O Recife singular e plural
Gostaria de expor, aqui, a forma como eu enxergo o Recife, cidade que amo e que me disponho a governar. Considero importante compartilhar minha visão do Recife porque acredito que é a partir da forma como vemos a realidade que passamos a agir sobre ela.
Durante parte da minha infância e da minha adolescência morei na Rua Estrela, bem na conjução de Parnamirim, Tamarineira e Casa Amarela. A Rua Estrela, de nome tão cheio de poesia, é uma rua agradável e tranquila. Todo santo dia por lá passava um caminhão com o pessoal que varria e recolhia o lixo, que moradores colocavam em sacos apropriados para a coleta. Usavam farda e luvas: os garis. Lembro-me bem de como aprendi (talvez com alguma surpresa) que aqueles homens mereciam muito respeito porque faziam um trabalho nobre para a cidade, pois limpavam o que a gente sujava.
Bem perto dali fica o Sítio da Trindade, para onde eu ia passear com meus pais. Me explicaram que aquilo era um lugar histórico, além de ser um parque para o lazer das pessoas. Lembro de haver por ali um grupo escolar, com meninos e meninas fardados, e de um posto de saúde, onde, segundo minha mãe, fui vacinada contra a poliomielite. Quando o sol se punha, as lâmpadas dos postes automaticamente iluminavam a rua inteira.
Foram estas marcantes imagens que, mais tarde, se associaram, na minha imaginação, aos serviços públicos de limpeza urbana, saúde, educação e lazer. Foi por essa época que aprendi que aqueles e outros serviços eram prestados pela prefeitura do Recife, e pagos por nós-cidadãos-contribuintes, por meio de taxas e impostos.
Os fatos aqui narrados podem ser muito prosaicos, porém, me deixaram importantes lições: eu morava em uma casa habitada por meus amores, minha família, e convivia nas ruas e no parque com algumas pessoas amigas e, muitas, desconhecidas; eu era habitante de um bairro, e vivia numa “casa” geográfica e afetivamente ampliada: a cidade.
Muito rapidamente o Recife foi se tornando a base essencial da minha geografia sentimental. Eu simplesmente não consigo me imaginar vivendo em nenhuma outra cidade do mundo, não importa o quão bela e organizada ela possa ser. Foi no Recife que vivi minha infância, marcada pelos vendedores de cuscuz, caldo de cana, doce japonês, nêgo bom, pipoca, pirulito e algodão na porta de casa.
Foi no Recife que descobri e amadureci minha vocação para a vida pública. Foi esta cidade que me ensinou sobre a importância do poder local, o poder da proximidade, aquele que atende as urgências do cotidiano e desafia os seus ocupantes a olhar para o futuro da cidade.
Esse Recife das minhas vivências, das memórias, dos afetos, dos cheiros e sabores da infância é o Recife singular. É o Recife amado tão profundamente que posso dizer com profunda convicção, emprestando as palavras de Gilberto Freyre: é o pedaço do mundo onde posso ser mais verdadeiramente eu mesma.
Ocorre que esse Recife que eu amo é também um Recife plural, diverso e constrastante. E é pela sensibilidade dos nossos poetas, e a partir do nosso Capibaribe que eu gostaria de falar dos muitos Recifes.
Convido você para fazermos um passeio imaginário. Entremos num barquinho, partindo da praça do Marco Zero.
Enquanto o barco inicia seu deslizar suave, contemplamos a praça banhada pelo sol ainda morno da manhã e carinhosamente afagada pela brisa marinha. Uma dúvida nos assalta: que cidade no Brasil desfruta do privilégio de possuir, encravada em sua principal esplanada, uma rosa-dos-ventos concebida por Cícero Dias bem defronte do parque de esculturas das obras de Francisco Brennand, erguido sobre arrecifes de coral? Simplesmente uma belíssima conversa entre dois gênios universais das artes plásticas. É o Recife que deslumbra e seduz, com sua combinação entre a inspiração humana e a inspiração divina.
Ao longo do percurso do barco, fica tão fácil entender o significado do conceito “Recife, cidade anfíbia”, com seus encantos naturais e ao mesmo tempo com os traços marcantes da tragédia urbana: “No ponto onde o mar se extingue/e as areias se levantam/cavaram seus alicerces/na surda sombra da terra/levantaram seus muros/do frio sono das pedras. Depois armaram seus flancos:/trinta bandeiras azuis/plantadas no litoral./Hoje, serena flutua,/metade roubada ao mar,/metade à imaginação,/pois é do sonho dos homens/que uma cidade se inventa”. Como esses versos que iniciam o “Guia Prático da Cidade do Recife”, de Carlos Pena Filho, nos ensinam a compreender a vocação anfíbia do Recife.
Olhando o Recife a partir do seu Rio também podemos entender mais profundamente “O Cão Sem Plumas” que o menino João Cabral passava horas contemplando, de suas margens, no bairro da Jaqueira: “A cidade é passada pelo rio/como uma rua/ é passada por um cachorro;/uma fruta/por uma espada (…) Aquele rio/ era como um cão sem plumas./Nada sabia da chuva azul,/da fonte cor-de-rosa,/da água do copo de água,/da água de cântaro,/dos peixes de água/da brisa da água./Sabia dos caranguejos/de lodo e ferrugem”. Pelas mãos do grande poeta, o Rio se transforma em metáfora cortante e contundente das nossas mazelas. É o Recife triste. O Recife que nos enche de vergonha, não pelo que ele é, mas pelo que fazemos com ele e pelo que deixamos de fazer por seus habitantes.
E com a ajuda de Joaquim Cardozo, olhamos para as pontes que o poema “Tarde no Recife” descreve: “Duendes!/Manhã vindoura. No ar prenúncios de sinos. Recife/ao clamor desta hora noturna e mágica,/vejo-te morto, mutilado, grande/pregado à cruz das novas avenidas/e as mãos longas e verdes da madrugada te acariciam”. Recife morto pelos que, no afã de modernizar a cidade, ignoram suas raízes, desrespeitam sua História. Já passa da hora de aprendermos essa lição.
Uma a uma vamos cruzando as pontes que conferem ao Recife sua identidade única. Sobrados históricos, compridos, e estreitos casarões com suas memórias seculares. Pouco adiante, prédios modernos, a grande torre que marca o Pólo Digital e nos remete a um futuro promissor. Fechamos o circuito voltando ao Marco Zero.
Terminado o passeio, ficamos com a constatação: o nosso Recife é uma cidade partida. Uma cidade é a criação de Deus, linda, charmosa, a recatada geografia que se descobre aos poucos; a outra, inventada pelos homens, é mal tratada, descuidada, extremamente contrastante, carente de responsabilidade solidária para ser digna de ser vivida pelos nossos descendentes.
Encerro com a nota da esperança, evocando o notável compositor pernambucano J. Michiles: “delirante poema/Recife manhã de sol”. De um lado, eu acredito que o Recife pode ser tudo que quisermos e decidirmos fazer dele, e com ele. De outro, eu acredito no poder local, na proximidade, essa face humana do poder, com sua capacidade de transformar, de verdade, a vida das pessoas.
São tais certezas que me trazem a este momento, em que me apresento aos recifenses como uma alternativa para a gestão de uma cidade tão bela como desafiadora.