Individualismo, pra quê te quero?

Quando a sociedade de massas dá sinais de enfraquecimento, há uma certa euforia do individualismo. Isso é o que a gente vê por aí.

Parêntese: ser individualista não quer dizer ser egoísta, muito menos solitário. Aliás, geralmente é o contrário dessas coisas. Ser individualista quer dizer apenas que se fez um arranjo social (que inclui a sua família nuclear, ou o seu grupo de referência — que pode ser a sua empresa, ou a igreja que você frequenta) em que a construção de uma identidade narcísica é firmemente sustentada, e até mesmo promovida. Ser individualista é viver um culto a si mesmo, por meio dos outros. Fecha parêntese.

Essa euforia está também na maneira como as pessoas vêm a economia, e a política. Decaindo a sociedade de massas, a pessoa pode acreditar que “agora vai”, que vai conseguir fazer de si mesmo uma espécie de projeto existencial. Um(a) herói/heroína, vivendo a sua história única, num mundo aberto, livre dos fantasmas coletivos abstratos.

Eu já acho isso um pouco preocupante, mas é o que se vê por aí, especialmente na mídia de massas decadente, que se apoia nesse personagem, que tem medo do governo, e medo dos outros (que não pertencem ao seu arranjo social). No seu medo da violência ergue muros, se arma, e paga por proteção. Desinveste o espaço público, alimentando a violência real da sociedade, numa profecia que realiza a si mesma. Isso não vai acabar bem, se continuar assim. No final dessa história não há um final feliz.

Voltando um pouco: essa euforia individualista decadente tem também — e essencialmente — uma versão religiosa. Esse é um fenômeno que atinge particularmente o protestantismo cristão, não só aqui, mas mundo afora. É aí que eu vejo um fenômeno muito interessante, e também muito preocupante, que é o do preconceito contra quem não acredita em Deus.

Segundo parêntese: não acreditar em Deus, ou em divindades quaisquer, almas/espíritos imortais — seres com um rosto, e um nome que pode ser chamado, que são eternos e que presidem a nossa vida de alguma maneira — não é a mesma coisa que não ser religioso. Por exemplo: há muitos judeus que vivem assim, e entre os povos confucianos (China, Coréia, Japão) isso é muito comum. Fecha segundo parêntese.

Pois bem, o que acontece é que as pessoas que acreditam em Deus ao estilo cristão protestante (embora haja muitos católicos que embarquem nessa), estão vivendo a sua euforia individualista, e ao mesmo tempo o seu desespero. Isso se vê de forma particularmente aguda, não aqui, mas nos EUA (por razões óbvias). É algo que nos afeta um tanto indiretamente, mas com bastante força.

Terceiro parêntese: os muçulmanos vivem esse drama também, mas de maneira muito diferente, porque o islã se construiu na costura de clãs e tribos. Essa é uma outra história, bem complicada. Fecha terceiro parêntese.

Nesse desespero, os arranjos sociais individualistas (famílias nucleares, empresas, igrejas) se fecham com mais força, e passam a tratar os não professantes como se fossem estrangeiros.

Mas qual é o problema, aqui? O problema é que o individualismo está desabando também. Isso não se sustenta, por que o custo de sustentar uma imagem heroica consistente tende a crescer exponencialmente, até que ela entre em colapso. O que está funcionando por aí — não tenham dúvida — são os arranjos coletivos não individualistas. Isso é o que pode recuperar a economia, a política, e o sentimento religioso, ainda que de uma forma difícil de reconhecer, ao menos para os nossos padrões.