Matadouro cinco #01

Não se deixem engar pela capa

Até a página 20…

de “Matadouro 5”, do norte-americano Kurt Vonnegut, já fica claro para o leitor que não se trata de uma narrativa tradicional de guerra, onde há atos grandiloquentes, heróis destemidos ou mesmo a seriedade, comum ao tratar desse tipo de tema, porque “Matadouro 5” não é apenas um livro sobre os horrores de uma guerra, é também sobre viagens no tempo(!) e abdução alienígena(!!) — sim, é também uma leitura de ficção científica. E talvez (e não só) por isso que não há como não rir em diversos momentos. “Como tudo isto pode funcionar? ”, foi a primeira pergunta que me fiz quando li a quarta capa da minha edição. E a pergunta não é respondida nas vinte páginas iniciais, que quase toma o primeiro capítulo do livro e que ainda explicam a razão do livro ter um segundo título: “a cruzada das crianças”. É muito fácil transpor as vinte páginas, assim como o livro inteiro: escrita é ligeira, episódica, direta — não espere viradas na trama ou grandes surpresas, “Matadouro cinco” não alimenta ilusões.

Idas e vindas

O autor intercala passado, presente e futuro com maestria; os saltos no tempo podem confundir num primeiro momento, mas são essenciais, até para perceber as próprias noções de tempo que o livro aborda — intencionalmente ou não, Vonnegut dialoga com outro bigodudo famoso: Einstein, ao tratar o tempo como algo contínuo e não algo linear. Vonnegut antecipa fatos (sim, sopilers) e não perde o leitor, o fim não propriamente um fim…

Nessas vinte primeiras páginas, vemos o desejo e a dificuldade do autor em narrar os eventos do bombardeio da cidade alemã de Dresden, que matou mais que a queda das bombas atômicas no Japão:

“Quando voltei para casa depois da Segunda Guerra Mundial, há vinte e três anos, achei que seria fácil escrever sobre a destruição de Dresden, já que tudo o que teria de fazer seria relatar o que tinha visto. E também acreditei que resultaria numa obra-prima ou, que pelo menos me renderia muito dinheiro, já que o assunto era tão grandioso. ” (p. 8).

De fato, é um assunto grandioso e o testemunhamos através de Billy Pillgrim, o protagonista, um sujeitinho comum e atrapalhado que “se desprende” do tempo e que assim revisita diversos momentos da sua vida, incluindo aí a época de soldado, quando foi capturado e aprisionado por alemães, tendo-a como centro narrativo do livro. Deste ponto a narrativa pouco linear nos leva para frente e para trás na vida de Billy, apresenta personagens tão pitorescos quanto o próprio Billy; nos saltos de tempo também somos levados a sua estadia não solicitada num zoológico no planeta Trafalmador, onde junto de uma atriz terráquea eram a principal atração do lugar e de quebra critica a sociedade da época (o livro foi lançado em 1969, durante a guerra do Vietnã), e por que não, ainda a nossa.

Coisas da vida

Para o leitor e suas interpretações, toda história criada pode parecer que tudo é um tanto… viajante — afinal é uma guerra, mas também é irracional, bruta e violenta. Algo “sério”, que não se pode ignorar ou banalizar. E talvez resida aí a grande sacada de Vonnegut: guerras são banais, no final das contas, o que acaba por ignorar todas as vidas envolvidos e assim banaliza uma a uma. Vonnegut faz rir exatamente por isso, porque ridiculariza as razões da guerra, ridiculariza a humanidade e sua finitude e suposta importância no universo. Muitos tacham a obra de conformista, talvez seja, mas também um alerta da inutilidade das guerras e da busca por uma compreensão universal da vida. Apenas viva, pois ela vai acabar.

“Matadouro 5” é um clássico contemporâneo, existe uma adaptação cinematográfica, mas nunca vi. O livro é considerado a obra-prima e Kurt Vonnegut, que sobreviveu à Dresden, mas morreu de complicações de um tombo em casa. Coisas da vida.

[Matadouro 5, Kurt Vonnegut. L&PM Pocket, 2009]