Para que (e a quem) serve o atual jornalismo de games brasileiro?
Felipe Pepe
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- Um Switch custa 2 salários mínimos porque é lançamento, ainda está superfaturado por este motivo. Mas sabe quanto custava um N64 ou um Playstation em 1996? Coisa de 5 a 6 salários mínimos! É muito mais fácil comprar um PS4 hoje do que um Playstation nos anos 90. Além de ser proporcionalmente mais barato, em comparação com o salário mínimo, hoje temos a internet que nos ajuda a pesquisar preços, temos maior concorrência entre os sites de vendas e melhores formas de pagamento. Se voltarmos um pouco no tempo, antes do plano real, os anúncios de revistas todos tinham preços de jogos e consoles tabelados em dólar;

- Em meados dos 90, eu só comprava apenas revistas antigas, de 4 ou 5 anos antes, pois meu console era um Dynavision. Mesmo na década seguinte, o Polystation e outros clones de Nintendinho eram a realidade de muitas crianças e adolescentes no Brasil. As revistas de game da época não falavam comigo nem com a maioria dos jovens brasileiros;

- Já que você quer falar em Gamers Book do FFVII e de salário mínimo, deveria lembrar que, em 1997, quando o salário mínimo era de 120 reais, um Playstation não saía por menos de 400 reais, o FFVII pirata custava R$15,00 (5 reais por disco) e a revista custava R$5,90. Um total de R$420,90 só pelo Playstation com o jogo pirata e a revista. Isso equivalia a 3,5 salários mínimos. Se mantivermos a proporção com o salário mínimo atual, isso equivaleria hoje a R$3279,50. Com esse dinheiro hoje se compra um PS4 e um Xone e mais pelo menos um ano de assinatura das redes, para receber jogos de graça todos os meses. Então, se a imprensa de hoje está “falando sobre Porsches e Ferraris”, o que dizer das revistas de 20 anos atrás? “Como chegamos a este ponto?” não me parece uma pergunta apropriada, pois tudo está melhor do que era nos anos 90 e início dos 2000.

- O próprio FFVII pirata, custando 15 reais quando o salário mínimo era de 120 reais, teria um peso de cerca de 117 reais no salário mínimo de hoje. Com esse dinheiro, você pode comprar um jogo AAA alguns meses depois do lançamento nas promoções PSN ou na Xbox Live. Então não é só na Steam e nos celulares que existe salvação. Mesmo quem quiser seguir jogando jogos AAA de console ainda está em melhor situação do que há 15 ou 20 anos.

- Ainda sobre a Gamers Book, será que existe mercado? Será que daria retorno financeiro o trabalho de traduzir um jogo todo e elaborar um guia completo a tempo de ser lançado antes de o jogo perder relevância? Veja que a Gamers Book, mesmo falando apenas sobre jogos extremamente populares, não sobreviveu a muitas edições. A própria revista Gamers se foi há anos. Mas dê uma conferida, por exemplo, no site da Editora Europa. Eles têm lançado traduções dos guias da Brady Games, além de publicações originais sobre os títulos mais populares dos videogames, guias com 100, 200 ou às vezes até mesmo 400 e tantas páginas, como é o caso do guia de GTA V. Vamos ver até quando eles persistem, torço para que esteja dando retorno.

- O conteúdo das revistas da época era bem restrito, na verdade. E você ficava preso aos artigos específicos que os editores decidiam colocar na revista. Conteúdo como guias, tutoriais e artigos sobre game design, mesmo sem “curadoria” são fáceis de encontrar hoje na internet. Antes, você precisava ir à banca e gastar entre 5 e 10 reais em uma revista que abordava tudo de maneira superficial e muitas vezes trazia informações ou detalhes incorretos. Na internet, nós temos como pesquisar diferentes fontes para confrontá-las, temos fóruns e redes sociais nas quais os usuários trocam experiências ou solicitam ajuda, temos os recursos de áudio e vídeo, que conseguem ilustrar exemplos de maneira que uma revista impressa não conseguia. Não passa de saudosismo acreditar que a situação está ruim hoje e que antes era melhor.

- Sobre os criadores de conteúdo, eu mesmo faço vídeos, tenho um canal muito pequeno no qual eu falo sobre coisas que gosto. Prefiro falar sobre o que gosto e conheço. Poderia ter mais views falando sobre coisas populares, mesmo sem conhecer. Eu adoraria ter disponibilidade para realizar pesquisas aprofundadas com o intuito de conhecer coisas novas e transmitir ao meu pequeno público. Mas eu preciso sobreviver. Eu não conseguiria arrecadar dinheiro o suficiente para pagar meu aluguel, minhas contas e minha comida. Moro sozinho e sou “dono de casa”. Se eu não lavar minhas roupas, se não for ao mercado e cozinhar, por exemplo, ninguém fará por mim. Então eu me limito a ser um nerd falando sobre coisas que eu gosto. As pessoas que chegam até mim também gostam das coisas que eu gosto e não há nada de errado nisso.

- Acho louvável o seu trabalho de pesquisa para CRPG Book Project, que você disponibiliza de graça. Realmente um excelente trabalho. Mas você não pode esperar que outras pessoas tenham as mesmas condições de realizar um trabalho desse porte apenas por amor ao assunto. A sua realidade é certamente bem diferente da de outros criadores de conteúdo.

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