Tive um sonho de agonia, marcante.

Não foi um pesadelo, que faz eu levantar no meio da noite com um terror no peito, como pós susto ou queda. Agonia não me acorda, me mantém no dominio onírico até o ultimo segundo, e nunca me da uma resposta, hoje foi diferente. Eu andava por ruas quase vazias com a presença [ou despresença] de poucas pessoas, as que passavam tinham cara de pressa e um semblante de aflição. Um clima de evacuação e calamidade poluía o ar, uma neblina se extendia de ponta a ponta deixando tudo ainda mais carregado, apesar de tudo fazia calor e ouvia-se de longe sirenes e a sensação de tumulto, mesmo ainda que tudo estivesse deserto. Esse era o cenário “fisico” de quando me vi dentro do sonho, dentro dos meus pensamentos habitavam preocupações desconhecidas, eu sentia necessidade imensa de cumprir um objetivo. Não sabia do que se tratava, nem de como se tratava, se era ir para um lugar especifico, encontrar alguém, buscar alguma coisa. Nada me fazia lembrar, precisava fazer isso, seja o que fosse, algo me corroía por dentro dizendo isso. Ao passo do meu caminhar, a luz do dia vai mudando vagarosamente de cinza para laranja, e no céu, para além das nuvens e da neblina, ofuscadas, brilham duas luzes, uma ficando mais evidente que a outra trazendo cor para o horizonte. Uma era o sol, a outra… um cometa? O fim? O começo? As minhas convicções não existiam naquele momento, o tempo arrastava e cada passo suava, meus sentidos estavam focados em um apenas uma coisa, tudo o que importava era seguir em frente. Com a garganta enosada de agonia, ainda não sabia o que era, talvez acordasse sem saber.
 Duzentos passos em direção do meu desejo, trezentos passos em direção do meu desejo, eles se acumulam e não são de distancia, cada um é mais perto, sempre mais perto. Mais pessoas começam a surgir, dessa vez aos montes, mas nessas não havia agonia ou aflição. Era comico e um pouco assustador, todas sorrindo e caminhando em plena paz trajando roupas claras, limpas e sem uma gota de suor no rosto. Era o cometa [Ou o começo? Ou o fim?], iria cair [Ou começar? Ou terminar?], não havia nada a se fazer, todas aquelas pessoas calmas aceitavam isso e curtiam seu ultimo passeio com ar de gratidão. Me mantenho parado enquanto elas passam, algumas me abraçam e desejam boa sorte ao sussurrar no ouvido, outras só passam a mão como um gesto de carinho. Minha agonia vai se acalmando, o que era laranja está ficando vermelho, o nó da minha garganta se desfaz, o que ficou vermelho está quase púrpura, meu coração volta a bater suave, o púrpura virou o nada, do nada vem o novo. Acordei de manhã pensando em ti, descobri o que precisava fazer.