Disputas espontâneas

As ciclofaixas não só ajudam a nos locomover pela cidade, elas também fazem convites. Pedalando rumo ao centro, sou ultrapassado por um cara, digamos, menos em forma do que eu. É besteira, eu estava sem pressa, mas não consigo deixar barato. Saio disparado atrás, quero recuperar meu posto inexistente de número um daquele trecho. Acelero, mas ele anda bem. Me aproximo, vejo que é mais jovem que eu. Merda, o tempo passa. Ele tem manha nas retas, na hora em que abrem os sinais ganha velocidade de forma rápida, esse é justamente meu calcanhar de Aquiles, minha pedalada é mais gradual.

Dou gás e chego junto a ele no próximo farol. Estamos perto do Centro Cultural São Paulo. Eu poderia desviar, parar ali e tomar um café. Mas não, devo ultrapassá-lo imediatamente. Pisamos no pedal, ele na frente abrindo espaço, mas em trezentos metros, fico em sua cola. Aumento a marcha, coloco mais peso e fricção, quinhentos metros com curvas, ganho a dianteira. Bora! O farol fecha, ele chega em seguida. Parece menos cansado do que eu. Sinal verde, fico para trás, saco.

À medida que me reaproximo, começo a reparar em sua bike. Um modelo “speed”, feito para ganhar velocidade. Essa é uma vantagem. Além disso, ele é um ciclista equipado. Seu capacete tem luz refletora, as lanternas no guidão são de LED e ao invés de uma, ele leva duas garrafinhas d’água no cano inferior. Esse cara sabe o que está fazendo.

A disputa não para e pegamos uma sequência de faróis abertos. Trecho reto, consigo dois dedos de vantagem. Escuto ele girar rápido atrás de mim. Acelero, não é agora que vou perder, quero abrir uns cinquenta metros, ver se o próximo semáforo nos separa. Vai dar, perdeu, bike-boy.

Não rolou. Sinal fechado e ele do lado. Começa a me encarar. Parece que entrou na disputa também. Esse é o espírito da coisa. Disputas espontâneas. Quem nunca se pegou em uma, seja correndo, caminhando ou andado de carro? Você está à caminho do banco e pã, surge um cara na calçada, com passos velozes, que chegará na frente ao final da quadra. Horrível situação. Mas, de onde surgem essas pessoas?

Em uma maratona, os atletas são atiçados por “coelhos” que puxam o ritmo das provas. Eles são contratados pela própria organização e fazem um percurso delimitado, forçando os competidores de elite a se superarem. Já as lebres urbanas do cotidiano não sei quem contrata. Teria o Ministério da Saúde espalhado algumas *“à paisana” *nas capitais com maior problema de obesidade? Não seria ruim. Poderíamos ter isso de forma assumida talvez.

Sim, deveríamos ter “coelhos” corredores, bikers e caminhadores. Eles não só ajudariam as pessoas a se moverem mais, mas melhorariam o fluxo em lugares com excesso de gente. Coelhos na Paulista em frente ao Conjunto Nacional salvariam tempo de muitos que atravessam aqueles faróis. No começo, seria necessário uma campanha para que as pessoas soubessem quem são os coelhos, com certeza alguém sugeriria que eles fossem realmente fantasiados como animais.

Para chamar a atenção, escolheriam uma cor forte, roxo ou verde, para distinguir esses profissionais. Reforçando a identificação, suas roupas seriam de pelúcia. Não, melhor um material mais leve, assim eles poderiam fazer melhor sua função sem perder o fôlego. Teríamos a primeira roupa de coelho “dry-fit” do mundo. Já vejo o sucesso da iniciativa. Grandes cidades americanas, que sofrem ainda mais com sobrepeso, copiariam a invenção. Chamados de “The Urban Rabbits” eles ganhariam o mundo, virariam jargão. “Fulano andou mais rápido que um coelho urbano”.

A decadência viria mais tarde, quando um grupo de bandidos se aproveitasse da inovadora fantasia-uniforme e resolvesse assaltar um banco fantasiados. Pavor e medo seriam associados aos coelhos urbanos, que sairiam de circulação.

Porém, no caso da minha disputa, acredito que não se tratava de um coelho “à paisana”. Ele não tinha o biotipo necessário para a função, apesar de pedalar suficientemente rápido. Talvez, seja só o espírito de competição que nos tomou naquele momento. Já era tarde demais para desistirmos. Seguimos alterando a liderança até o Mosteiro São Bento, passamos a Rua Direita, o momento mais difícil da travessia, repleto de pedestres-obstáculos. Ganhei a dianteira, o acaso colocou menos gente por onde eu passava. Próximo lugar, Viaduto do Chá. Tensão, ele conhecia bem a região e me passou.

Não desanimei, dei gás total até a avenida Ipiranga. Agora, estávamos em minha área, a hora era essa. Forçando o pedal ao máximo, gritei na subida até a Consolação. Vencer era importante, todo o resto poderia ficar para depois. Emoção, pedalávamos em pé, medíamos a dianteira por centímetros. A pressão falou alto, comecei a berrar. “Aaaaah, aaaah!”. Minha reação o desconcentrou. “Eeeei”, escutei, vindo de trás. Era isso então, gritar funcionava. “Aaaaaah-rá!” subo a rua Araújo, vejo a uma quadra a marca da chegada inconscientemente estabelecida. O segundo lugar é o último, o medo me consome. Pedalei já quase sem oxigênio na cabeça.

Ao chegar na faixa de pedestres, estico os braços. Venci, acabou. A sensação de prazer é gigante. Cadê o rei das retas? O ciclista equipadão? Ficou pequeno para ele. Descanso, mas não tenho água, tudo que me resta é mudar de marca, relaxar. Ainda em êxtase, mando um whatsapp para minha mulher “Ganhei, ganhei porra!”. Ela não entende o que eu disputava naquela quarta-feira e responde com interrogações.

Escuto o pedalar do perdedor. Ofegante, manda um “meu, você berrou cara”. Finjo que não é comigo. De fato, não o conheço. Ele insiste “vamos até a Paulista, quero ver na Consolação como vai ser, parceiro”. Já ganhei, estou exausto, mas ele tem direito a uma revanche. Nos preparamos, mudo a postura. Porém, quando o sinal abre, recebo outra mensagem da mulher. “E aí, campeão, já passou no mercado para comprar as coisas? A lista tá no seu e-mail, onde você tá?”

A voz da razão às vezes vem na inesperada forma de texto. Enquanto o competidor subia a avenida, virei à direita e segui para casa. Ainda tive tempo de ver seu rosto de espanto, me olhando de longe, com lágrimas escorrendo.