Segunda Carta

A Remoção

Oi, Baia.

A foto da torta de morango que postei no stories do instagram fez o maior sucesso. Não acreditavam quando eu dizia que era de um Café de um hospital. Tentava me distrair — enquanto aguardava a liberação da tua remoção para outro hospital — sem muito sucesso. Nem a torta — apesar da ótima aparência — caiu muito bem.

O diagnóstico do teu último exame havia confirmado as suspeitas de tuberculose pulmonar, e você precisou ser transferido imediatamente para um hospital especializado em doenças infecto-contagiosas, para iniciar o tratamento o quanto antes. A missão de acompanhar a tua remoção me foi confiada pela tua família, que prontamente, se organizava para vir do interior para cá. Finalmente eu iria te ver, depois de tantos dias de angustia e ansiedade, esperando por essa oportunidade — já que os teus sobrinhos que trabalham na área da saúde, eram os mais indicados para fazer as primeiras visitas, nesse momento delicado, em que, uma maior compreensão e experiência eram necessárias, para o entendimento do teu real quadro clínico.

Eu já estava a tua espera, ao lado da UTI movél, quando os enfermeiros surgiram no estacionamento, trazendo você numa maca. Fiquei extremamente impactado com o que vi: você estava ainda mais debilitado que antes. Muito mais magro, apático… a barba por fazer — já completamente branca — os punhos machucados, talvez pelo atrito das contenções. Nem se eu conseguisse, saberia o que dizer, naquele momento. Porém, não era preciso: você parecia estar dormindo. Junto conosco, entraram mais algumas pessoas na ambulância, e eu, completamente desavisado, fui questionar aos enfermeiros, se era permitido transportar tantas pessoas juntas, ali, naquele ínfimo espaço. E recebi uma risadinha como resposta. Como se eu tivesse feito a mais nosense das perguntas.

Enquanto chacoalhávamos dentro daquela UTI, quase que asfixiados pelas máscaras, ao calor do meio dia, fizemos um percurso que parecia não ter fim. Eu estava anestesiado pelo surrealismo daquela situação. Dias atrás você me confidenciava — enquanto tomávamos o velho cafezinho — planos de passar uma temporada em João Pessoa. Queria rever os amigos, passear, respirar novos ares. Perto de fazer cinquenta anos, você meio que queria recuperar um pouco do tempo que perdeu, enquanto se escondia do mundo, com vergonha de se assumir deficiente visual. E agora estava ali, na minha frente: deitado numa maca, em posição fetal, num sono profundo. Como se não bastasse, as outras pessoas que ali estavam conosco, pareciam se divertir com a viagem inusitada, naquele transporte diferenciado. Conversavam e riam alto, enquanto faziam selfies. Por um momento, fechei os olhos, respirei fundo, e desejei que tudo aquilo não passasse de um pesadelo.

Houve um momento em que achei que você estivesse acordando. A ambulância havia feito uma pequena parada, para deixar aquelas pessoas num outro hospital, quando você foi abrindo os olhos e voltando o rosto para o lado contrário. Falei baixinho: “Baia, Baia, sou eu: Ary. Tô aqui com você!” Mas para o meu desespero, logo percebi que você não estava acordando, e sim, começando a convulsionar.

Seus olhos começaram a tremer num ritmo frenético, sua cabeça fazendo movimentos bruscos e rígidos. Chamei pelos enfermeiros que logo pararam o veículo e suavemente começaram a conter você, te posicionando de uma forma, que não viesse a se machucar, ou se engasgar, com as secreções que expelia durante os espasmos. E eu, que já havia dado uma espiada nos teus exames — cheio daqueles termos técnicos, de arrepiar — me espremia contra a parede da ambulância, segurando a máscara no rosto, com medo do risco de contágio.

Quando as convulsões pareciam estar passando, você começou a ficar ainda mais agitado, agressivo. Naquele momento, eu entendi o porquê de você estar usando contenções. Você arrancou o soro e as amarras com uma força tão surpreendente que os enfermeiros ficaram atônitos e logo me pediram: “Fale com ele, peça para que ele se acalme!” E eu completamente travado, pedi, de forma mecânica, com voz embargada: “Baia, se acalme! Sou eu: Ary! Estou aqui com você!”

Coincidência ou não, você foi aos poucos, começando a relaxar, até perder a consciência.

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