Estranha forma de vida (ou 23 Primaveras de Destroços a Preto e Branco) (2007)

Sim, sim, eu sei que estou uma semana atrasado, mas apenas hoje pude escrever sobre o tema do momento na intersecção do mundo da música com a sétima arte: Control, de Anton Corbijn.

Este filme não é um típico biopic de mais uma lenda que morreu cedo, Corbijn, sem nunca despir a pele diplomática e anti-melodramática, ao contrário da música dos Joy Division, vai mais longe e mais fundo, facto que se deve também à base do guião, que assenta essencialmente numa autobiografia escrita pela co-produtora do filme, a viúva de Ian Curtis: Touching From A Distance, que o realizador adaptou e junto à história não contada por Deborah, à relação de Ian Curtis com a verdade e com ele próprio e à história dos dois amores, embora a música seja como que passada para um segundo plano.

Citando Miguel Esteves Cardoso: “Acredito que até seja melhor sentir e gostar pouco da música dos Joy Division para poder ver este filme como o filme que, se calhar, é.”

Bom, não serei a pessoa mais indicada para falar de cinema, por isso vou falar de música. Joy Division. Nasceram, cresceram e morreram, mas nunca viveram acima das suas possibilidades. Não direccionaram a sua música para as massas, nunca tiveram uma ascensão meteórica, foram sempre alvo de um culto marginal, sub-urbano, embora tenham atingido alguns bons resultados nas tabelas britânicas. Foram uma banda que influenciou uma vasta geração de músicos, mesmo nunca tendo protagonizado um concerto para mais de 1200 espectadores ou levado a cabo qualquer digressão fora da Europa (Curtis pôs termo à sua vida, não à sua história, em vésperas da primeira em solo americano).

Os Joy Division (ou devo cingir-me ao postumamente mitificado Ian Curtis?) são o expoente máximo musical duma Manchester pós-industrial, soturna, fria e claustrofóbica, onde, no final da década de setenta, o principal estimulante era o haxixe, utilizavam-no para atravessar os espaços da cidade e aumentar aquela sensação especial de suspensão que caracterizava Unknown Pleasures (primeiro álbum). Como contraste, a banda era sóbria e tinha os pés bem assentes na terra.

Não quero que se confunda a música dos Joy Division com o fatalismo da nova onda pseudo-emo mas é inevitável rotular (palavra insípida, esta) as suas criações de «urbano-depressivas», mas isso não chega, nem mesmo quando lhe acrescentamos a designação de «pós-punk». Talvez apenas (?) pop/rock seja a designação mais indicada, mas continua a ser insuficiente, pois eles criaram à sua volta uma atmosfera única e irreplicável, das letras embebidas em poderosas emoções, como culpa, medo, raiva, claustrofobia ou nojo, à epilepsia de Curtis, que muitas vezes se confundia com os seus movimentos em palco. Sim, ele era um animal de palco. Só aí ele era excêntrico e abandonava a sua habitual postura de introspecção, aquela a que ele nos habituou quando o “víamos” nas ruas dos subúrbios de Manchester, dentro da sua escura gabardina. Ainda não encontrei melhor descrição do comportamento de Ian que esta de John Savage: “Curtis vivia cada momento como se fosse o último, dando tudo de si. Nesta prática de envolvimento total, a sua epilepsia começou a tornar-se indistinguível da sua performance.”

Ele já era um génio, embora muitos digam que foi moldado para exprimir todos os sentimentos mais profundos de Tony Wilson (co-fundador da mítica editora Indie Factory, que lançou os Joy Division, aparentemente condenados ao fracasso), mas tornou-se um mito quando, na noite de 18 de Maio de 1980, aos 23 anos de idade, no número 77 da Barton Street, em Macclesfield, nos subúrbios de Manchester, após ter visto um filme de Werner Herzog e ter ouvido um disco de Iggy Pop, Ian Curtis colocou um ponto final à sua vida e à actividades dos Joy Division, a um casamento falhado com Deborah Curtis (do qual resultou uma filha) e a um amor extraconjugal com uma jornalista/fã belga.