Dia útil
Mais um detestável dia quente. É difícil encontrar ânimo e conforto nos braços da cidade que costuma me acolher tão bem quando a temperatura está baixa. É um dia útil, uma quinta-feira. “Dia útil”, e eu não sei qual a utilidade deste dia. Talvez mais um dia de menos vida. Uma complexidade que só os mais intensos sabem e compreendem (e eu ainda vou insistir nisso). Estou em um subúrbio paulistano, um centro comercial frequentado pela classe média baixa. Rostos abatidos, cabisbaixos, orelhas que comportam fones de ouvido tocando músicas que, supostamente, não são das melhores para se ouvir. Na ida, é até tranquilo. Os corpos não se chocam tanto, a tranquilidade se faz mais presente. Estou num estabelecimento tomando uma bebida à base de café e chocolate. O som do liquidificador se mistura com o jazz que está sendo tocado no local, como música ambiente, quase que remontando perfeitamente uma Nova York dos anos 50. Temos negros aqui, pobres, excluídos e desfavorecidos; a única diferença é que eles não conseguem apreciar a música do recinto.
Pobres são os jovens da minha geração… Vivem suas vidas, na maioria das vezes, preocupados em seguir a linearidade retrógrada de seus antepassados. E pior que isso é saber a da existência de uma verdade absoluta em suas mentes. Uma religião, a constituição de uma família (que quanto mais cedo for construída, melhor), uma rotina de trabalho para ser seguida incessantemente todos os dias. Não que seja errado, mas não consigo aceitar com facilidade o tradicional. Eu também sigo o tradicional, mas procuro escapar de rotinas sempre que possível.
As vozes sobrepõem a música do recinto. Minha bebida acabou, meu dinheiro está contado, e as pessoas parecem não se preocupar com próximos segundos, com os amanhãs de suas vidas. Não sei, ao certo, como elas são por dentro, mas existe um mistério assombrando esse lugar… Por qual motivo nossos rostos se encontraram?