O caminho de saída

O caminho de saída do machismo é difícil para os homens que encontram algum conforto numa vida mais bem contida em escassos modos de existência, porque é um caminho coletivo, e isso já seria um grande desafio para eles. Em outras palavras, é um caminho de cultura, não de civilidade. É um caminho em que a comunhão vem sempre antes. Difícil, especialmente porque a comunhão, para eles, só pode ser algo em que se entra em posição de inferioridade, porque o seu corpo não tem valor de troca. E a inferioridade tem mais de um sentido negativo, aqui.

Complica mais ainda que é um caminho que não é glorioso, mesmo que possa ser um caminho percorrido com alegria. A alegria não orienta, como a glória com que nos acostumamos a sonhar, ainda que essa orientação seja, muitas vezes sabidamente, um engodo. Até desse engodo os homens aprenderam a gozar, de alguma maneira: eis o personagem do herói solitário, traído pelo seu país/mundo/religião.

O caminho de saída do machismo é também difícil para as mulheres que apostaram todas as suas fichas em um modo de vida que lhes dá acesso ao Ser, ainda que ao preço de uma mediação desvantajosa, e sem recurso. Já seria um problema que as mulheres sempre apostem todas as suas fichas de uma vez, mas se explica: é preciso camuflar a própria participação no jogo. É mais fácil esquecer — ou pôr em dúvida — aquilo que só aconteceu uma vez.

O acesso à identidade é a condição que as mulheres continuamente exigem, para a participação na civilidade. Esse acesso é derivado, subalterno, mas válido. Algo que os que são sexualmente homens, mas habitam posição minoritária, nem sonham em ter. A eles resta, quando muito, o acesso à oportunidade da individuação. Dessas segregações todas as mulheres, enquanto tal, são fatalmente cúmplices. O mito de origem diz que o acesso ao Ser é algo que elas tiveram, quando em “estado de natureza”. Resta que, na vida burguesa, esse acesso à identidade pressupõe a segregação dos gêneros (e das raças, das classes, etc.) O esquema binário pode até ser recomposto, ganhar notas de rodapé, mas precisa permanecer discreto, e simples. Contável, confiável.

É perfeitamente possível ser (bem) feminista e (bem) machista ao mesmo tempo.

Não adianta você falar “bom-dia-a-todas-e-a-todos”, se só o faz como forma de tomar a todas e a todos como meninas e meninos, e continuar a supor um “Ele” imperial.

Mesmo supostos por elas na posição de referência, os homens nada podem fazer agora que o feminino se movimenta na direção da sua liberdade, ainda que apenas o sinalize, e mesmo que isso vá sinceramente na direção contrária da vontade das mulheres, e do seu medo. Ocorre que elas não têm outra saída, não há providência masculina que devolva o equilíbrio perdido. Um equilíbrio suposto, que nunca se sustentaria. Não há como ficar, o modo de produção não se sustenta, mas é contra a vontade que sairemos do impasse, portanto com dor política, com ebulição e tumulto. Não há mais “fora”, tudo foi interiorizado. As tecnologias do Eu acabaram por funcionar bem demais. Isso só pode explodir.

Para abrir os olhos, uma fórmula:

A consciência-de-si individual não precisa existir; a consciência moral pode ter eficácia ainda assim

Salvar a civilidade é ser capaz de compor uma consciência-de-si (a antiga interioridade) em rede com uma consciência moral ainda decidível, que ainda garanta a possibilidade do juízo, por complexa que seja.

Essa é a chance de salvação do modo de produção capitalista. De qualquer jeito, é por ele que se sai dele mesmo.

Estamos empenhados, nesse momento, na criação dos novos dispositivos. Não é uma visão de utopia, não é disso que se trata.