O Leitor do Zeitgeist

O Leitor do Zeitgeist é o observador mais astuto do agora, porém, se preocupa mesmo com o amanhã. Espécie de Nostradamus digital, usa a rede (melhor, as redes) para compor sua visão de futuro: robótica, disruptiva, fluída e transcendental.

Para ele, o os novos tempos já tem dono e pertencem às tribos de makers, doers e eco-activists. Pessoas de talento e sensibilidade ímpares passam os dias a abrir os olhos de muitos e liderar a mudança. Estamos em permanente transformação, costuma dizer o Leitor. Revolução moral, econômica e natural. Não contente em abraçar apenas uma causa, ele se desdobra em grupos e assume uma função diferente em cada um.

Inquieto, está comprometido em pavimentar a estrada do progresso, lugar não muito distante onde teremos feedbacks de tudo e todos em tempo real. Também contaremos com energia verde abundante, assim como softwares intra-cutâneos que facilitarão nosso auto-aprendizado em qualquer área do conhecimento humano.

Seus olhos brilham e as mãos gesticulam fortemente ao narrar essa ciber- epopeia. “Estamos quase lá, falta pouco”, diz ao saborear orgulhosamente seu café, de gosto único, já que ele pode ajudar cada etapa da cadeia de produção, do fazendeiro ao mercado. O resultado é um produto mais orgânico e inteligente. “Hoje, podemos beber propósito e nos conectar com o todo”.

Permanentemente atordoado com as informações, compromissos, filmes e palestras que acumula em sua rotina, ele tem na meditação seu ponto de equilíbrio “é importante estar centrado”. O Leitor me alertou que a mais profunda revolução é a do auto-conhecimento e controle da mente. “Criar para depois esvaziar. Praticar a destruição criativa começa de dentro”.

Tradutor do contemporâneo, ele tem um mínimo denominador comum para suas funções: inspirar. Eis a prova dos nove que faz seu trabalho valer a pena. Aliás, ele não gosta da carga negativa da palavra trabalho. Prefere troca, parceria e estudo. Co-laborar, co-criar, co-existir. Seu prefixo favorito é enunciado diversas vezes, na co-evolução (ou seria co-revolução?) cotidiana.

Durante uma viagem à Ásia, ele aprendeu que o mais importante é colocar tudo em suspensão, valorizar a impermanência e celebrar os micro-momentos. Por isso, ao se apresentar, nunca diz “Prazer, sou Mário, empreende- dor” e sim “Prazer, Mário, hoje estou empreendedor”. Com o tempo, seu esforço e talento passaram a ser reconhecidos e agora ele é requisitado até em grandes corporações. Nessas ocasiões, aflora o lado evangelizador. Seus keynotes invariavelmente começam assim:

- Olá, tudo bem? Antes de tudo, vamos tirar os sapatos, sentir o chão. Vocês e eu estamos juntos pela primeira vez e isso é o que importa. Vou colocar uma música e iremos respirar profundamente por dois minutos. Esse é um tempo só de vocês. Sem smartphones, nem interrupções. Respiremos.

Ao abrir os olhos, a plateia encontrará projetada no telão apenas a palavra “MOVIMENTO”, em maiúsculas e com tipografia manual. Logo, ele contará que após um workshop de bioconstrução feito na floresta ele percebeu que tudo é continuum, cíclico. Aliás, a música que estava de fundo ele mesmo gravou, durante a estadia com pajés do Alto Marajó. Esse é o gancho para falar que as matérias, dele e da plateia, estão interconectadas, mesmo que não percebam.

Então, é hora de narrar sua jornada, sobre como ele também saiu de um lugar parecido com aquele, inóspito e cruel, há uns 10 anos, e tomou controle consciente da própria vida. Nesse caminho, corajosamente ressignificou o dinheiro, tempo e espaço. Hábitos foram trocados, SUV pela bike, escritório pelo jardim ou cafés com wi-fi. Aliás, são esses amigos (claro, os mesmos das tribos do futuro) que dão força, criam micro-movimentos e o fazem acreditar no poder da gentileza e dos novos universos que estão por vir.

Para terminar, é projetada uma frase de algum educador ou filósofo estrangeiro. “Talvez, o hoje seja o amanhã que você tanto procura.”

Aplausos. Namastê.

Contudo, nem sempre a vida é fácil para o Leitor. Há momentos em que pragas assolam sua horta urbana, o pão caseiro passa do ponto e ele descobre intrigas e desvios até em seu grupo auto-gestionável de freelancers. Um cliente, construtora para qual vendera um conceito de vila sustentável, quer mudar o projeto, abolir o espaço da marcenaria infantil e invadir um manancial. Tudo parece nebuloso, o que fazer?

Ele sai de casa, senta em sua praça preferida, admira os crochês que ajudou a tecer pendurados em árvores. Ao passar o dedo pela tela do iPhone, resgata suas fotos dos monges tibetanos. Respira, lembra que tudo é passagem, é impermanência.

Ao chegar em casa, resolve abrir o Mac e jogar na rede um relato honesto sobre tudo o que está sentindo, com o mais poderoso conector humano que conhece: a transparência. Respostas não demoram a aparecer, são diversas mensagens de incentivo. Amigos e conhecidos lembram que ele é O Leitor, a referência e rasgam elogios para não desanimá-lo nessa constante cruzada em decifrar e hackear novas culturas.

Mais energizado, ele volta a entrar em seu fluxo de informações e descobre um vídeo em seu oráculo favorito, o TED. Nele, um jovem conta como criou uma startup para gerar valor compartilhado por meio de um aplicativo de trocas de produtos entre bairros ricos e pobres. A história o comove. “É preci- so fazer essa ideia ventilar, dá para replicar aqui mesmo em Pinheiros”. Dias depois, mergulhado em referências da nova economia, chega em um insight “Tá na hora de montar um festival para discutir o emergente, de trazer essa nova geração do Vale do Silício”.

A ideia o anima e ele rapidamente a espalha em seus grupos mais próximos. Eufóricos, os outros Leitores sugerem xamãs, antropólogos, chefs e artistas visuais. O formato deve ser diferente também, nada de auditório, coffee breaks e Berrini. Querem ar-livre, crianças, espiritualidade e contato real. O foco deve estar no fazer, em experimentar. Lúdico é a palavra-guia.

Um novo grupo de Whatsapp é criado com colaboradores selecionados para desenhar juntos mais esse sonho. O brunch para dar inicio às atividades acontecerá dentro de pouco tempo. A próxima tarde será intensa, cabe ao Leitor formatar esse primeiro encontro. Ele abre o bloco de notas e passa a esboçar palavras: “acreditar”, “errar”, “fazer diferente” e “empoderar”. Seu ce- lular vibra, já são seis horas da tarde, é hora de parar, abrir o app “Meditate Now” e deixar tudo fluir.