Tinta branca e poesia

A pixação no muro não durou nem 2 dias. De tinta branca a sutileza foi coberta e silenciada.

O dizer era: “Você é como poesia”.

A intervenção manchada de branco talvez só não fosse mais triste do que as paixões de meia semana.

Os tempos de agora não são capazes de suportar qualquer coisa que faça pensar o sentido do mundo. As paredes do supermercado foram feitas pra tecer a ordem do capital, distante de qualquer letra com intenções humanas.

É preciso que a vista esteja limpa, translúcida como aquele céu pintado de azul na fotografia do comercial.

É preciso que as pessoas passem e não se vejam, e não vejam nem a própria cidade, ou pensem quais são as lógicas que a fazem reduto das mentes aceleradas.

É preciso mais do que paredes brancas ou muros segregando toda a gente, pra fazer esquecer que debaixo desse monte de tinta branca existem pessoas que ainda sentem o pulsar da vida.