Porque Parei de Dizer: Bicho, você tem que ver esse filme
Eu costumava falar muito de cinema. Na verdade, ainda falo bastante, só parei de dizer:
- Bicho, você tem que ver esse filme.
É que esse bendito costume acaba me levando a uma pergunta, para a qual não tenho mais paciência, “Mas tem na Netflix?!”, e quando eu sei — o que raramente acontece - e a resposta é positiva, está tudo bem, a pessoa me agradece e até diz “vou pôr na minha lista”.
O problema é quando a resposta é negativa. Aí que começa o choro e ranger de dentes, afinal, como é que se assiste um filme que não está na Netflix, né?!

Nesse ponto da conversa que eu fico meio sem graça, até meio pistola mesmo, quero mudar de assunto e tudo mais, só para não ter que comunicar o óbvio: NUNCA FOI TÃO FÁCIL TER ACESSO A CINEMA! -foi mal, eu tinha que gritar.
Vamos voltar no tempo um pouco? Quando eu era criança, por volta dos 8 ou 9 anos — só para constar, hoje tenho 27 — , quase toda Sexta-Feira, meus pais levavam a mim e a minha irmã numa locadora que havia perto de casa e lá nós alugávamos filmes em VHS. Foi com meus pais que aprendi a gostar de cinema. Eles sempre assistiram filmes em VHS, na TV e, algumas vezes, até fomos ao cinema como programa em família.

Alugar um filme era uma incerteza. Se a gente ia com um título na mente, podia acontecer da locadora não ter aquele filme, e por isso, não era incomum que as pessoas tivessem cadastro em mais de uma locadora. Na maior parte das vezes tinha o filme, o que era mais comum era o filme não estar disponível, isso é, alugado por outra pessoa. Com a chegada do DVD, as locadoras acabavam tendo várias cópias do mesmo filme, ainda assim, era complicado assistir tudo o que se queria.
Para assistir um lançamento, por exemplo, você tinha que chegar cedo. Se não, outra pessoa já o teria alugado. Alugar um lançamento numa Sexta-Feira(As locadoras costumavam ter umas promoções as Sextas, tipo alugar sexta e devolver segunda) era quase impossível, você tinha que dormir na porta para conseguir. Feito fã de artista pop tentando pegar grade no show — sim, eu estou exagerando. Mas era difícil.
Quando me pego tentando que dizer que hoje tem Netflix, Crackle, Amazon, Google Filmes, HBO GO, FOX Premium, Cinemax Go, Telecine Play, Vivo Play, NetNow e outros, para não falar dos meios ilegais, tipo Torrent e os irmãos espirituais do Mega Filmes -e por falar nisso, como será que está o casal mega filmes?
O único argumento plausível para não ver um filme atualmente é não querer.
Por isso me falta paciência para as desculpas, “Não tenho tempo de procurar… Ah! Não tem na Netflix… “. Bicho, se tu não tem dez minutos para SENTAR -desculpa a exaltação- na frente do computador, smartphone, Smart TV, ou seja lá qual for o seu dispositivo e procurar um filme, tu não tem tempo para ver esse filme. Talvez eu esteja sendo o chatão do rolê, mas me parece que a facilidade nos estragou. Não lembro dos meus pais dizendo que não tinham tempo de ir até a locadora, de escolher um filme e rebobinar para devolver.
Hoje, em questão de minutos, dá pra ver filmes independentes, curtas, blockbusters, vindos de todas as partes do planeta, sentado no sofá da sala, ou na patente com um celular nas mãos. Basta pôr login e senha. E por algum motivo misterioso, as pessoas se recusam a faze-lo, como se usar o Google fosse uma tarefa hercúlea, e lá vem o chavão: temos o mundo ao alcance das mãos e nos recusamos a toca-lo. Tem Kathryn Bigelow, Spielberg, Glauber Rocha, Park Chan-Wook, Anna Muylaert, Wagner Moura, Jennifer Lawrence, Tom Cruise e mais de mil outros, todos à distância de meia duzia de cliques. Então, clique!
