Porque tenho orgulho de ser brasileiro

O Brasil é um projeto de desafio estético de qualquer lógica rasteira, mesquinha. A dominação se faz aqui pela via direta do gozo do outro, da incansável conversão do outro em corpo, portanto da sua supressão enquanto outro. Odeia-se por esse modo de ser o Brasil, tragicamente não tem descanso, mas também felicita-se artisticamente. A arte é a única manifestação importante do Brasil para o mundo. Não é uma arte dominante — não pode ser — mas é notável que, mesmo assim, se sobressaia tanto.

Aqui, o caminho das minorias para o homoioi (para uma ideia de semelhança) tendo sido apagado, a conexão do amor, que já lhes havia sido reservada, assume (ou, é forçada a assumir) toda a amplitude possível da experiência política, com a qual permanece misturada. Não somos iguais, também não somos opostos. Mesmo quando a semelhança passa a estar disponível, o abandono do amor como constante da conexão humana equivaleria a abandonar a própria cidadania, de certa maneira.

O homem-homoioi vem a ser, por aqui, um mito.

A minoria cidadã passa então a ocupar-se, laboriosamente, penosamente, de fabricar uma semelhança, e toda uma ideia de humanidade, a partir dos materiais do amor. Um dos problemas disso, de modo algum o único, é que o amor não existe sem a indiferença ao que lhe é alheio, ao que lhe é exterior. O amor às vezes é feito dessa indiferença ao que não se ama, dessa distinção. Eis o drama da rivalidade entre os irmãos de cor, e entre irmãs, e a dúvida inevitável que a desencadeia.

E então, o paradoxo. O minoritário (inclusive a mulher) vai precisar reivindicar, no imaginário, a diferença que se lhe superponha, de ser aquela que não só pode, mas deve amar. Sendo só-amor (eventualmente só ódio), e antes de mais nada, vai ao mesmo tempo reificar para si o silêncio que estabiliza o padrão de dominação que sofre como mito, ao mesmo tempo que constitui o minoritário como produtor da geografia da cidade, a partir do seu corpo. E essa diferença vai então retornar para si como signo de exclusão. Tragédia moderna: o amor vai ficar de fora do mito. A cidade (a política) é feita por aqueles a quem a lei deu as costas.

A adoção das convenções que dão conta do modo de ornar-se das minorias (mulheres inclusive) vai dar coragem, vai ser plataforma necessária ao salto no vazio que é a manifestação do desejo para quem não o tem codificado desde um interior. Para os homens brancos seria também útil esse encorajamento, mas o conhecimento disso entre eles ainda é escasso.

Ocupam-se eles, então, ainda da construção de um conceito de natureza humana. Ora, é só o homoioi que serve aí de fundamento. Só enquanto homoioi é que o homo sequer existe como genus. Daí os esforços de contenção do erotismo (sexual ou não) em parâmetros de uma certa constância: mesmo aqui, evitam-se as núpcias heterogêneas. Drogas, só as que reproduzam a similaridade. Afetos, dispositivos, imagens, idem. Dir-se-ia, “é o simbólico em ação”, mas não, se está falando de algo muito mais superficial. Não se está tocando sequer no civilizatório ao fazer esse diagrama do capitalismo ao modo democrático. Tudo isso nos afeta, mas não deixa de ser muito superficial.

Enfim, há aqui um questionamento desse modo de produção de natureza humana. Fora do continente-mundo África, só no Brasil se encontra uma questão viva, e genuína, desse modo de produção da semelhança.

E é por isso que eu me orgulho e me felicito em ser-estar brasileiro, mesmo que sinta o medo da descomposição que permanentemente nos assombra.