E aí aconteceu que eu,

ontem, acabei dizendo aos meus alunos que, antes de ser alguém com os meus pensamentos, com as minhas memórias factuais (que as emotivas não dão propriamente uma -identidade-), que eu sou quem sou porque tenho uma casa, para a qual volto todos dias. Essa é uma maneira de ser, nesse mundão. Até a imagem que vejo no espelho não é tão importante quanto isso. Se eu não puder mais olhar espelhos, ainda vai haver a água, e os olhos dos outros, mas se eu não pudesse mais ter uma casa à qual voltar, todos os dias, algo se quebraria, sem volta. E é por isso que a gente não deveria expulsar os loucos, nem colocar os criminosos em solitárias por muito tempo, que é uma espécie de morte lenta. Mas essa é uma outra história.

Outros seres há, inclusive muitos humanos, que não são assim, que sabem de si por outros meios. Há aqueles que andam sem parar, por exemplo, e fazem de si uma espécie de fio que se desenrola. E há aqueles que são como eu, mas para os quais “casa” quer dizer algo muito diferente. Algo que inclui coisas que pra mim estão fora. Que inclui imagens, hábitos e objetos que se localizam fora do espaço que seria tecnicamente privado, seu. Coisas que têm a ver com a vida dos outros, como se a maneira como os outros vivem fosse parte da sua casa. Eu entendo que isso é bem humano, mas tenho a impressão que é um jeito um pouco antigo de ser humano, o que em si não é nem ruim nem bom.

Como essas coisas todas, que não são tecnicamente privadas, não se pode realmente controlar (quem beija quem, quem casa com quem, que substâncias as pessoas querem usar, e o que elas fazem com seus corpos, e se os tipos de corpos são só dois, e se as raças são só meia-dúzia, ou se são milhares, tudo isso), e como a visão dos outros está hoje por toda a parte, essas pessoas como que perderam a sua casa, por assim dizer. Isso porque, se você olhar direito, as pessoas em geral são muito esquisitas, o que pode ser algo genial, ou não muito, mas certamente não precisa ser terrível.

Enfim, o que fizeram essas pessoas que ficaram assustadas ao verem tão de perto a diferença do mundo, ao ver um pedaço da sua “casa imaginária” cair, foi reduzir o seu contato com estranhos, e se encontrar somente com pessoas, coisas e palavras que lhes sejam familiares. Isso, incrivelmente, acabou sendo um movimento de massa, porque essas pessoas são muitas. Não são uma maioria numérica, mas são muitas mesmo. Incrivelmente, essas pessoas como que construíram uma casa provisória para si, feita de conceitos, isso porque elas não têm realmente algo em comum, a não ser o medo.

E aí eu disse aos meus alunos que o romance “O Processo”, de Kafka, não era bem sobre as desventuras de um homem com uma máquina burocrática desumana, mas a história de um homem que não pôde mais voltar para casa.

Parêntese: meus alunos ainda acham que eu sou “de exatas”, mesmo que eu fale (e bem) de outras coisas, só porque eu sei falar a tal “língua das exatas” (e bem), e isso lhes parece algo muito incrível, e eu pareço meio lelé, mas de um jeito geralmente legal. Eu nem digo nada, mas essas coisas não fazem parte da minha casa, nem precisam fazer parte da casa (ou do que está fora da casa) de ninguém. Fecha parêntese.

Enfim (mesmo), a massa provisória das pessoas que se viram subitamente sem casa nesse mundo, e se dispõem a votar em políticos cuja plataforma é destruir o mundo, precisam ser ajudadas, com urgência. Eu até estou com algumas ideias de como fazer isso, mas esse texto já ficou longo demais, e fica pra outro(s).

Aguardem instruções.

The end.

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