O que importa na emergência de grupos radicalizados não é a sua racionalidade, mas o fato de que produzem enunciados, e deles se produzem. Esse é o fato inesperado, e surpreendente: que a máquina intimidadora do Estado não os impeça de enunciar.

A primeira hipótese seria de que essa máquina não funciona mais, mas a nossa própria perplexidade denuncia a falsidade dessa hipótese. Se ela fosse verdadeira, não estaríamos a fazer tantas perguntas. Estaríamos no campo das respostas. O que acontece, então, é que essa máquina está a funcionar bem demais. Que ela funciona tão bem, que possivelmente tenha entrado em depressão. Então aparecem esses agenciamentos de enunciação, como que do nada, e sem a autorização de uma racionalidade. Isso nunca fez falta aos enunciados, aliás, eles estão justamente onde a razão não ilumina. A questão é que aparecem agora também à luz do dia, e produzem estranhamentos.

Onde isso vai parar? Não importa. Não importa, porque já não há mais o que salvar de uma ordem depressiva. É o caso de sair dela, apenas, e, literalmente, ver o que acontece.

Não imagino que essa ordem moribunda produza uma versão totalitária de si mesma, que seja potente. O trabalho humano perdeu-se do contato com a mercadoria, decaiu, e não mais pode produzir valor. Os corpos humanos são agora novamente apenas corpos. Ou corpos-mentes, como tudo o que está neste mundo. As línguas agora apenas lambem, e fazem caretas.

Há violências, mas só por que ainda há lei. Vai haver lei, e vai haver violação da lei. Nada de mais nisso. Não imagino também que se possa voltar atrás. Não saberíamos ser bárbaros novamente. Aliás, nunca fomos realmente bárbaros. Agora, as máquinas inteligentes estão aí, e descobrimos que elas não são uma mensagem divina. São demasiado humanas, e não vão a lugar algum sem nós. Nem nós sem elas.

Uma imensa alegria está entre nós, apesar de tudo. A alegria de não mais carregar o mundo nas costas.