Desejo de mundo

Vivia de anseios, um mar inteiro de abraços.

Viajou para o além-mar e viu rostos do mundo inteiro, cantando em outros idiomas, inimagináveis de compreender. Viu pequenas casas em topos de montanhas que nevam, e pequenos gestos de maos que esquentavam uma a outra quando o ar saía branco da boca.

Viu casais, famílias, árvores, animais, prédios, castelos, usinas, casebres, uma infinita amostra de tudo, e estava resoluta de que tudo era caótico, mas ainda assim, bonito.

Desejou que pudesse ver dentro de cada coisa. Achava “bonita” uma maneira preguiçosa de elogiar a existencia. Queria poder falar sobre ser profundo, sobre o sentimento do mundo, sobre a honra, a coragem, o carinho, a absurdez da vida. Mas só dizia das belezas, que iluminavam os olhos - essa porta do coração.

Desejou que tivesse um amor tao livre de amarras e tao disposto a ser humano, que pudesse lhe beijar os olhos e sentir o mundo inteiro habitando na sua frente.

Desejou que suas maos fossem azuis e tempestuosas como o mar do Norte, e sua boca fosse alta como os prédios de Roma, que sua voz fosse doce como as aguas de qualquer chuva, e que seu querer fosse tanto, como as ferrovias que cruzam o Velho Mundo - essa eterna ilha que rouba o ouro dos outros povos.

Desejou que sua testa clamasse por justiça, e que seus bracos oferecessem o perdão nunca oferecido pela Palestina. Que a sua língua fosse vermelha como o sangue derramado na neve russa, e seu peito fosse macio como a Revolução de Veludo.

Na varanda, desejava que seu amor fosse mundo.

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