O caso Joffrey

Joffrey Baratheon, ou “Joffrey Baratheon, das Casas Baratheon e Lannister, Primeiro de seu Nome, Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhor dos Sete Reinos e Protetor do Território”, 13 anos, ocupava o cargo de rei de Westeros quando procurou terapia. Estava noivo de Margaery Tyrell, e seu casamento aconteceria em breve. Pouco antes, em menos de um ano, Joffrey havia rompido um noivado com uma jovem chamada Sansa Stark.

O cliente fazia uso de álcool com frequência, muitas vezes de modo abusivo, hábito compartilhado pelos colegas e familiares. Vivia com sua mãe, avô, tios maternos, um irmão e uma irmã mais novos, seu núcleo familiar central. Em sua residência, (chamada “Fortaleza Vermelha”), viviam também outros membros da nobreza e prestadores de serviços, e eventualmente alguns prisioneiros. Dificilmente J. ficava sozinho, sendo cercado por guardas particulares e outros funcionários. Durante as sessões de terapia, acordou-se que um dos guardas que obrigatoriamente deveria acompanhá-lo esperaria pelo término das sessões em uma ante sala próxima.

Durante sua infância, conviveu com os pais e irmãos, mas passou a maior parte do tempo sob os cuidados dos funcionários do castelo, responsáveis por sua educação e treinamento militar. Os pais do cliente faziam uso abusivo de álcool, especialmente seu pai, cujos episódios de embriagez excessiva eram famosos. A relação entre seus pais foi marcada por infidelidade, agressões verbais e um forte teor de violência psicológica, de ambas as partes, situação agravada pelo comportamento desviante de Robert (pai) e seus gastos excessivos, que acabaram por comprometer financeiramente todo o reino. O cliente dizia não se lembrar de interações afetuosas entre ele e seu pai, acreditando que este se envergonhava dele e nunca o aprovara em suas atitudes.

Robert, pai do cliente, liderou uma rebelião anos antes do nascimento de J., na qual depôs o governante da época, sendo responsável pela morte deste e de sua família. Robert assumiu o trono após a rebelião, casando-se com a mãe do cliente, Cersei, como um acordo parte de uma aliança política entre suas famílias. Esses fatos marcaram o momento histórico vivido pelo cliente, que cresceu aprendendo que o que seu pai havia feito tinha sido heroico e corajoso.

Em uma entrevista inicial com a mãe do cliente, esta relatou que J. cresceu como uma criança de “temperamento forte”, o que de acordo com ela era uma característica que partilhavam. Embora relate alguns comportamentos desviantes, considerados como sádicos por seu teor agressivo, Cersei não disse acreditar que houvesse qualquer ponto problemático nos métodos de educação e no estilo parental apresentado a seu filho, uma vez que, segundo seu relato, “todas as suas vontades lhe eram concedidas”. Pouco antes de procurar terapia, Joffrey havia decapitado em público um amigo próximo de seu pai, e recente membro da corte, Eddard Stark, que havia sido acusado de traição após a morte de Robert, por não reconhecer a legitimidade do governo de J., por razões que o cliente não chegou a conhecer.

A princípio, o cliente procurou o atendimento por sugestão de seu avô, Tywin Lannister, que segundo relatos do cliente acreditava que a notícia de que estava em acompanhamento profissional poderia melhorar a visão de que seu governo era impessoal e cruel, diminuindo a insatisfação popular. Tywin expressou preocupação pela data próxima do casamento do neto já que, segundo ele, casamentos sangrentos pareciam ser uma nova tendência pelo reino.

As principais questões de J. incluíam o manejo de sua raiva e frustração, que segundo o cliente eram incontroláveis, levando-o a tomar medidas impulsivas. O cliente ainda queixava-se de uma falta de controle sob as demandas apresentadas por suas recém-adquiridas funções enquanto governante, e relatava um profundo desagrado para com o enfrentamento de seu tio, Tyrion, com quem mantinha uma relação bastante instável.

J. apresentava um histórico de comportamentos desviantes e de cunho sádico desde sua infância, que escalonou conforme o desenvolvimento de J., passando a torturar outras pessoas, chegando a cometer o homicídio de Eddard Stark. No contexto do cliente a pena de morte havia sido uma punição legalizada e uma prática relativamente constante, mas naquela determinada situação Joffrey havia sido fortemente aconselhado a perdoar o suposto traidor do reino, já tendo sido estipulada uma pena alternativa para o caso.

Existia uma falha em perceber sentimentos positivos em si e em outros, que muitas vezes antecedia suas respostas inadequadas. O cliente não possuía em seu convívio social modelos de comportamentos de amor e afeto, apresentando extremo dificuldade em reconhecer e expressar respostas que se encaixassem nesta classe. Além disso, J. apresentava uma tendência a responder de forma severamente punitiva, mas raramente ele próprio proferia os atos de violência, sendo que, em sua maioria, seus atos considerados cruéis eram realizados por terceiros sob suas ordens, salvo as agressões verbais.

Comportamentos precisam ser ensinados. Assim como se aprende a andar, falar e escrever, aprendemos a amar, elogiar e até mesmo como “ser feliz”. É impossível esperar que você passe a falar japonês de uma hora para a outra, sem ninguém ter te ensinado, assim como é impossível esperar que alguém demonstre amor e compaixão se nunca aprendeu a faze-lo.

J. vivia em um meio cultural onde as práticas sádicas e violentas eram muitas vezes reforçadas positivamente, ou seja, eram considerada como comportamentos não só esperados como necessários para produzirem justiça social ou uma valorização pessoal de quem assim agisse em determinadas situações. Vemos isso pelos julgamentos por combate e pelas penas de morte, por exemplo. Os comportamentos sádicos de J. eram excessos comportamentais que, quando aconteciam fora de determinados contextos, não eram bem vistos pela comunidade próxima, mas que foram gradualmente selecionados ao longo do desenvolvimento do cliente, em que a violência não só estava presente como foi ensinada sob diversas topografias.

No caso de J., ainda que seus atos fossem criticados, suas ordens eram cumprida, uma vez que ele aprendeu que o poder a ele concedido não deveria ser limitado, e que absolutamente todas as pessoas e territórios sob sua supervisão estariam submetidos a seu domínio, como se observa pela verbalização do cliente “todos são meus para torturar”. De acordo com os critérios diagnósticos seguidos em saúde mental (CID 10), J. se encaixaria nos critérios para Transtorno de Personalidade Antissocial, popularmente conhecido como sociopatia.

Socialmente, não sentia a necessidade de ser aceito, já que seu cargo de poder foi passado hereditariamente, e tinha o direito de ordenar sem que houvesse uma concordância popular. Em sua história de vida, não houveram momentos em que seguir regras foi especialmente importante, pelo contrário, seu desenvolvimento foi regido pelo modelo comportamental do pai, que por meio de uma sangrenta revolução — uma quebra das regras sociais e legais — se tornara o homem mais poderoso do reino. Para J. haviam poucas perdas e muitos ganhos quando não seguia regras. Suas vontades eram prontamente atendidas e as consequências punitivas não se aplicavam a sua função de rei, ou mesmo enquanto ainda era príncipe.

Em um primeiro momento, sugeriu-se que o cliente comparecesse em no mínimo duas sessões semanais, pela gravidade de sua situação e o risco em que colocava o reino. O engajamento foi lento, com muitas faltas, atrasos e interrupções no início, contudo, estabeleceu-se um ritmo após os três primeiros meses de atendimento. Ao longo desse tempo, a terapeuta se dedicou a estabelecer um vínculo com o cliente — que aparentava não possuir um repertório de confiança estabelecido — uma relação que pudesse criar um ambiente seguro e saudável, criando uma relação que sustentasse as manifestações do cliente, que eram consideradas destrutivas dentro de seu cotidiano.

Dessa forma, o plano terapêutico envolveu uma intervenção mais direta nas verbalizações violentas, como ordens de agressão, que aconteciam quando o cliente estava frustrado. Como o déficit comportamental em responder empática e assertivamente era amplo, inicialmente as respostas mais simples eram reforçadas, como um contato visual da parte do cliente enquanto a terapeuta falava, ou o uso de tom de voz adequado ao responder as perguntas — a aprendizagem começa pelo mais simples.

Uma introdução imediata de consequências foi inserida tanto para que o cliente percebesse a importância do tratamento como para que visualizasse as contingências em ação, com verbalizações como “Quando você ordena que seus guardas agridam Sansa, eles se sentem mal e acreditam que seus serviços estão sendo mal utilizados, o que aumenta a chance de eles se revoltarem contra você ou de que não te defendam adequadamente”, por exemplo, ou “Quando você demonstra compaixão, ganha o respeito de seus súditos, que podem produzir mais pelo reino e acatar melhor suas ordens”. Foi importante colocar aos poucos as possíveis consequências positivas e negativas que deveriam seguir cada resposta, uma vez que no cotidiano do cliente esta discriminação não era clara.

Trabalhar sobre o autocontrole fez parte das intervenções propostas, trabalhando com o cliente a noção de que suas atitudes vinham trazendo consequências que o reforçavam no momento imediato, mas que vinham construindo um cenário destrutivo a longo prazo. J. estava em seus primeiros meses enquanto regente, de modo que estas consequências ainda não estavam tão evidentes, mas das quais já haviam sinais, como um motim popular violento sofrido pela família real. Além disso, o plano terapeutico se concebeu tentando maximizar sempre que possível os ganhos em reforçamento positivo, contrapondo um histórico de aprendizagem coercitiva e as contingências em curso, que mantinham e potencializavam os comportamentos de violência. Destaca-se a importância do treino de habilidades sociais no caso do cliente, intervenção base para todo o trabalho.

Joffrey Baratheon apresentou-se a terapia como um adolescente em situação única. Com a recente perda do pai, levado a assumir a maior responsabilidade possível em seu contexto. Para qualquer jovem em sua posição, o desafio seria grande, mas para ele a situação se agravava pelo fato de possuir fatores protetivos muito restritos, e ter sido exposto a fatores de risco intensos ao longo de toda sua formação, que persistiam e se agravavam em seu momento presente.

A intervenção tem o potencial de desmistificar rótulos tão prontamente atribuídos e apontar alternativas para que o indivíduo, em sua singularidade, seja compreendido e ensinado a se inserir de modo mais adequado em seu ambiente. Não pretende-se justificar ou amenizar os atos de violência praticados pelo cliente, apenas trata-los sobre outra perspectiva, que possibilita gerar esperança, o que no caso de J. teria o poder de impactar todo um continente através de seus atos.

Por fim, concorda-se com Borges e Cassas (2012) na citação:

“[…] o comportamento‑queixa do cliente — por mais espantoso ou doloroso que se apresente — representa a melhor adaptação comportamental que ele pode fazer às contingências até o momento.”