De baixo dos caracóis

Totalmente escrito com dor no cox, sentado numa cadeira de metal da Skol.

— Quem é você? Que abuso é esse de entrar de penetra na minha festa

— Senhor me desculpe, me chamo Menelau da Torre… Vim lhe trazer notícias!

— Notícias? Não estou esperando nada, dê o fora daqui…

— Senhor, não me obrigue a ficar à força. Tenho que lhe contar…

— CONTA O QUE?

— Uma coisa..

— E PORQUE NÃO FALA?!

— Capaz do senhor não gostar…

— Só depois de contar essa tal coisa que poderei saber! Vamos, homem! Desembucha!

— É uma longa história. Lembra que você perdeu seus documentos no Butatam quando foi picado por um lagarto-lua?

— Não.

— Claro, o efeito do veneno te deixou com amnésia permanente…

— Me deixaram com o que?

— Flam blam trutuinha…

— O QUE? Não entendi!

— Vejam, senhores! Esse homem não consegue mais compreender as palavras!

— Você falou enrolado!

— Senhores! Pois vejam, ele está me ameaçando a vida por ter a cura definitiva do joanete!

— Mas não lhe ameacei em nada! Está maluco?

— Senhor, por gentileza, não me obrigue a falar baixinho! Isso poderia acabar com sua celebração…

— Acabar em que nível?

— Catásstrofe meteórica… Coisa de filme.

— Nossa, você é o que? Um reacionário da vida?

— Apenas lhe direi uma palavra: Cascão.

— CASCÃO? É um maldito hippie sujo?

— Lhe direi duas palavras: não sou.

— E o que raios é "cascão"?

— É uma superfície dura. Sá que bem grande… o senhor jamais compreenderia…

— E o que isso tem haver comigo?

— Já disse coisa demais. Vamos ao que interessa… O senhor está de sapatos?

— Estou de tênis.

— Camurça?

— Couro…

— Tem certeza?

— Talvez courino…

— Pode me dizer a cor de suas meias sem olhar para baixo?

— Claro! São brancas…

— Bem brancas ou com detalhes?

— Ornamentada com crochê de linha de couro de alce.

— Passou no teste. Parabéns.

— E a minha notícia importante?

— Você nasceu vestido de salame.

— Como é?! vestido de salame?

— Perfeitamente, senhor… No ventre de sua mãe, tu eras salame. Carne roliça. Quando aos 3 anos aprendeu a arte de fazer vasos de barro, a Evolução lhe deu mãos. Quando as 12 foi convocado pela Legião Estrangeira para ser gandula do time de vársea em Johnesburgo, a Evolução lhe agraciou com pés. Mas pernas só lhe foram presente 20 minutos depois quando alertou á Evolução exclamando “Porra! Assim não fecho a geladeira de longe!”. É um milagre você estar aqui hoje comemorando a chegada da sua restituição do imposto de renda…

— Você me emocionou… — falou choramingante

— Não chore, caralho…

— Choro sim… É minha história! Minha vida sofrida! Meio sóculo para descobrir meu passado…

— Ora, controle as lágrimas, porra…

— Não consigo! Estou muito tocado… — e descia uma rajada d'água

— Ora, homem! Pare de ser banana…

— Conte mais!

— Não sei de mais nada, ué! Era só isso mesmo…

— Duvido! Você é um anjo pra mim…

— Anjo de cu é rôla! Só vim aqui te contar essa palhaçada e agora estou é de olho nesses salgadinhos!

— Coma tudo! Por favor! A festa é sua também! — disse ele agradecido

— Ah tá… me engana que eu gosto! Se fosse minha teria olho de sogra e caldo verde…

— Temos caldo verde, mas não combina muito com a decoração…

— Senhor, se essa festa fosse minha, faria o que eu quisesse! Palhaço, mágico, olho de sogra, quindão, frutas brilhosas no bolo branco… Ia tocar o terror!

— Pode crê…

— Eu creio…

— Eu não…

— Mas eu sim!

— E eu não…

— Porque não?

— Porque… porque… Olha, que tal me deixar em paz?

— Tem razão… Seu pedido é uma ordem.

O penetra puxa de trás da vasta cabeleira grisalha um ziper e se abre deixando sair de dentro de si 3 anões vestidos de porcos ensaboados. O tom da festa muda e inicia-se uma animada competição para pegar os pequenos mamíferos na qual o prêmio final seria um moedor de frutas ou um cachecol de ouro.