Parte 1 — Oração

Pedi ao tempo o ritmo exato para honrar quem eu sou, para que aqueles que cheguem, sejam apenas uma extensão da parte mais bonita de mim. E ainda que existam tantas sombras, elas serão iluminadas.

A busca espiritual nunca foi sobre alienar-se e vestir uma máscara de good vibes, é sobre equilibrar-se. E o equilíbrio é um processo, é preciso percorrer longos caminhos. E todos esses são sobre aprender a largar, perder, recuar, aprender a ser simples.

Eparrei Oyá! Meu Brasil habita a voz dos orixás.

Eu não tenho nada a provar. Sou apenas isso. E isso é muito. E é pouco. É o suficiente. Basta que eu exista.

No final (e no meio) da vida, o que vale são as nossas vivências e o quanto a gente pôde fazer o outro feliz, trazendo felicidade à nós mesmos também.

Pedi ao tempo que os anjos guiassem meus passos, me mostrassem o caminho limpo e que colorissem os meus dias.

Primeiro dentro: fé, oração, encontro, cintilação, acalento, serenidade.
Depois o mundo, para partilhar.

Parte 2 — Desculpe, modernidade

A civilização moderna ocidental é como o transistor. 
É demais pro meu coração.

Gosto de beijar a terra e saudar os seres iluminados que me fazem acreditar na beleza. Me afasto do plástico, da artificialidade, das ausências, dos egoísmos e dos barulhos onde reside o desespero. Gosto de organicidade, de realidade, de toque, de troca e de silêncios onde reside a confiança.

O individualismo e o ateísmo nas suas formas absolutas despressurizam a graciosidade do meu viver.

Gosto de ancestralidade, dos saberes da terra, de desafiar a ordem dos verbos, as conjugações: Quero engolir o mar. Quero plantar amor no peito com escavadeiras do tamanho de baleias. Quero queimar a gaiola do tempo que habita o coração dos humanos. Quero querer menos, e ainda assim quero imenso.

Sinto minha alma. Não há ciência, teoria ou ideologia que me faça diminuta ao mundo material, porque eu sinto. E talvez seja essa a razão dos poetas. Sentir em palavras.

Habito um corpo. Eu não sou daqui.

(Agradeço, Caetano).