# 1 Imbolc: O Cheiro do Ferro (parte 1)

Era com timidez e vagarosidade que a primavera se aproximava.
A caravana se aproximava de mais uma cidade; uma não tão pequena, dessa vez. Passando quase um inverno inteiro reabastecendo os mantimentos em pequenos vilarejos, os viajantes enfrentaram uma alarmante escassez de recursos. Assim, era com alegria que os líderes do grupo identificavam vida nova e verde espreitando onde a neve derretia, bem como a chegada em uma cidade de médio porte.
- Veja, Andreas! Chegamos à tempo do festival. — disse uma voz doce e feminina, pertencente à caravana, a seu filho.
- Isso é ESTÚPIDO, mãe. — o jovem estava mais do que aborrecido. — Não devíamos perder tempo passando a noite nessa cidade. Tínhamos que reabastecer com o que for possível e voltar a viajar. — ele insistia, convicto.
- É uma pena que essa decisão não é sua, não é mesmo? Além do mais, participar do festival é importante para todos na caravana. E muito importante para o seu pai. Comporte-se. — ordenou a mãe, porém sem se alterar. O jovem apenas cruzou os braços e bufou, contrariado.
Enquanto os líderes da caravana negociavam a estadia de todos e o reabastecimento, os demais se concentravam em ajudar com o que pudessem para os preparativos das “Fogueiras de Brigit”, como os locais chamavam o festival para celebrar o ápice do inverno. Prestativamente, os viajantes se apresentavam aos moradores da cidade, ajudando-os a mover o que era necessário para a praça principal: mesas, bancos, travessas com comida e bebida. Havia uma quantidade considerável de leite e queijos — um tipo de abundância que prenunciava boas marés para aquela cidade.
Andreas observava o local, de péssimo humor e com um ceticismo cortante. Não acreditava que seu pai, um exímio artesão e ferreiro, seu mestre e professor, participava com tanto gosto daquela bobagem. Era com desprezo que observava a decoração dos prédios, com fitas amarelas, laranjadas e vermelhas, representando o fogo e a deusa Brigit. Perto das fogueiras, os residentes queimavam papeis ou tiras de pano com as coisas que gostariam de banir de suas vidas. O garoto achava aquilo uma enorme perda de tempo, e se recusava a participar das festividades.
Com raiva e passos pesados, resolveu se retirar para dentro da floresta.
Passando os vagões da caravana, além da estrada, Andreas caminhava na direção das árvores. O rapaz não aguentava mais viajar. Queria apenas chegar logo em casa, no lugar onde nasceu, para ver se sua amada ainda o esperava. A dúvida o consumia: já fazia mais de um ano que não voltava para casa. Ela o esperaria? Em seus dezesseis anos de vida, um ano parecia uma eternidade; ainda mais um ano inteirinho na estrada. Ele culpava ao pai, e a profissão dele: ensinar técnicas avançadas aos ferreiros das forças armadas do Rei já tinha roubado tempo demais de suas vidas. Neste período todo, Andreas não conseguiu aprender muito na prática, também; podia apenas observar o trabalho de seu pai, ensinando aos empregados do Rei. Aquilo era chato. Em casa, ele poderia trabalhar de verdade.
Distraído em suas angústias, Andreas não percebeu que estava perdido antes que fosse tarde demais. Ao olhar para os lados, a floresta estava escura. Não notou o pôr-do-sol, e agora não sabia como voltar. Tentou procurar pelas próprias pegadas nos restos de neve, sem sucesso. O frio começava a penetrar seus ossos… E o desespero também. Sua voz ecoou diversas vezes, perguntando se alguém o ouvia. Não houve resposta. O rapaz percebia que quanto mais andava, mais perdido ficava.
Foi quando sentou-se à beira de uma árvore, para descansar. Precisava pensar no que fazer. Talvez pudesse dormir na floresta, e retornar pela manhã… Se não estivesse tão frio. O vento batia incessantemente, e seu corpo começava a tremer. Tentou gritar por socorro, e sua voz não saiu. Por um breve momento, achou ter visto vários vagalumes aparecendo do nada… E então tudo escureceu.
***
O rapaz sentiu um calor aconchegante em todo o seu corpo, segundos antes de recuperar seus sentidos. Ao abrir os olhos, tomou um susto: uma jovem senhora tinha olhos enormes pregados aos dele. Seus cabelos, de alguma forma, lembravam as fogueiras de Brigit… A cor, o movimento. Suas mãos lembravam levemente as garras de uma ave de rapina, e tinham as marcas e cores de mãos que lidam com a terra. Seus olhos eram como um abismo, escuros e profundos. Ela retirava de sua testa um pano úmido, feito de um tecido mais suave do que a mais rica seda.
- Que ideia, sair sozinho pela floresta no auge do inverno. Ao anoitecer. O que Brigit lhe fez, jovem? — perguntou a senhora, com uma voz que parecia ecoar dentro do peito do garoto. — Não se levante, menino. Trarei uma bebida quente para recuperar suas forças. — ela disse, levantando-se e saindo de seu campo de visão.
Andreas constatou que estava deitado em um chão feito de raízes. Cobertores de pele de urso se empilhavam em seu corpo, mantendo-o confortavelmente aquecido. Ao se sentar, a primeira coisa que chamou sua atenção foi a lareira: não havia lenha queimando nela. Ao invés disso, havia apenas um fogo arroxeado, queimando em silêncio, sem nenhum crepitar. Conforme olhava ao seu redor, estranhava mais e mais o lugar: parecia estar dentro de uma árvore. Uma enorme árvore. A luz vinha de várias fontes além da lareira; ele observava velas, vagalumes, lanternas. Haviam móveis, embora não pudesse afirmar já ter visto qualquer coisa semelhante em sua vida: as mesas, cadeiras, armários e prateleiras pareciam ser feitos de raízes e galhos retorcidos, vindos do chão e das paredes. Tudo parecia ser embutido no oco daquela monstruosa árvore, e feito de partes da mesma. O rapaz desobedeceu e se levantou, ávido por observar mais.
Ele chegou perto dos móveis e constatou que sim, eles eram parte da árvore. Se chegasse bem perto, podia ver formigas e lagartas caminhando tranquilamente em algumas partes do tronco. Analisou as estantes e seus livros maravilhosos, com títulos em idiomas que nem sabia que existiam. Observou com explosiva curiosidade a bancada repleta de ferramentas, potes sem rótulo com ervas e outras substâncias armazenadas. Ao chegar no orbe de cristal e no tomo de adivinhação daquela senhora, o garoto precisou se sentar novamente. Onde estava? O que era aquilo tudo?
- Eu disse para não se levantar, menino teimoso! Diga-me o seu nome. — pediu a senhora, estendendo ao garoto um copo com leite fumegando.
- Andreas… Senhora. — ele disse, cheirando o vapor em seguida, desconfiado.
- Andreas… — ela repetiu o nome, que dançou em seus lábios como uma canção antiga. O garoto engasgou ao ouvir seu nome daquela forma. Também tornou-se muito consciente de que ainda estava perdido no meio da floresta, aceitando bebidas de uma senhora muito suspeita.
- Garoto. Se o quisesse morto, o deixaria onde o encontrei. É só leite. Beba. — disse a mulher, assertiva. O rapaz assentiu, bebendo um gole tímido; sentiu um gosto doce e apimentado, de canela, noz moscada, cravo e mel. O calor se espalhou pelo seu peito instantaneamente e, abrindo um sorriso, começou a beber goles bem mais generosos.
- Onde estamos, senhora? — ele perguntou, após permanecerem um tempo em silêncio.
- Estamos na minha casa, querido. Na Árvore Oca. — respondeu a mulher, com simplicidade.
- E o que são todas essas coisas? A senhora é uma bruxa? Ou uma fada? Como estamos dentro de uma árvore? Ela é viva? Ou está morta? Por que quando eu olho pra cima, só enxergo o escuro? Como você queima um fogo dentro de uma árvore? E também… Não tem lenha? Eu… — Andreas se calou instantaneamente quando a mão daquela senhora se levantou.
- Essas são muitas questões, jovem. Permitirei três apenas, e com uma condição: após ter a última pergunta respondida, voltará e participará do festival com seu pai, deixando uma oferenda para Brigit. — disse ela, de braços cruzados.
O garoto mordeu a língua para segurar o impulso de perguntar como ela sabia sobre seu pai — afinal, poderia fazer apenas três perguntas. Então assentiu com a cabeça, levantando-se e andando para pensar. Observava novamente o interior daquele lugar, pois não queria esquecê-lo de forma alguma; era a coisa mais fantástica que já tinha visto em sua vida. Ele bebia enquanto pensava. Queria levantar questionamentos que com certeza teriam uma resposta: se perguntasse “Brigit realmente existe?”, a senhora poderia não saber, ou responder de forma capciosa. Então, perguntaria sobre aquele local. Sobre ela.
- Certo… Já tenho uma pergunta. — ele disse, virando-se para a senhora. Ela se levantou e flutuou até onde ele estava; a lareira. Isso o distraiu e ele quase fez uma pergunta diferente. Teve que sacudir a cabeça para recuperar a concentração.
- Qual é o mistério por trás desta lareira? — perguntou Andreas, apontando para o fogo lilás.
- Menino… Há coisas que os humanos não conseguem entender, pois são coisas que não seguem as regras do seu mundo. Porém, tentarei explicar. Estando em minha casa, você já não está mais no mundo do qual veio. Em dias de celebração aos deuses e deusas, o véu entre os mundos sempre fica mais fino… E é mais fácil os nossos mundos colidirem, quando isso acontece. Este fogo não é o fogo que você conhece, e esse é o mistério. Toque-o. — ela pediu, estendendo a própria mão e colocando-a dentro da chama.
- NÃO! — gritou o garoto, assustado com o gesto da senhora. Porém, ela não gritava. Sua mão também não era consumida pelas chamas, que definitivamente aqueciam o interior daquele lugar. Estreitando os olhos, ele esticou a própria mão. Tentou cutucar o fogo, mas sentia apenas calor. Então, em um impulso de fé, colocou a mão inteira dentro da lareira; nada aconteceu. Continuou sentindo apenas um confortável calor. Virou-se de olhos arregalados para encarar aquela senhora, que sorria de forma irritantemente repleta de conhecimentos e verdades ocultas. Sentia que podia ter perguntado algo mais interessante.
- Já tenho a minha próxima pergunta. O que é a senhora? — ele atirou, com tom insolente. Em desagrado ela se levantou, lançando ao menino um olhar vivo e ardente, que fez sua cabeça abaixar instantaneamente. Começou a circular à sua volta, como quem cerca uma presa.
- Andreas. — ela proferiu seu nome, e uma força invisível o fez ficar imóvel onde estava. Os olhos do garoto se arregalaram, porém ele não conseguiu proferir palavra. — Eu sou algo que o seu povo não conseguiu sequer imaginar ou conceber em seu folclore ou panteão. Tenho sangue de encantado, porém não sou uma fada. — ela chegou perto do rapaz, e pareceu rejuvenescer quarenta anos. — Tenho constituição humana, porém não sou uma. Estou nessa terra e nessa árvore há mais tempo do que o seu povo existe. Resolvi salvar sua vida, portanto ela é minha. E escolhi mandá-lo de volta para o seu povo, quando poderia abandoná-lo na floresta novamente; não faça com que eu me arrependa dessa escolha. — a mulher parou na frente do garoto, que suava em ansiedade. — Não desdenhe da mão que o salvou.
O menino apenas assentiu com a cabeça, completamente aterrorizado. A mulher, satisfeita, o libertou; agora ele podia se mover livremente, respirar direito e se recuperar fisicamente. Como se nada tivesse acontecido, ela se sentou novamente à mesa, aparentando novamente ser uma senhora. Andreas estava absolutamente chocado com toda aquela experiência e começou a andar de um lado para o outro, em pânico. A senhora o esperava pacientemente, aguardando a terceira pergunta que só viria quando ele se acalmasse.
A cabeça de Andreas não parava por um segundo. Tudo aquilo no que já tinha acreditado desmoronava diante de seus olhos. Seu deboche pelas crenças de sua família foram jogados de volta para ele, e os fatos zombavam de sua pretensão. O sobrenatural existia. O Reino das Fadas era real. Seu pai estaria neste momento fazendo uma oferenda à padroeira dos ferreiros, e ele não estaria lá. O turbilhão de pensamentos sofreu uma parada brusca quando avistou um objeto interessante, em uma das prateleiras. Sem pensar, gastou sua última pergunta.
O que é isto? — ele deixou escapar, percebendo o que fez logo em seguida. Levou uma mão à testa, sentindo-se estúpido.

A mulher flutuou até onde ele estava, novamente. Seu rosto, antes repleto de explosivo poder e fúria, agora mostrava uma candura extremamente humana. Ao esticar o braço fino para pegar o objeto em questão, Andreas observou uma enorme cicatriz de queimadura, que se estendia pela maior parte de sua pele. Não tinha reparado naquilo antes… Ela observava aquele enfeite com amor no olhar. Seu rosto e corpo pareciam rejuvenescer novamente; antes uma senhora, agora uma perfeita donzela de cabelos de fogo.
- Isto é… Uma memória doce. O cheiro do ferro.
O objeto em questão realmente parecia uma recordação: era uma pequena garrafa de vidro, fechada com uma rolha. Dentro dela, havia algo fantástico. Um minúsculo tronco, com uma bigorna em cima e uma marreta encostada. Em volta, cresciam cogumelos na grama e no musgo, formando um anel de fada. Aquilo parecia vivo, real. Andreas não conseguia conceber o quanto o Rei pagaria por um artefato daquele. Mas, ao mesmo tempo, sabia em seu coração que aquilo jamais poderia cair nas mãos do Rei. Ou de qualquer pessoa, na verdade.
- Isto, de certa forma, vem do Reino das Fadas. Ao menos… Há uma cena real que está intocada há séculos, dentro da terra dos encantados. E isto… Foi feito para que eu não me esquecesse dessa lembrança tão quente e primaveril. — ponderando por um momento, ela estendeu o objeto ao garoto. — Sua vida é minha, e tenho uma ordem: leve este artefato como oferenda para Brigit. Seu pai saberá o que fazer.
O rapaz apenas assentiu. Sua terceira pergunta foi feita, e era hora de ir embora. Ele colocou o artefato em sua bolsa, olhando novamente para a jovem senhora; se ela era realmente uma donzela ou uma velha, ele nunca saberia.
- Obrigado. — ele agradeceu, humildemente.
O agradecimento foi recebido com um enorme sorriso daquela criatura, que o direcionou para fora da Árvore Oca. O garoto teve um breve vislumbre do tamanho daquela árvore colossal; mas em um piscar de olhos tudo desapareceu, e estava novamente na cidade em que pararam, como se nenhum tempo tivesse passado.
Sua primeira ação foi encontrar seu pai. Disse a ele que participaria do festival, e pediu desculpas por seu humor difícil durante a viagem. Foi recebido pelo homem com desconfiança, sentimento que foi se dissipando no decorrer das festividades. Andreas mostrou o objeto que precisava oferecer a Brigit, e o ferreiro se surpreendeu com a natureza do artefato. “Tem certeza disso, meu filho?”, perguntou. O garoto confirmou que precisava fazer a oferenda, para receber a explicação de que deveria atirar o objeto ao fogo. Foi com enorme pesar que o menino cumpriu a ordem da jovem senhora, jogando o artefato às chamas.
Ele bebeu e comeu durante a noite, pertencendo àquela cidade por algumas horas. Também dançou e conversou com alguns amigos da caravana, finalmente se soltando com aquelas pessoas. Por um momento, podia jurar que viu a jovem senhora dançando em volta da fogueira, com uma sombra negra de contornos difusos seguindo-a na dança. Subitamente envergonhado, desviou o olhar. Não parecia ser algo que ele deveria observar.
***
No dia seguinte, a caravana se preparava para deixar a cidade. Alguns dos viajantes ajudavam os residentes com a limpeza, e outros empacotavam os mantimentos. O rapaz, após ajudar a recolher mesas e bancos, resolveu revirar os restos da fogueira da noite anterior. Procurava por restos daquele objeto, sem sucesso. Então desistiu, retornando à sua carroça.
- Já estamos indo para casa, filho. Antes que pergunte. — disse a mãe, impaciente.
- Eu sei, mãe. De repente não estou mais com tanta pressa. O festival foi bom, não? — perguntou Andreas, alegre.
- Mas o que te mordeu ontem à noite? Foi uma garota?
- Hm… Mais ou menos. — respondeu vagamente, soltando uma gargalhada.
Da forma que enxergava, ganhou na noite anterior uma segunda chance. Um novo começo, e por isso não havia pressa. Por isso estava feliz. As fogueiras de Brigit eram exatamente sobre isso; foi o que um aldeão lhe disse, na noite passada. “O festival nos dá algo para acreditar. Nos dá uma esperança em um novo ciclo. O inverno da alma vai embora, dando lugar ao fogo e à vida nova.”, disse o homem.
E agora, Andreas acreditava.
