Paisagem antiga

Qohélet*Lao

Conversavam o-que-sabe e velho-moço

Diziam-se:

Se quiseres terminar, comece

Se queres mudança, pare
Se queres mudança, fique
Quer mudança? Volta
Mudança? Tranca

Se queres prender, deixa
Se queres deixar, segura
Se queres que fique, fuja
Se queres que flua, ame

Se queres sequer algo disso
Queira antes tudo outro
Se queres poupar, usa
Se queres que doa, acarinhe

Se queres rápido, tarde
Se queres querer, despreze
Se queres devagar, espere
Se queres aprender, ensine

Tempo de nascer, tempo de crustáceos
Tempo de fazer das próprias vísceras esqueleto
Tempo de encontro de contas, de acariação
Tempo de corais cinzentos, tempo de silêncio

Mas se quiseres irritar, imita
Se quiseres planejar, precipita
Se quiseres que endireite, inclina
Se quiseres que apareça, suma

Se quiseres que cresça, pode
Se quiseres que varie, insista
Se o que queres é ceder, teime
Se o que queres é mais vida, mate

Se quiseres falar a verdade, evita
Se quiseres mentir evita faltar com a verdade
Se quiseres respirar, expire
E respira

Nada de novo sob o sol
Nada de novo sob o céu, salvo a maestria das fragilidades
E mesmo a fragilidade da fragilidade
O feminino insondável
A vaidade se fez matéria, está nas partículas elementares
Veio a ser de onde vem o cheio, a vaidade

Então

Se queres falar, ouve
E ouve-ouve
Se queres escrever, leia
Se queres violar, peça

Se quiseres começar