Sextas de Vênus: Amy Winehouse


Neste Mês das Mulheres, preparamos para vocês as “Sextas de Vênus”, onde contaremos a trajetória de grandes mulheres. Vênus é o planeta que rege a sexta-feira, está associado ao Sagrado Feminino, à fertilidade, ao amor, às artes em geral e beleza. Seja por sua força, impacto social e cultural ou talento artístico, esperamos que estas histórias possam trazer um pouco de inspiração aos seus dias.
Amy, uma cantora talentosa e deslumbrante de Jazz e Blues, um ícone pop, motivo de uma série de notícias e piadas maldosas e uma morte trágica. Tudo o que a mídia indicou foi morte por abuso de drogas. A louca e drogada que bebia demais e era inconsequente. Mas, será mesmo que a Amy que conhecemos publicamente mereceu esse título? Será que já paramos para pensar no quanto a exposição pública, as fofocas e os inúmeros flashes a cada passo que ela dava, só ajudaram a destruir essa artista tão talentosa?
Recentemente foi lançado um documentário bem intimo sobre a cantora. “Amy”, que emocionou muitas pessoas e já está disponível online, também sendo premiado como melhor documentário no Oscar 2016.
Ao assistirmos o filme, nos damos conta de que nunca estivemos nem perto de compreender realmente como era a vida de Amy: uma mulher simples, de personalidade forte, voz insubstituível e de muita espontaneidade. É difícil imaginar a vida pessoal de uma artista que está sempre sob holofotes e flashes, e mais difícil ainda se colocar em seu lugar. Amy tinha depressão e bulimia desde muito cedo, embora seus pais não ligassem muito para esse fato e terem se separado quando ela era bem pequena, fazendo da música o seu principal refúgio. Mas era uma pessoa muito intensa, tanto na música, quanto nas amizades e no amor. Amy era apaixonada pela intensidade.
Amy teve alguns amores, e um grande amor, que virou obsessão. Aqui ressaltamos o abuso sofrido durante o relacionamento da cantora com Blake Fielder, porque este foi o ápice do problema que levou à destruição de sua carreira e vida pessoal. Essa história sobre relacionamentos abusivos é mais comum do que se imagina. Boa parte dos homens gosta de ser dominador em uma relação heteronormativa (aquele modelo de casal que define o que é “coisa de homem” e “coisa de mulher”, por exemplo, os casos em que só a mulher tem responsabilidades com as tarefas domésticas, enquanto é o homem quem toma as decisões do casal). Às vezes nós conhecemos aqueles tipos “bad boy” e nos apaixonamos, principalmente na juventude, onde tudo é novidade, e qualquer coisa que nos coloque fora da zona de conforto nos inspirando de uma forma romântica e intensa, é muito atrativa. Costumamos dizer “Quem não quer viver um grande amor?”, que queremos viver algo intenso, achar a “pessoa certa”, e tudo mais.
Só que de repente, no meio daquele amor intenso, cheio de dramas, músicas bonitas e noitadas, as brigas e diferenças irreconciliáveis surgem, e você se encontra em seus limites. Mas ele não. Ele quer experimentar sempre mais, provocar mais, e te levar com ele. Você se entrega, dá tudo de si, abdica dos seus interesses e inspirações, para gostar de tudo que ele gosta, e fazer tudo que ele gosta/faz, afinal, não quer perder a chance de ter um amor assim. E acaba caminhando para um abismo, que é a total dependência da pessoa amada para se sentir viva e feliz. E então, o que é natural, mas é sempre inesperado para nós, acontece. O fim. Inaceitável, absurdo, um gosto amargo na boca e um nó na garganta.
Amy não afundou sozinha, e a empatia em relação a sua história e de diversas outras mulheres vítimas de relacionamentos tóxicos é necessária para que possamos lembrar dessa artista por todo o seu inegável talento e amor em cada ato, e não deixar que isso seja encoberto por uma mídia sensacionalista. Vamos permitir que todas as histórias não contadas sobre Amy Winehouse, principalmente as que falam sobre seu relacionamento com Blake, tracem uma nova visão sobre sua jornada, mais humana e solidária.
A temática dos relacionamentos abusivos precisa ser exposta e tratada, para que as mulheres que estejam neste tipo de situação possam tomar consciência do que estão vivendo. A conscientização deste modelo abusivo também serve para as amigas e pessoas ao redor de quem sofre com estes acontecimentos. Preste atenção às atitudes de sua amiga ou colega perante o relacionamento, se ela demonstra medo ou culpa, se há marcas pelo corpo, se ela é “proibida” de fazer o que quer ou coagida pelo parceiro a agir de certa maneira. A atenção a estes detalhes pode parecer mínima, mas é essencial para que possamos ajudar a pessoa querida a deixar o que faz mal para trás e viver de forma plena, livre e feliz. Um conselho pode salvar alguém de algo destrutivo. Este acolhimento poderia ter salvo a vida de Amy Winehouse.
A lembrança de Amy carrega a sombra de suas canções e legado, sua humildade perante a tudo aquilo que a inspirava (como o cantor Tony Bennett por exemplo, com quem teve chance de fazer duetos) nos traz uma sensação reflexiva e nos leva a pensar em quantos significados ocultos a vida de uma mulher pode carregar, principalmente quando julgada e exposta pela mídia. Que o brilho de seus olhos e a sua intensidade sejam recordados ao falarmos sobre música e sobre a batalha que muitas mulheres passam para se manterem sãs. Amy, além de uma artista maravilhosa, nos serviu de lembrete sobre como os relacionamentos abusivos podem acabar com as perspectivas, os sonhos e a humanidade de alguém. O prestígio deveriam ter sido dela o tempo todo, mas não por sua vulnerabilidade e problemas emocionais, não como “plano de fundo” e fardo para Blake Fielder, e sim por sua força, talento e amor pela arte.
Amy Winehouse nasceu em 1983, em Londres, e morreu aos vinte e sete anos. Lançou seus únicos álbuns, “Frank” e “Back to Black”, em 2003 e 2006 respectivamente, e casou-se com Blake em 2007, onde já havia sido apresentada às drogas por ele. As polêmicas envolvendo seu vício começaram no mesmo ano do casamento. Seu maior momento foi o Grammy de 2008, onde levou cinco de seis prêmios para os quais foi indicada — Blake já estava preso a esta altura. Aos 25 anos, entrou com um pedido de divórcio. Em 2010, encontrava-se em um novo relacionamento, sem todas as conturbações e problemáticas do anterior. Infelizmente, as marcas dos abusos que sofreu agravaram seu quadro depressivo, e em julho de 2011, Amy foi encontrada morta em sua casa.
A história de Amy e seu legado artístico fantástico podem nos ensinar lições muito importantes sobre nós mesmas e sobre as mulheres que conhecemos. Em alguns momentos, não é mais questão de escolha. Devemos levar em conta o emocional e o psicológico de cada pessoa, e a forma com que cada uma lida com situações amorosas. Nunca devemos nos entregar demais, pois nosso brilho e autoconfiança podem rapidamente se apagar se cairmos nas mãos de pessoas mal intencionadas. Sejam sempre donas de si, para que possam viver uma vida saudável e viver rodeadas de pessoas que somam para a sua vida.
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Foto: Blah Amorin— Flickr, com modificações. Original disponível em: bit.ly/AmyWinehouseBlahAmorin