Nenhuma vida é em vão

Se um pedaço de mim desprender-se do corpo a partir de uma palavra, saberei que minha vida não foi em vão.
Se nos dias que nascem com cor de sol, eu puder beijar a terra e criar coragens, saberei que minha vida não foi em vão.
Se os ombros, os colos, os abraços, os toques sutis de lampejo que imprimem na carne a ternura da vida, me forem ainda disponíveis, saberei que minha vida não foi em vão.
Se a infinita parcela do meu ser entender que pode criar sete campos de sabedorias simples e colher dois oceanos de calmarias, saberei que minha vida não foi em vão.
Se nos lugares que habito, e que me sinto pertencida, existir uma fresta para colocar mais irmãos, saberei que minha vida não foi em vão.
Se cada paisagem for mais que a beleza, e mais que o retorno esperado, se eu puder enxergar o bater de asas de um beija-flor como uma fração da grandeza do mundo, saberei que minha vida não foi em vão.
Se eu puder ouvir anjos, conversar com anjos, cantarolar com anjos, saberei que nenhuma vida é em vão.