: Arquivo pessoal

Para colocar em prática a ideia de “faça você mesmo” a artesã Monique Engellmann explica no tutorial como reformar cadeiras, deixando-as com um toque super moderno. Monique explica que com menos de R$ 50 é possível reformar um conjunto de cadeiras para a cozinha e ressalta que nem sempre é preciso comprar, pois o valor de uma peça feita à mão é bem maior que a de uma comprada.

Fonte: SofiaKich
Arte: Sofia Kich

Você vai precisar de:
-Garrafa de vidro
-Kit para abajur (disponível em lojas de materiais elétricos por R$ 14,90)
-Soquete (encaixe para a lâmpada, disponível em lojas de materiais elétricos por R$ 5)
- Tinta spray 
-Cúpula (disponível no site do Mercado Livre por R$ 25)
- Tecido