O cara novo

Artur Trapp
Sep 3, 2018 · 3 min read
“Cara dos computadores” em seu habitat natural

Segundas-feiras no escritório de advocacia aonde eu trabalhava costumavam ser monótonas e, dependendo da quantidade de tarefas pendentes, até mesmo tediosas, de modo que os funcionários se viam em um processo de migração pendular de seus computadores até a máquina de café. Desse modo, você pode imaginar nossa surpresa quando um dos chefes anunciou que teríamos um colega novo.

“Esse é Leonardo” o nosso gerente anuncia com um quê de entusiasmo. “Ele é o cara novo”. Depois disso, Leonardo foi designado para uma sala no fundo do escritório, aonde ficavam os servidores do escritório, que hospedavam nosso pequeno sistema interno.

Com algumas perguntas sugestivas e pesquisas por perfis no LinkedIn, logo a máfia de informações do escritório descobriu a verdadeira natureza de Leonardo, e sem mais demoras, os

“Parece que ele é um daqueles caras de computadores.” uns diziam em cochichos.

“Programador? Ótimo, minha impressora estragou” outros mais entusiasmados arriscavam.

Por minha vez, mantive um pé atrás. Sempre fui mais reservado em relação a novas tecnologias. Nada contra a informática, mas papel e caneta nunca me falharam aonde outras supostas “alternativas inovadoras” falharam. Porém, Leonardo estava longe de sumir da minha vida.


Eu sempre era o primeiro a chegar no escritório, então é possível imaginar como fiquei surpreso ao encontrar Leonardo mexendo na minha cadeira em uma terça-feira, às sete e meia da manhã. Eu estaria mentindo se dissesse que aquilo não me irritou um pouco. Quem ele pensava que era?

“Com licença?” eu disse, como que pegando-o no flagra.

“Ah, olá. Bem, o gerente me disse para dar uma olhada nas cadeiras desta sala, pois haviam acontecido algumas reclamações sobre molas quebradas. Mas já estou saindo.” ele se levanta de prontidão com um sorriso tímido.

Como ele sabia arrumar cadeiras? Ele não era o cara do computador? De qualquer maneira, decidi deixar aquilo de lado. Essa terça-feira iria ser um dia cheio, e distrações só iam atrapalhar. Meu subconsciente tentou afastar a ideia, mas enquanto eu digitava freneticamente não pude deixar de notar que minha cadeira estava de fato, consertada.

Conforme as horas passavam, comentários feitos pelos meus colegas em relação a Leonardo chegavam a meus ouvidos, sempre me fazendo revirar os olhos ou bufar comigo mesmo.

“É, ele instalou isso no meu e-mail. Nunca mais tive problemas com vírus!” ouvi dois colegas conversando no corredor.

“Meu teclado estava com as teclas meio presas, agora consigo digitar que é uma maravilha, graças a ele.” outras duas colegas ainda falaram.

Aparentemente, não havia para onde fugir. Leonardo havia tomado conta do escritório. Decido então, ir para o único lugar aonde eu sabia que não haveria influência dele: a máquina de café. Agora, minha a fama do meu café me precedia, todos elogiavam o sabor do meu café. Claro que eu não fazia mais do que colocar quatro colheres e meia de pó de café na máquina e a quantidade certa de café na jarra, mas eu nunca admitiria isso. Meu café era o melhor, e eu sabia. O problema é que ao chegar lá, o café estava feito, e Marcos, um outro colega meu, já estava se servindo.

“Você fez café, Marcos?” arrisquei, já temendo o pior.

“Não! Foi o cara novo… e você devia provar, está uma maravilha!” ele retruca, radiante.

Aquilo foi a gota da água, e foi ali que percebi que havia algo errado, e esse algo era eu. Decidi conversar com Leonardo, e aos poucos, descobri mais sobre como era “ser o cara dos computadores”. Aparentemente, devido a natureza polimórfica da área dele, ele havia aprendido um pouco sobre tudo, desde cálculos sobre valores de oxigênio no sangue até sobre como calcular uma folha de pagamento, tudo devido a sistemas que ele havia desenvolvido em trabalhos anteriores.

Decidi, por mim mesmo, pesquisar sobre, e aos poucos, fui aprendendo sobre as nuances de ser um “cara dos computadores”. Quando me senti confiante o suficiente, finalmente procurei um emprego para trabalhar nesse cargo.

Não pude deixar de notar a cara dos meus colegas quando meu chefe disse “Esse é Artur. O cara novo”.

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