La trama y el desenlace

Cabo Polonio

Começar contando que eu atravessava o Uruguai de carona, ouvindo no rádio do carro o uruguaio Jorge Drexler cantarolar, pode não ser o melhor caminho. Soa um pouco banal. Parece um lugar-comum qualquer de histórias de viagem. Ainda assim, era onde eu estava. Vivendo um típico roteiro de filme de estrada latino-americano B. E por sinal, um filme fantástico.

Eu compartilhava com uma argentina e uma madrileña, num espanhol deprimente, textos rudimentares do meu bloco de notas pessoal . Uma situação um bocado clichê também, eu sei. Todo esse lance de escrever e viajar de carona não é novo, apesar de ser tudo novidade para mim. Era um navegante de primeira viagem e nada disso teria ocorrido se eu não tivesse cruzado com minhas atuais companheiras de viagem na tarde anterior num restaurante esquecido pelo tempo na pequena Valizas.

Dividia a mesa com uns conhecidos do hostel quando elas chegaram. Aguardávamos o pedido de papas fritas enquanto todo meu dinheiro secava na mesa. Cédulas de Pesos Uruguaios úmidas partilhavam a mesa com o cardápio, pratos e copos.

Pesos molhados. Valizas.

As transeuntes queriam saber mais sobre o caminho de Valizas até Cabo Polonio que havíamos acabado de atravessar. Na teoria era uma caminhada de uma hora ou duas sobre dunas e areia fina bem simples. Porém um rio para cruzar a pé logo no início dificultava um pouco as coisas. Eu mesmo fui feito de trouxa pelo rio na travessia até o balneário. Um descuido bem estúpido da minha parte.

Como recompensa, acabei molhando toda a verba de viagem que me acompanhava numa bolsinha não impermeável esquecida na cintura. Um vacilo digno das risadas que meus parceiros de trilha dividiram comigo. Ri, ainda que desesperado. Afinal, eu andava somente com dinheiro por ter perdido o cartão semanas antes de toda essa aventura. Não era nenhuma grande fortuna, apenas o suficiente para o básico da sobrevivência: comida, teto e cerveja.

Voltamos todos juntos. Com as mulheres nos acompanhando fomos marcando as horas e a distância com conversas. Uma fórmula quase matemática que resultou na carona até Punta del Diablo da manhã seguinte.

Era o último dos meus três dias não planejados em Polonio. A ideia era partir em dois, mas por um desconto na estadia fui ficando. Ainda bem. Com a noite extra acabei ganhando o passeio molhado até Valizas, transporte até meu próximo destino e mais uma ceia compartilhada com outros hóspedes sob o céu estrelado daquele vilarejo pouco iluminado.

Foram dias não roteirizados de uma viagem inusitada. Que só saiu devido a uma correria para usar um crédito acumulado com uma companhia aérea antes do seu vencimento. Uma quantia guardada depois uma quase ida mal sucedida ao Chile. Que morreu prematuramente por conta de burocracia e falta de planejamento. Um puta infortúnio. Mea-culpa.

Mas o que parecia o desfecho de uma aventura chilena que nem havia começado foi só mais uma virada na trama. Um episódio de novela facilmente esquecido na semana seguinte. Como os vários nós que acabariam me jogando quase um ano depois numa estrada uruguaia. Atravessando um lugar nada comum, ouvindo um uruguaio desconhecido cantando pelo rádio enquanto narrava minha história escrita em notas inacabadas a uma argentina e uma madrileña.

Que viagem.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.