Existência (ou o fado ao fracasso pela busca)

Não é em toda manhã que eu me sinto deslumbrante e exultante como hoje. Ultimamente tenho visto mais sentido na dor, crente de que ela irá me construir mais forte a cada dia que passa. Larguei essa vida. Hoje, meu propósito é ver e provar que a felicidade existe mais na nossa vida do que os maus momentos que nos acometem. E o melhor: sem alucinógenos ou bebidas. Já até larguei o cigarro. Meu médico disse que eu teria de tomar uma decisão: ou optaria pela minha melancolia tóxica ou pela minha felicidade pura. Decidi-me, então, respirar um ar tão puro quanto a minha alma, tão vivo e iluminado quanto a minha mente. É um discurso romântico, mas poder afirmar com exatidão que a felicidade plena é real da mesma forma que os muros que nos protegem em nossas casas fazem com que eu me sinta o homem mais afortunado do mundo. Larguei os remédios também. Já não dependo mais de nada que mexa diretamente com o meu cérebro. Alguns falam que quero subverter o curso da vida; outros acham que estou delirando, que tenho transtornos, mas jamais saberão eles o que é, de fato, a verdadeira felicidade. Eu quero descrever isso. Primeiro, a sua percepção de mundo muda. Seus conceitos se mantêm, então, não há o que temer, se achar que a personalidade pode se espairecer ou algo do tipo. Não. Isso, não ocorre. A visão a respeito do mundo é o que muda. Não só o exterior, bem… Como explicar a ciência sem deus? Olha, o céu, as pessoas, os sons, o toque, o andar, meu próprio olhar. É como um sonho. Todos amamos sonhar, em nossa maioria, e isso é como um sonho. A atmosfera pesa nos ombros como se fôssemos do mundo e o mundo como se não fosse nada. As cores do dia são sempre frias pela manhã e pela tarde, acinzentadas e poucos azuis no céu. Somente no início da noite é que o laranja se mescla com um azul-marinho, preenchendo a tela universal que paira sobre minha cabeça, numa tonalidade que conota imensidão, infinitude.

O poder das coisas simples. Eu olhava para aquele céu e a brisa fria do inverno me tocava o corpo de uma forma que meus pelos todos se arrepiavam. Quase que uma espécie de renovação. Meu olhar o tempo todo, realmente o tempo todo, era invadido por fortes contrastes, e havia um atraso na minha capacidade cognitiva para com o reconhecimento dos acontecidos de todo aquele dia e também dos que se precederam, e eu não achava que era eu, ali, naquele momento. Como em tudo há um equilíbrio, a felicidade plena nos reserva algumas frustrações também, mas o seu tamanho é definido unicamente por cada um de nós. Em mim, confesso, havia uma grande frustração. E eu não sabia se era comigo ou para com o mundo no qual eu estava fazendo parte agora. Novo mundo. Ou novo eu? Quem muda, afinal, nós, o mundo, ou o nosso mundo? Ou nada muda e isso seria apenas fruto de nosso subconsciente, que faz questão de nos agradar com base em nosso grau de satisfação para com a realidade? Os remédios, as bebidas, os cigarros, drogas, seriam eles a projeção do mundo ideal? Loucura, ser louco, o grande esforço para ser louco em um mundo normal ou o inverso? Eu não queria pensar nisso. Isso é frustração, não felicidade. No meu trabalho aquele dia foram uns cinco copos de café e algumas engrenagens. As pessoas eram todas mecânicas, e eu as via com um olhar diferente: de medo, repulsa, aversão, desprezo. Estavam iguais a mim lá, presentes, e ao mesmo tempo não estavam. Meu andar era trêmulo, mas faz parte do processo, imagino. Tenho certeza.

E os contrastes permaneciam. Aquele lanche estava delicioso e a hora não passava. Nem me lembro qual a ordem de sucessão dos fatos, e isso nem importa. A felicidade é um emaranhado de fatos que ocorrem simultaneamente e chega a parecer com o delírio, mas é mais satisfatório. E aquela hora? Eu não tenho o hábito de trabalhar à tarde, e foi uma experiência agonizante. Odeio trabalhar. Nem sei o que quero. A felicidade é fazer questionamentos a si próprio como quem sou eu, pra onde vou. Quem sou eu? A hora não passava e eu não tinha distração, somente meu olhar que tudo observava e absorvia, e meus sentidos, era um conhecimento do próprio corpo. Senti meu braço frio como nunca sentira antes e minhas veias saltadas tinham a mesma cor do céu que me conotou infinitude, um pouco mais claras, era uma mistura. Posso dizer que eram veias em tons de azuis e um pouco de verde, não faço a mínima ideia do que seja.

E nesse processo vulgar, quantos insights. Que diriam de mim os psiquiatras se me vissem? E os outros, que diriam também? Olhe lá, um louco. Que pena, de verdade. O processo de felicidade é complexo. Finalmente passou a hora, e no ônibus eu estava sozinho como estive no trabalho, em casa e nos cafés. Não quis falar por conveniência, mas, e se fizer parte do processo? Eu não sei. Só me entreguei e deduzi coisas pelo resto da noite e nos dias que sucederam o ocorrido. Foi no serviço mesmo. Não sabia se existia, mas não era algo, ou alguém, era eu. Eu não sentia minha existência: não a reconhecia. Vi minhas mãos pálidas e gélidas de ambos os lados, mas enquanto eu via as minhas mãos, via-me vendo as minhas mãos. Era uma espécie de sonho triplo. Minhas mãos projetadas em meus olhos, um sonho. Eu olhando minhas mãos, outro sonho. Eu me olhando enquanto olhava as minhas mãos, um terceiro sonho. Foi horrível, mas fazia parte do processo, tenho certeza. Mas foi realmente horrível. Algo impossível de descrever. Não gosto de criar mentiras a respeito de sensações: elas devem ser expostas assim da maneira como são sentidas, e isso é a felicidade plena. Tenho certeza novamente. Haveria alguma outra forma mais complexa de ela se manifestar? Sinto pena, já disse, dos que não a conhecem e nem permitem conhecer. Ela vem do nada, e algo parece estar errado, você percebe isso, só que o errado passa a ser o certo para você, e os demais, infelizes e sempre rodeados de gente, passam a serem errados. A cabeça se acostuma com a nova forma de ser, de pensar. Eu prometo não ser mais trágico, prometo não ser triste, nem sádico, ou masoquista em meus desejos de auto-realização. As chagas da minha alma nunca se curam, e eu nem quero isso. Tantas reflexões sobre tantos pequenos detalhes fúteis, físicos e metafísicos, e desapercebidos pela vivência, o poste que pisca de forma imprevisível, o significado da vida, o banco rasgado do ônibus, a origem da vida na Terra, os bares cheios de almas afortunadas, o medo da morte, a explicação dos sonhos.

Eu acabei por não saber o que é a verdadeira felicidade.