Encontrando Vera

Ontem, voltando do mercado, me deparei com a Vera Holtz na esquina de casa. Não nos trombamos, tampouco nos falamos. Não foi dessa vez que conheci por acaso uma global. Porém, me chamou atenção sua presença.

Mulher alta, forte, de olhar fixo. Sua pele clara contrastava com o vestido, bolsa e sapatos negros. Fazia um dia quente e a imaginei suando debaixo da roupa. Afinal, vestia preto e deveria absorver mais calor que o normal.

Pensei em tudo o que ela absorveu e eu também não vi. A única mulher a ter sotaque caipira em uma emissora carioca. Suas personagens sempre tiveram uma veia cômica, histriônica. Além do sotaque, sua voz é grossa, sem tons agudos, marcante.

Talvez seja por isso que ela nunca ganhou papel de namoradinha do Brasil ou de femme fatale.Na adolescência, a imagino relegada à função de “amiga dos moleques”. Sabia de todas zoeiras e confidências da turma, mas acabava as festas no zero a zero. Poucas punhetas foram batidas pensando na jovem Holtz.

Vera provavelmente se viu tímida, inadequada perto das outras meninas. O teatro virou o refúgio e a família incentivou a “se soltar, ser menos jeca”. Continuando o clichê, ela se mudou para o Rio e entrou de cabeça na teledramaturgia.

Foi madrasta, empresária, herdeira louca e até catadora de lixo. Andou à cavalo, riu, criou planos e acariciou filhos bonitos como Reynaldo Gianecchini. Porém, nunca a vi em cenas de praia, ainda não a conhecemos de biquíni.

Suas paixões não eram Antônios Fagundes ou Alexandres Borges. Ela fora empurrada para os Stênios Garcias da vida. A exceção foi um affair com um personagem de Cauã Reymond.

Acostumamos a enxergá-la, nos levaram a vê-la, como uma mulher apenas determinada e divertida. Nos conformamos com a imagem da tiazona do bem, materialização televisiva da “amiga dos moleques”. Suas personagens arrancam leves risos involuntários e não suspiros desejosos.

No entanto, ao passar por ela, tive uma impressão diferente. Vera pareceu misteriosamente interessante. Assume a idade, não esconde cabelos brancos. Além disso, seu vestido era incomum. Tem mesmo jeito de artista. Apesar de não ter falado nada, da sua boca parecia que sairiam palavras originais ou questionadoras. Afinal, quem é Vera Holtz? Para onde ela iria?

Não sei se foi ao cabeleireiro do outro lado da rua, mais provável é que tenha ido à galeria de arte na quadra de baixo. Sim, por que não tomar um espumante e falar da irrelevância contemporânea? O dono da galeria é um charmoso senhor. Ele e Vera tem um caso, é possível. Após o drinque, devem ter seguido para algum restaurante junto a demais atores, escritores e arquitetos.

Na manhã seguinte, o casal não terá hora para acordar. Juntos, farão uma caminhada e divagarão sobre o novo disco de Elza Soares. Vera o considera um novo marco brasileiro, enquanto o galerista apenas o situa entre os melhores do ano.

Na hora do almoço, tomarão vinho e comerão cordeiro enquanto eu e o resto dos mortais desse bairro nos contentaremos com saladas e torradas sem glúten. Sim, essa é Vera. Preciso saber mais sobre ela.

Uma busca na internet me mostrou sua trajetória e explosão nos anos oitenta. Participou de grupos teatrais de vanguarda, interpretou Shakespeare, Brecht e Racine. Ganhou prêmios e teve uma juventude rica e mais multiface- tada do que muitos de minha geração. Bem mais do que a minha, aliás. Fiquei com inveja, às favas com John Malkovich, quero ser Vera Holtz.

Ator e personagens não podem ser vistos colados, pois não são a mesma coisa. Colamos nas pessoas, na imagem que temos delas, suas características, fisionomia, alma e caráter. Desprestigiamos alguém só pela voz, rechaça- mos apenas por detalhes, altura e peso. Incapazes de ver além, ridiculariza- mos trajetórias interessantes com um mero olhar. Caibam elas em biquínis da moda ou não.

Infelizmente, nem sempre podemos contar com o acaso para nos ajudar a ver o que estamos perdendo.

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