A Lepra do ENEM

A comoção foi grande no país depois da primeira etapa do ENEM 2018, ocorrida no dia 4 de novembro. Os motivos são vários, todos sintomas do mesmo mal: a ideologização do exame. Muito já foi dito sobre o assunto, tratemos aqui de um caso específico: o pajubá. Confesso que, assim como muitas pessoas, só tomei conhecimento da existência do assunto com o exame e compreendo a polêmica. Acredito, por outro lado, que ela não fora explicada corretamente. A mera existência da questão causou um mal estar social, embora a razão disto não tenha sido compreendida. Tentarei jogar uma luz.

Para quem não sabe, a questão é baseada em uma notícia retirada do jornal Midiamax, de Campo Grande, MS. Foi escrita pelo jornalista Guilherme Cavalcante no dia sete de junho de 2017 e consultado pela junta do ENEM no dia quatro de abril de 2017, ou seja, dois meses antes (opa! Já temos um problema!). O objetivo do texto é transcorrer sobre o pajubá como uma curiosidade, citando livros, a opinião de especialistas e guiando o leitor para outras fontes onde é possível aprender mais.

A grande objeção ocorre no momento em que o autor alça o pajubá ao status de dialeto, e este é o ponto importante. Este termo é usado de modo coloquial para se referir a uma variação de um idioma. Desta forma, criamos uma hierarquia: o português, classificado como sendo este último, está em um nível superior da outra linguagem.

Só que a relação entre um idioma e um dialeto não é tão simples e as definições do que é um ou outro passam por aquela esfera do conhecimento que complica tudo o que toca: a política. O que diferencia a norma culta do português de sua variante mineira, por exemplo, é uma questão de convenção entre linguistas. Não há um motivo técnico que diga que não falar “uai”, “tchê” ou preferir “você” a “tu” (ou vice-versa) seja superior ao contrário. De fato, temos a impressão de que existe um português neutro devido à influência da TV, que não é regionalizada no país (mas este é um debate para outra hora). Outro ponto importante é que nenhum brasileiro precisa alterar seu modo de falar para interagir com um conterrâneo de outra região. Nenhum gaúcho desliga o gauchês para falar com um paulista.

Voltemos ao pajubá. Não há na questão do ENEM nenhuma prova ou indício de que o pajubá seja realmente um dialeto, exceto a palavra do autor do texto. E o aluno é incapaz de discordar desta verdade evidente, porque isto foi afirmado como dogma. Só lhe resta justificar a norma e aceitar esta realidade, mesmo que discorde. Reparem que a resposta correta (“ser consolidado por objetos formais de registro”) também é limitante. Nada impede que outra pessoa crie um dicionário fictício de uma língua imaginária — muitas pessoas já o fizeram! O conflito surge ao tentar afirmar que estas variantes são algo que não são.

Uma linguagem, seja ou não um dialeto, é algo mais complexo do que meras substituições de palavras por termos desconhecidos pela maioria da população, ela implica cultura, uso diário, sensação de familiaridade entre os falantes, o que nos leva diretamente ao segundo ponto.

Guerra de classes

Disfarçada com um manto de homossexualidade, a doutrinação da questão do ENEM repercutiu da forma esperada: de um lado, pessoas que só viram o problema superficial e, de outro, quem defende que travestis tem sim o direito de serem representados no exame. Já tratamos do primeiro grupo, fiquemos com a análise do segundo.

Há de se reparar que qualquer defesa trata travestis como uma classe social separada. Uma seleção de pessoas, que tem sua própria linguagem e costumes diferentes, condenadas a habitar um gueto metafórico graças ao colonialismo cultural de homens brancos e héteros. O que é uma grande mentira. Tenho mais em comum com minha vizinha de apartamento do que outra transexual de Rio Branco. Com aquela posso conversar sobre problemas do prédio, os sons do fim de semana, melhores locais para fazer compras. Já os assuntos com esta estariam relacionados a remédios, histórias de transição e a louca expectativa de encontrar gostos em comum para que esta relação possa evoluir para uma amizade — já deixei de falar com outras trans porque elas eram boring, isso é normal.

Um transexual, segundo este ponto de vista, só pode ser retratado como transexual e esta sempre será sua maior característica. É impossível para eles serem médicos, advogados, jornalistas (eca!) e, se por acaso forem, isto será inegavelmente inferior à sua condição de trans. Ao sermos retratados, é comum que o texto mencione nossas conquistas como vitórias apesar de sermos quem somos. Ser travesti é a lepra do século XXI, reduzindo nossa capacidade de fazer as mais elementares coisas e fazendo com que dependamos da ajuda de terceiros na forma de bolsas, vales e benesses.

E, depois, dizem que os preconceituosos são de direita.