Sextas de Vênus: Nina Simone

Encerrando as Sextas de Vênus, uma mulher a frente de seu tempo e dona de uma expressão artística inegável. Conheça a história de Nina Simone, uma mulher inspiradora, fantástica e incompreendida.

Uma mulher de grande talento, mas principalmente de muita fibra. Com uma áspera e inigualável voz, a artista tinha a incrível capacidade de compartilhar seu mundo e de fazer o ouvinte acreditar em tudo aquilo que estava sendo cantado, pelo simples fato de sua expressão ser carregada de sinceridade.

Eunice Kathleen Waymon, mais conhecida pelo seu nome artístico Nina Simone, foi uma grande inspiração na música, e uma referência no jazz, blues, folk e soul. Uma mulher de muita perseverança, que batalhou por seus sonhos, transcendendo os padrões do que uma artista deve ser. Desde pequena, com seu talento nato e sua personalidade forte, compreendia e refutava duramente os costumes racistas da sociedade norte-americana. Em seu primeiro recital, aos 11 anos, exigiu que seus pais fossem acomodados na primeira fileira da plateia, o que causou estranhamento na época, já que a divisão racial era evidente e os bancos destinados à pessoas negras eram os do fundo. Nina começou como pianista clássica, aprendendo desde seus 3 anos de idade quando começou a tocar na igreja, e seu objetivo era ser a primeira pianista negra dos Estados Unidos. A diva negra, nascida na Carolina do Norte, na cidade de Tryon, se preparou a vida inteira para isso. Teve aulas com uma professora que apostou em seu potencial, e praticando de 8 à 9 horas por dia, Nina teve a possibilidade de arrecadar fundos com seus pequenos recitais para bancar seus estudos e também conheceu o isolamento em relação às outras crianças, por se dedicar muito ao piano clássico.

Aos 17 anos, foi rejeitada pelo Curtis Institute of Music, um conservatório de música clássica, e teve sua vida completamente transformada pelo racismo. Além disso, seus pais eram muito religiosos e conservadores, assim como seu marido, que era policial, e isso também contribuiu para a revolta e resistência de Nina, que sofreu violência social, familiar e matrimonial.

Depois do choque da rejeição do conservatório, Nina Simone começou a tocar e cantar em bares, para sobreviver e sustentar sua família, e adotou esse pseudônimo por temer a desaprovação da mãe. Tida como inspiração principalmente para as mulheres negras, por uma questão de representatividade e voz para apontar os problemas causados por racismo que afetam — e muito — estas mulheres, o ativismo foi algo que esteve sempre presente e necessário na vida da artista. Ela desafiava e se impunha com a mesma garra com a qual expressava suas emoções e sua música Mississippi Goddamn, uma resposta ao assassinato de Medgar Evers, ativista pelos direitos civis norte-americanos, tornou-se um hino do ativismo negro americano, por falar também sobre o assassinato de quatro crianças negras numa igreja em 1963. A capacidade de expressar potência em suas canções juntamente com sua entrega e demonstração de sua real personalidade em cada ato, nos faz lembrá-la como símbolo de resistência. Através de seu engajamento pela busca de direitos civis e sua atitude persistente no mundo artístico, conquistou sua liberdade, espaço e posição social sendo uma mulher negra.

Seu legado é uma lembrança intensa para todos mesmo após mais de dez anos de sua morte. Vítima de um câncer de mama, morreu pacificamente aos 70 anos em 2003. Uma mulher a frente de seu tempo e ao mesmo tempo dotada de uma atemporalidade que poucas artistas alcançam, Nina foi vítima de explorações e abusos físicos e psicológicos por parte de seu marido (e também agente) e nunca se conformou com isso. Sua arte foi a maneira encontrada por ela de ir se libertando cada vez mais de um relacionamento dominador, servindo como motivo para que a julgassem de forma injusta como ingrata, insensível e até mesmo como uma mãe ruim e descontrolada, devido ao seu transtorno bipolar descoberto mais tarde. É importante analisar a maneira como pessoas se aproveitaram de sua posição como mulher e militante para submetê-la a humilhações, para que os motivos de sua instabilidade sejam compreendidos.

Foi Andrew Stroud que obrigou Nina Simone a seguir sua carreira mesmo depois dela ter adquirido estabilidade financeira para interrompê-la e seguir seus sonhos de tornar-se pianista, afastando a artista de sua filha por conta dos compromissos profissionais como cantora. Nina não seguia o padrão esperado de uma mulher e mãe e sim o de uma mulher independente e trabalhadora. Ela deixava o palco quando os espectadores não faziam silêncio, buscava respeito e compreensão. Buscava em cada uma de suas ações o protagonismo de sua própria vida, protagonismo esse muitas vezes tomado por seu marido. A luta dela para livrar-se destas amarras nunca foi silenciosa e foi isso que gerou o incômodo e os julgamentos.

Mesmo nos dias de hoje, onde nosso espaço como mulheres e protagonistas de nossas vidas é muito maior, uma mulher vivendo por si mesma, trabalhadora e que se opõe ao tudo que foi imposto ainda incomoda, gera boatos, causa indignação, e isso se enaltece ao fazer o recorte racial nesse cenário. Essa mulher, assim como várias cantoras, atrizes, trabalhadoras, estudantes, se mostraram firmes na luta contra o racismo e a opressão estrutural que a sociedade impunha, e que infelizmente ainda carrega, e foram muito importantes na história para que as gerações obtivessem cada vez mais voz, para continuar combatendo e desigualdade e o preconceito, e mais do que isso, agir para poderem ocupar os espaços não só artísticos ou acadêmicos, que são de todos por direito, mas muitas vezes malvistos pelo racismo enraizado na sociedade. E é por conta deste incômodo que a nossa luta é tão necessária e constante. Para que nos enxerguem como indivíduos dotados de personalidades distintas, com nossos próprios desejos e aspirações.

Para que não sejamos vistas como “loucas”, “descontroladas”, “ingratas” por não nos submetermos ao que homens e toda uma sociedade nos impõe e por exigirmos respeito. Para que parem de buscar desculpas e justificativas para o comportamento que não costumam esperar de uma mulher — como fizeram com Nina Simone durante todos esses anos — e que deveria ser completamente compreendido e aceito assim como o comportamento dos homens. Para que sua memória e legado sejam perpetuados.

“Pássaros voando alto, você sabe como eu me sinto
Sol no céu, você sabe como eu me sinto
Brisa passando, você sabe como eu me sinto
É um novo amanhecer
É um novo dia
É uma nova vida
Pra mim
E estou me sentindo bem” 
Nina Simone — Feeling Good

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Foto: bit.ly/NinaSimoneRonKroon

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