Sessão pipoca com as amigas

As mulheres ainda são impactadas pela falta de representatividade no ramo do entretenimento, seja em filmes, séries ou novelas. É muito ruim assistir algo e perceber que nós nunca protagonizamos a história ou que a nossa imagem é carregada de estereótipos que nos desvalorizam, não é?

Felizmente, essa questão vem sendo questionada e o protagonismo feminino está ganhando cada vez mais espaço. Se antes o papel da mulher nas histórias servia apenas como apoio ao do homem, baseando-se principalmente em imposições de gênero — a mulher perfeita, dona de casa, boa mãe ou até mesmo novos estereótipos de mulher independente, desapegada que continua beneficiando o público masculino — hoje ele conta com uma pluralidade de representações, buscando características, experiências e abordagens diversas para que diferentes mulheres possam se sentir acolhidas e representadas.

Pensando nisso, separamos para vocês alguns filmes, séries e desenhos que contam com o protagonismo feminino e trazem esta representatividade de forma empoderadora, enaltecendo o que nos faz fortes e únicas, com temáticas pertinentes às necessidades femininas atuais perante à sociedade. Alguns deles poderão inclusive ser vistos em família, com suas filhas e amigas.

Vamos lá?

  • As Meninas Superpoderosas (1998 / 2016)

Este desenho fez parte da infância de muitas garotas, transmitido de 1998 a 2005 em sua versão original. Neste ano, ganhou uma releitura, feita por novos produtores, sem modificar sua história. 
“As Meninas Superpoderosas” conta com uma temática muito forte de empoderamento feminino ao mostrar que meninas podem modificar os ambientes ao seu redor de forma corajosa e autêntica, muitas vezes até se sobressaindo em relação aos homens.
Além disso, a animação quebra estereótipos de gênero de forma divertida, permitindo que as crianças cresçam e desenvolvam sua personalidade de forma livre e respeitosa, entendendo como o gênero funciona dentro de uma sociedade, algo que hoje oprime e silencia pessoas todos os dias. Podemos observar estas quebras de padão no fato do pai e criador das Meninas, o Professor Utônio, ser quem desempenha as tarefas de casa (tidas como femininas pela sociedade) e a Lindinha, tida como a mais delicada e feminina das heroínas, é quem corta a grama e lava o carro. Outro exemplo é o vilão “Ele”, representado por um diabo de aparência andrógina, com voz e vestes tidas como femininas, mesmo sendo do gênero masculino. Outra vilã que trouxe reflexões bacanas é a “Femme Fatale”, fazendo com que as próprias Meninas reflitam sobre quantas heroínas elas conhecem que existem por si só, sem estar a sombra de outro super-herói. 
Na nova versão do desenho, podemos conferir já no trailer que as Meninas terão de enfrentar um homem com pinta de machão que busca trazer a masculinidade de volta à Townsville. Já podemos imaginar como as meninas lidarão com este vilão, não é? ;)

  • Mulan (1998)

Apesar de “Mulan” ser considerada integrante do time de princesas da Disney, sua história é um primeiro passo para fugir destes padrões. Mulan é a garota que salvou a China, no que começou como uma busca para ser aceita e reconhecida por sua família e por uma sociedade extremamente machista, que prega como valores femininos a submissão, serventia e outros aspectos que envolvam uma mulher idealizada como perfeita para o casamento. Desafiando estes ideais impostos, Mulan finge ser um homem para lutar na guerra no lugar de seu pai (que está velho e cansado), esforçando-se para não ser descoberta, adquirir a força física de um homem e estabelecer estratégias para derrotar o exército Huno. Ao ser descoberta, sofre ameaças e humilhações, sem perder sua força para continuar tentando derrotar este exército. Surpreendendo a todos com sua determinação, é finalmente reconhecida e aclamada por características que vão além das que a definem como mulher ideal na sociedade chinesa. Este filme é importantíssimo para que possamos entender o quanto as mulheres chinesas ainda sofrem com esta imposição. Ainda é muito comum observar mulheres no país que atingem os 25 anos sentindo-se inválidas e inadequadas por não terem se casado. É uma realidade muito triste, que reforça o nosso dever com as próximas gerações para que cada vez menos garotas passem por este tipo de pressão social.

  • A Viagem de Chihiro (2001)

Indicado para ser assistido com crianças um pouco mais velhas, “A Viagem de Chihiro” apresenta um universo completamente diferente das animações ocidentais as quais estamos acostumadas. Numa jornada repleta de fantasia ensinamentos valiosos para pessoas de qualquer idade, Chihiro terá que descobrir uma maneira de recuperar suas lembranças, seus pais e sair da cidade, onde corre risco de ser aprisionada por uma bruxa para sempre.

A partir daqui, as sugestões não se encaixam mais para as crianças, sendo voltadas para o público maior de idade por conta de suas temáticas.

  • Jessica Jones (2015)

Jessica Jones” é um seriado produzido pela Netflix, em parceria com a Marvel, inspirado na história em quadrinhos homônima, com uma protagonista e uma temática muito urgentes relacionadas à resistência feminina. Jessica é investigadora que deixou de lado seus feitos como super-heroína após diversos eventos traumáticos e abusivos causados pelo vilão Kilgrave. Fugindo completamente do senso comum, com hábitos moralmente questionáveis, Jessica é dotada de força sobrehumana e a utiliza toda vez que qualquer ameaça chegue perto dela ou de pessoas com as quais se importa, buscando até mesmo proteger com sua vida se for preciso. Mais do que uma simples série sobre super-heróis, “Jessica Jones” traz a temática do relacionamento abusivo de forma explícita e necessária. Kilgrave é um homem charmoso, atraente, bem-vestido, com alto poder aquisitivo e uma arma de persuasão que também funciona como seu super-poder: controlar mentes. Sua obsessão em voltar a controlar Jessica assim como controla qualquer outro indivíduo, a perseguindo, ameaçando, humilhando, com palavras doces e calmas, nos serve de alerta sobre como estes vilões existem, mesmo sem o poder de controlar mentes. Ele é um dos vilões mais assustadores já vistos por ser tão real quanto qualquer homem que corremos o risco de nos relacionar, por ser tão real quanto as marcas deixadas por relacionamentos abusivos que demoram a cicatrizar. É fácil sentir-se representada por Jessica porque seus problemas se parecem com muitos dos problemas que temos que enfrentar diariamente, onde qualquer força ou coragem não são suficientes caso não busquemos ser fortes psicologicamente e emocionalmente, buscando ajudar e ser ajudada por mulheres em situação parecida ou que já passaram por isto. A série, de ritmo envolvente, nos traz muito mais que simples entretenimento, nos abrindo os olhos para o que muitas mulheres podem estar passando, nos encorajando a lutar contra isso.

  • A Cor Púrpura (1985)

Baseado no livro de Alice Walker, o filme “A Cor Púrpura” trata de uma época em que a mulher negra era extremamente marginalizada, com único intuito de serventia. Apesar dos negros terem adquirido direitos civis iguais aos brancos em 1868, os chamados black codes (restrições legais aplicadas em alguns estados) foram um obstáculo na conquista pelos direitos civis e humanos dos negros, sendo plenamente estabelecidos em 1964, com a Lei dos Direitos Civis. A obra trata e expõe opressões raciais, de gênero e econômicas a partir da perspectiva da protagonista Celie, mulher negra vítima de inúmeros abusos causados por seu marido (que a trata como escrava) que encontra refúgio em suas cartas. Dolorosa e real, a trajetória de Celie não deve ser romantizada e sim ser utilizada como reflexão para apontarmos o racismo que existe até hoje em nossa sociedade. Ao apresentar seu relacionamento com Shug Avery, fica claro o quão podemos nos redescobrir e nos libertar ao estabelecermos relações cumplicidade com outras mulheres — até mesmo amorosas — com o afeto representado de diversas maneiras.

“A primeira vez que pensei que poderia ser atriz foi quando vi “A Cor púrpura” (The Color Purple, 1985). Whoopi Goldberg se parecia comigo, ela tinha o cabelo como o meu, ela era escura como eu. Eu tinha estado carente de imagens de mim mesma. Eu nunca poderia ter imaginado que o meu primeiro trabalho seria tão poderoso e que me tornaria uma imagem de esperança, da mesma forma que as mulheres de “A Cor Púrpura” foram para mim.” Lupita Nyong’o, vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2014.

A fala de Lupita reforça o quanto representatividade é importante, o quanto isto pode inspirar outras mulheres a batalhar por seus sonhos e serem quem realmente são.

  • As Sufragistas (2015)

Mostrando a luta das mulheres americanas pela conquista do direito ao voto, “As Sufragistas” é um ótimo filme para compreendermos o quanto a militância ativa de algumas mulheres faz a diferença, principalmente quando estas se posicionam em nome das que não podem lutar ativamente. A trama traz a trajetória de Maud, submissa aos padrões femininos da época, passando a questionar o seu papel na sociedade e a opressão sofrida. De forma emocionante, traz a realidade de quem escolheu enfrentar de cabeça erguida o patriarcado, encarando suas consequências de forma igualmente determinada.

  • How To Get Away With Murder (2014)

Carregada de representatividade feminina, elemento comum e certeiro em todas as produções de Shonda Rhimes, “How To Get Away With Murder” conta com a esplêndida Viola Davis como protagonista e diversas outras minorias sendo representadas em primeiro plano também. Fugindo de estereótipos comuns na mídia ao retratar pessoas negras, a série traz a realidade dos personagens com todas as imperfeições e detalhes específicos e complexos que compõem a vivência de cada um, exatamente como funciona na vida real. O papel de liderança de Annalise Keating, advogada de Defesa e professora de Direito Penal, transcende a série e nos mostra mais uma vez a importância da representatividade, presente também no discurso de Viola ao receber o Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática em 2015 (o primeiro dado a uma atriz negra):

“Em minha mente eu vejo uma linha, e do outro lado da linha eu vejo campos verdes e flores belas e lindas mulheres brancas com os braços estendidos para mim ao longo da linha, mas eu não consigo chegar lá. Eu não consigo alcançar o outro lado da linha” isso foi dito por Harriet Tubman no século 18. E deixem-me dizer algo: a única coisa que separa a mulher negra das outras é a oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy se não houverem papéis.” Viola Davis

Para encerrar, confiram outras obras presentes na mídia com temática empoderadora:

  • Game of Thrones (2011): Traz mulheres diferentes, com suas especificidades, lutando para sobreviver a partir disso, vencendo suas próprias limitações. Dentro do contexto histórico da série, cada atitude delas faz toda a diferença;
  • Que Horas Ela Volta? (2015): Filme brasileiro aclamado mundialmente, conta a história da empregada doméstica Val e de sua filha Jéssica, que traz à tona reflexões a respeito do serviço doméstico e suas problemáticas;
  • Mad Max: Estrada da Fúria (2015): Quarto filme da franquia de ação Mad Max, o longa é ambientado num futuro pós-apocalíptico, onde de forma surpreendente e positiva as mulheres, principalmente a Imperatriz Furiosa, tomam o protagonismo e os rumos desta história;
  • Orange Is The New Black (2013): Série extremamente representativa, trazendo mulheres negras, lésbicas, periféricas, marginalizadas, neuroatípicas (que possuem algum transtorno psicológico) dentro dum ambiente de prisão feminina, com diversas tramas entrelaçadas, igualmente envolventes;
  • Stars Wars: O Despertar da Força (2015): O sétimo filme da franquia “Star Wars” acolheu os fãs com uma nova protagonista extremamente inspiradora. Rey mostra a que veio ao lutar contra o lado obscuro da Força, abrindo espaço para que diversas teorias sobre sua origem surjam, enriquecendo a história.

Que estas sugestões possam abrir caminho para que possamos valorizar e reconhecer a importância e talento das mulheres na mídia. Sejam as diretoras, produtoras, atrizes e nós, espectadoras. O poder do protagonismo feminino e da representatividade não se extingue após o término de cada uma destas obras, pois permanece como referência e inspiração para cada mulher que as contempla, trazendo a força necessária para que nossa luta continue firme perante as opressões e silenciamentos que passamos ao tentarmos nos estabelecer dentro da sociedade.

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