
Eduardo Cunha em Barcelona
Andar por uma cidade com boas avenidas, passeios e calçadas é sempre um ótimo programa. Ainda mais com sol, quando a luz do dia faz brilhar monumentos e parques e achamos simpático até o mais repugnante dos seres humanos.
Me encontrava nesse clima, contemplando Barcelona, achava tudo bonito, das pombas do canteiro aos edifícios modernistas. Quando descia a escadaria do metrô voltando para casa, me deparei com Eduardo Cunha. Ele, o maior vilão, um crápula estatal, bem na minha frente. Ora, esse sol de inverno deve me ter feito delirar. Afinal, aquele não poderia ser Cunha, o que ele estaria fazendo aqui? Nunca soube de nenhum vínculo ou parentesco seu com a Espanha, ao contrário da Suíça (conhecemos bem essa história). O que tramava? Turismo em plena crise governamental ou uma escapada para se deliciar com embutidos e vinhos catalães?
Entramos praticamente juntos na estação, passamos pela catraca e na bifurcação de linhas, ele tomou outra direção. Era o final do meu breve encontro com o deputado e eu não me indignei, nem o mandei para nenhum lugar de baixo calão. Me arrependi, estávamos em outro país, se fizesse algo, se o atacasse, não poderia ser brutalmente repreendido. Resolvi correr, mudei de plataforma e pegamos o mesmo vagão, eu e Cunha, Cunha e eu.
Ao entrar, busquei um assento e mexi no celular para dissimular, não queria levantar suspeitas, mas não o tirava de minha visão periférica. Cunha estava sentado também, a uns 15 passos de mim. O seguiria até saber onde estava hospedado e o que fazia na cidade. A cada estação minha coragem crescia: eu desceria junto com ele e no momento propício berraria impropérios, o xingaria alto e se possível, lhe daria um forte chute na canela. Me alegraria ver seu sofrimento, os óculos espatifados no chão, a cara de dor e seus cabelos despenteados. Por fim, o deixaria caído pedindo de ajuda em uma cidade desconhecida.
Cabia a mim vingar milhões de brasileiros, desde aqueles que se manifestaram contra ele digitalmente quanto todos os que sentiram o amargo gosto de seus desmandos institucionais. Já havíamos percorrido mais de metade da linha e o vagão se esvaziara, assim que fiquei em pé bem em sua frente, já não havia forma de escapar. No entanto, mais uma parada e o vagão recebeu novos passageiros. Uma gente barulhenta, com carrinhos de bebê e velhos, se prostravam entre meu alvo e eu. Todos eram membros de uma mesma família com ares de classe média que parecia haver saído de um almoço festivo ou algo do gênero. A mãe logo sentou-se no assento ao lado de Cunha e chamou a filha, que foi engatinhando ao seu colo.
A criança gesticulava, brincava com a mãe e balançava uma boneca em uma das mãos. Sua presença não só chamou minha atenção, mas também a de Cunha. Ele passou a olhá-la e ria com seus movimentos, achava graça nos seus gestos. Sua risada era sincera, real e isso me incomodava. Era muito diferente daquele sorriso maquiavélico tantas vezes visto em capas de jornais, como se ele agora fosse outro Cunha, sem a armadura farsesca. Um ser capaz de se entreter com um bebê durante uma viagem de metrô.
Seria ele mesmo o nosso Eduardo Cunha? Pensei em fazer uma foto com o celular e enviá-la a amigos para ter a prova cabal, mas quando o tirei do bolso, já estava sem bateria. Eu não tinha cúmplices naquela perseguição, não havia outro brasileiro no vagão que pudesse esclarecer a identidade real daquele senhor que agora não só ria, mas interagia com a menina. Cunha tirara de seu casaco caramelos e os oferecia para sua pequena companheira de assento e seu irmão que estava no carrinho logo em frente.
Não só as crianças aceitaram, como pareciam adorar as guloseimas. Cunha, o liso, já havia colocado os 3 poderes brasileiros em um bolso e agora tinha inocentes crianças europeias em outro. Um sujeito assim merece mais, muito mais que um chute na canela. Um coringa da vida real, ele paira sobre o mundo de modo particular, distribuído caramelos e balas a quem convir.
Enquanto eu devaneava, o coringa fora mais rápido e percebera minha presença. Agora, sua atenção se dividia entre os movimentos já contidos das crianças e eu. Se me mexia para um lado, seu olhar me acompanhava. Se o fitava, ele sorria de volta, de forma fria, um sorriso desses das capas de jornal. Estava na mira de um dos sujeitos mais perigosos do Brasil, todo meu plano caíra por água abaixo. O que fazer? Levantar e sair de sua vista seria humilhante e não saberia do que ele seria capaz de fazer, eu poderia ser atacado pelas costas. Resolvi fechar os olhos, fingir que dormia, e então improvisaria o resto no momento certo, na hora em que ele saísse do vagão.
Passamos por uma estação, por outra e com os olhos entreabertos, via finalmente Cunha se levantar. Um sujeito bem alto, com casacos e calças pretas se mexia lentamente. Disfarcei e abri mais um olho, era agora ou nunca. Ele se aproximava, porém, não da porta do trem, mas de mim. A cada segundo Eduardo estava mais próximo de meu corpo. Gelei. Seria esganado por Cunha em pleno metrô? Será que ele me arrastaria pelas pernas até o vão entre trem e plataforma? Tudo o que pude fazer foi fechar os olhos com força e tentar controlar minha respiração.
Passaram 10 segundos ou pouco menos, quando o aviso de fechamento das portas começou a apitar. Logo abri os olhos e não o vi mais em minha frente. Não estava também a família, com seus carrinhos e crianças. Todos haviam descido. Meus braços ainda estavam cruzados e quando olho para meu colo, havia um caramelo parado na minha perna direita. Peguei o doce, rasguei sua embalagem e o levei à boca. O caramelo era gostoso, cheio de açúcar, provavelmente. Fiquei com medo de engasgar, o engoli de uma só vez. O trem havia chegado na estação final. Era hora de trocar de linha e voltar para casa. Não havia punido Cunha, contudo, não saí no prejuízo.