Simbologias Ocultas

Depois que Baia me revelou que estava cego, eu entendi que, mesmo que ele não quisesse, em algum momento, inevitavelmente, esse segredo viria à tona. E por imaginar, a proporção que isso poderia tomar no futuro, resolvi que em todo vídeo que viesse a produzir junto com Baia, dali em diante, eu deixaria alguma pista, uma espécie de mensagem subliminar relacionada a questão da cegueira dele. Uma forma de sinalizar, para os mais observadores, que havia algo para ser dito, no seu devido tempo. Ou não.

O fato é que, como sou bom de esconde-esconde, só depois que Baia se assumiu como 'invisual’, no vídeo Como Nasce Uma Personagem Fria, foi que os olhares mais atentos começaram a catar as simbologias espalhadas nos vídeos. Como por exemplo, o quadro da Santa Luzia, protetora dos olhos, na abertura de Catupirigo. Que assim como as demais pistas, ainda passam desapercebidas pela grande maioria. Mas elas estão todas lá, viu? Quem sabe no futuro, com alguém lança um livro: Decodificando Laranjas Bahia. Fica a Dica.

Quem me ouve gargalhando nos vídeos, não deve imaginar que eu costumo rir dobrado, durante o meu processo de edição. Catupirigo, então, me rendeu as maiores e melhores crises de riso que eu já tive durante todos esses anos. O Momento em que Baia, em super close, descreve o baby doll (“Era um baby doll vermelho, fedorento, mofado, horroroso”), para mim, é o mais impagável de todos. A expressão de Baia nesse momento, enquanto eu não consigo me conter de rir, é uma das melhores que já captei.

A edição de Catupirigo, teria sido a mais difícil de todas, tendo em vista, o vasto material que conseguimos produzir naquela tarde, não fosse por algo que aprendi, assistindo a um documentário sobre cinema, onde um montador muito famoso, que agora não me recordo o nome, dizia: “Diferente dos olhos, nós só temos um nariz, porque não existiria função para dois narizes numa mesma face. Por mais belo que dois narizes possam ser, você vai ter que optar apenas por um, para fazer valer a sua funcionalidade. De modo que, o maior desafio num processo de montagem, é selecionar, entre coisas muito boas, apenas aquelas que vão ser indispensáveis para dar sentido a sua estrutura narrativa, antes do corte final.” Ouvir isso me ajudou bastante a identificar os excessos, mesmo dentre coisas incríveis, mas que poderiam ser enxugadas, em prol de um material mais conciso. Muito embora, eu seja um apaixonado pelos excessos: amo prólogos, epílogos, trilhas musicais… falando nisso, tem um fato que vai ilustrar bem o meu nível de obsessão e perfeccionismo, típicos de um legítimo virginiano.

O primeiro corte de Catupirigo havia ficado pronto, e tudo parecia bem afinado, redondo. Mas ainda assim, eu havia encasquetado que faltava alguma coisa. A citação mais emblemática e icônica de Baia que diz: “Foi fácil? Não quer! Foi difícil? Tá ótimo! Teve perigo? Ma-ra-vi-lho-so!!!”, parecia perfeita para encerrar o vídeo. Mas a minha intuição batia na mesma tecla: pode ser melhor! E eu que já estava em João Pessoa, voltei para Alagoinha apenas para pedir para Baia, gravar para o encerramento daquela aventura, o episódio em que ele, um certo dia, ao chegar em casa, foi confundido por um flanelinha, com um empregado doméstico da residência.

Esse final, vocês já conhecem, né? E nós finalizamos o vídeo, que dentre todos, para mim, é irretocável.

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