Arturo

Semana passada conheci o Arturo. Aliás, adoraria que isso acontecesse mais vezes, conhecer o personagem ao invés de criá-lo. A vida é mais fácil quando as coisas vem até nós, porém, esse caso foi único, o encontrei enquanto tomava café em um final de tarde.

Seu sorriso e olhos grandes revelaram mais do que a conversa. Um tanto calado e aéreo, ele parecia desconectado. Arturo sentou-se na mesa ao lado e estava com Juan, um amigo. Os dois moravam juntos na rua Rogent, um lugar movimentado e cheio de árvores. Agora todos querem morar nesse canto da cidade, onde tudo parece mais bonito e inspirador. Não acredito em bairros inspiradores. As benesses dos bairros-inspiração têm um preço e podem te deixar no vermelho ao final do mês. Mas, certamente ajuda viver em um lugar onde se pode ver praças, passeios e bebês arrumados, ao invés de vizinhos no banco da rua falando mal de outros vizinhos.

Na calçada do Café Chaplin, um dos muitos da rua Rogent, Juan me chamou para pedir açúcar e após eu lhe passar um sachê, me perguntou sobre o que eu escrevia. Andava sem ideias, lhe disse, apenas traçava notas sobre minha semana . Ele comentou que já estava ótimo, sua memória não era boa e anotar qualquer coisa servir para reviver alguns momentos, funcionaria assim como fotos, mas com detalhes. Eu confessei que a ideia era mesmo essa e além de reviver, podemos criar alguns momentos, melhorá-los.

Perguntei sobre o que ele gostaria de guardar e então Juan me falou sobre alguns dias com Arturo, que morava há cinco anos em um canto da sala de sua casa, onde dormia em um colchão puído e sem lençóis. Às vezes, disse, Arturo tinha alergia por todo o corpo, mas isso não o impedia de sair diariamente e descer até o lugar onde nos conhecemos. Lá, só tomava água, não gastava com cafés ou croissants, como fazia Juan e mesmo assim todos o conheciam. Não é preciso falar para ser carismático.

A dupla almoçava quase sempre em casa, Juan cozinhava e Arturo ficava com os restos. Não lhe importava comer as mesmas coisas todos os dias, desde que não fosse tomate ou peixe.

Desciam ao Chaplin pelas tardes. Não tinham lugar fixo, mas gostavam das mesas com vista para a calçada e trocavam olhares sobre a vida ao redor, os bebês e seus pais com olheiras, os grupos de jovens, suas piadas ruins e ar de donos do mundo, além de ver demais conhecidos do bairro, vizinhos e comerciantes que prefeririam não haver encontrado.

A conversa parou por uns minutos, Juan lia um jornal enquanto Arturo olhou obsessivamente para uma menina que passava à nossa frente. Seus olhos diminuiram, como se ele sofresse uma súbita e aguda miopía. Então, os passos da menina ficaram mais devagar, ela sentia a mirada de seu observardor e tinha prazer em ser vista. Uma história mal-resolvida, pensei.

Fui anotar pensamentos soltos e quando vi, Arturo havia escapado da coleira e foi correndo ao encontro da menina. Os dois rodopiavam ao redor de um poste. O nome dela era Lola.

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