Robôs só querem se divertir

Umas poucas batidas tímidas na porta foram o suficiente para me acordar. A cama estava uma bagunça, era lençol para um lado e travesseiro para o outro. Muita movimentação numa noite de sono nem um pouco tranquila.

Olhei o relógio do celular e ainda marcava 6 horas da manhã. Praticamente madrugada para um preguiçoso nato. Levantei só quando as batidas voltaram depois de algum tempo sem resposta.

A casa guardava a bagunça de final de semana. Alguns poucos pratos na pia e a panela com resto de macarrão gelado no fogão. Era mais um começo de semana bem familiar naquele pequeno apartamento. Exceto pelo horário.

Abri a porta sem cerimônias. Não tinha aquele olho mágico para expiar o mundo exterior. Estava isolado na realidade própria do meu pequeno aposento. E parada no corredor cercado de portas enumeradas estava minha vizinha, com sua filha que beirava os 4 anos agarrada na barra da saia.

Ela queria saber se eu tinha algum problema com a minha luz. Parece que a energia andava caindo e voltando desde cedo. Que cedo?, me perguntava. Não soube responder, claro. Na verdade mal lembrava a última vez que desbravei a vida antes das 7. A filha me examinava como se eu fosse um ser estranho de outro planeta quando a mãe gentilmente se despediu.

Cruzei a casa de volta para a cama. Faltavam algumas horas para eu ter que sair para trabalhar e o sono ainda cobrava seu tempo desperdiçado. A semana mal começou e o peso das responsabilidades já pairava sobre mim. Cochilei por um tempinho — ou algumas horas, não sei — até barulhos voltarem a me assolar. Vinham da cozinha. Panelas e pratos pareciam ter ganhado vida e montado uma banda. Um misto de rock progressivo com batucadas de samba. Me revirei de um lado para o outro mas Morfeu e seus sonhos pareciam ter me abandonado e o travesseiro não aguentava mais tantas porradas. Restava levantar.

Caminhei mal abrindo os olhos até a sala que compartilhava sua área com a cozinha. Lá em pé, lavando minha louça estava minha mãe.

Bom dia. Não sabia que você vinha.

Sabia que ela tinha a chave mas não esperava uma visita na segunda de manhã.

Vim trazer comida pra você. E dar um jeito nessa tua louça.

Enfim, uma ótima notícia pela manhã. Retribui com um sorriso tosco de quem não sabia o que estava acontecendo. Era melhor deixar assim, ela lá com a louça e eu de volta ao conforto do meu leito ainda quentinho.

Seguindo meu rumo até o quarto vejo um pequeno serzinho atravessando o corredor até o banheiro. Como num sonho nonsense, acabo seguindo automaticamente meu coelho sem relógio. E logo na entrada me deparo com a filha da vizinha tentando se esconder no box sem muito sucesso.

O que cê tá fazendo aí, menina? Vem cá. Deixa eu te levar pra tua mãe.

A criança já não me encarava da mesma forma esquisita da manhã mas ainda guardava um certo receio naqueles olhos gigantes. Ela acabou aceitando minha oferta de resgate sem jeito me oferecendo sua mão. Saímos do banheiro e fomos até a entrada passando despercebidos por minha mãe ocupada na pia.

Bati na porta da vizinha umas três vezes e nada. Esperei um tempo e repeti o procedimento. Sem nenhum retorno. Tentei até buscar alguma solução com a criança mas ela não estava muito para conversas. Murmurava alguma canção infantil qualquer. Enfim desisti e resolvi ficar com ela até sua mãe voltar.

Na volta ao meu apartamento me encontro com minha mãe na sala catando algumas roupas espalhadas e, para minha surpresa, a da pequena também estava por lá buscando algo.

Ei! Tava te procurando. Achei tua fujona.

Ela agradeceu, pegou a menina no colo e voltou para sua casa sem dizer nenhuma palavra. Fria feito qualquer atuação meia boca de novela. Fiquei imóvel. Até alguns burburinhos me tirarem do transe. Minha mãe parecia conversar com alguém lá no meu quarto. Fui levado naquela direção seguindo a correnteza de acontecimentos sem sentidos e sem me dar conta que eu conhecia as duas vozes daquele diálogo. Era meu irmão. Estava sentado na cama enquanto ela dobrava algumas roupas. Falavam da minha casa e como tudo estava jogado e fora do lugar. Nem me notaram olhando da porta.

Peguei o celular que achava-se jogado no lençol tentando interromper-los. Marcava 9 horas quando eu podia jurar que eram umas 7 e pouco. Essa confusão toda ia acabar me atrasando. Era melhor ir para o trabalho logo e deixar minha casa nas mãos da visita inesperada da minha família.

Achei que o banho me colocaria de volta aos trilhos da realidade de uma segunda-feira comum mas me enganei. Fora do banheiro dei de cara com dois rapazes mexendo nos armários da minha cozinha e um casal sentado no sofá. A porta da casa estava aberta. Olhei para o quarto e só meu irmão ocupava o ambiente digitando qualquer coisa no celular.

Quem são eles?

Como vou saber? A casa é tua. Achei que eram teus amigos. A porta tava aberta e eles foram entrando. Parecem gente boa. Trouxeram algumas compras. E cervejas!

Compras? Como assim? Espera… Cadê a mãe?

Não tá pela sala? Ela tava ajudando eles com as compras.

Olhei ao redor e deixei meu irmão brincando com seu aparelho.

Será que ela saiu?, pensei. Deve ter ido embora. Fui tentar falar com o casal da sala mas acabei sendo interrompido por mais uma mulher entrando no apartamento com um aparelho tocando It’s the End of the World do R.E.M.. Mal tive tempo pra pensar no que cacete estava acontecendo quando notei que a filha da vizinha estava novamente na minha porta. E mais assustada.

Você de novo? Cadê tua mãe? — E a minha?, só pensei.

Sem respostas. Somente o par de olhos amedrontados se expressavam encarando “meus” visitantes.

Pensei em tentar confortá-la, mas a verdade era que eu também não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo naquela manhã de segunda. Terminei dizendo que tá tudo bem para nos tranquilizar.

Vem comigo que vou te levar pra casa.

Num déjà-vu instantâneo me vi repetindo a cena de hoje cedo. Batia novamente na porta ao lado da minha. Porém, dessa vez ela me surpreendeu abrindo rápido. Olhou sua filha com um espanto que foi logo substituído por um sorriso de ponta a ponta no rosto. A menininha entrou correndo e ela agradeceu com um “bom dia” sem graça. Ainda assim, foi até bem simpática quando fechou a porta na minha cara. Estava visivelmente aliviada. Nem parecia a mesma mãe que havia pego a filha na minha sala minutos antes. Meu relacionamento com a vizinhança pareceu ter melhorado bastante nessa manhã.

Era hora de voltar aos meus próprios problemas caseiros. Mas antes eu precisava avisar ao trabalho que me atrasaria. Afinal, mesmo não sendo uma barata kafkaniana, eu estava com um certo problema matutino me impedindo de sair. Feito um Gregor Samsa com Facebook e e-mail.

De volta ao apartamento vejo que minha sala está mais ocupada e outros visitantes transitam de um lado para o outro. Fazia tempo que eu não via aquele lugar tão cheio. Dormir e trabalhar era a ordem natural do dia a dia daquele apartamento. Daquela vida. Amigos e festas ficaram para trás com a minha falida ideia juventude invencível.

Eu cruzo o aposento que poderia facilmente ser confundido com o lounge de festa cult bacaninha até a janela. Uma garota com um cigarro recém aceso acena com a cabeça.

Oi. O que cês tão fazendo aqui?

Arrumando, responde após tragar.

Pra quê?

Curtir. Uma festinha.

Mesmo tentando disfarçar, solto uma breve risada. Ela continuou me encarando com seriedade e o cigarro pendurado no canto da boca.

Tá bom, tá bom. Mas quem são vocês?

Nesse ponto, um rapaz sentado com camisa amarela e cabelo milimetricamente repartido para esquerda levanta do sofá corta a conversa dizendo que minha casa é bem interessante. O que ele queria dizer com interessante, pensei.

Obrigado… eu acho. Mas sério, quem são vocês?

Eles se entreolharam mas nada de resposta. Insisti. O rapaz começou a ficar muito vermelho. Ele devia estar sem graça ou algo do gênero. Talvez ele não estivesse tão confortável na casa de um desconhecido como o resto dos seus amigos invasores. Parecia que ia explodir em seu desconforto. Eu ainda esperava alguma resposta fora o rubor excessivo quando uma fina camada de fumaça começou a sair pelo seu ouvido. Um apito agudo atraiu a atenção de todos. Seus olhos reviraram até bizarramente sumirem da órbita. Ele desligou.

Todos na sala nos olhavam. Rostos acusadores com um brilho vermelho na íris. A garota da janela continuava fumando sem interesse. Recuei. Um senhor de cabelos desgrenhados grisalhos quase azuis e pinta de diretor alternativo de agência publicitária — ou apenas mais um maluco qualquer — se aproximou e tocou a nuca do ser desanimado na minha frente. Seu rosto se abriu num entrelaçado de engrenagens e fios. O senhor só precisou de uns quatro ou cinco apertos no pescoço numa massagem excêntrica para trazer o desconhecido de volta à vida. Seu rosto se fechou e os convidados imprevistos voltaram a beber e conversar.

Corri sem jeito até o quarto atropelando aquele público indiferente. Meu irmão continuava lá. Bebendo uma latinha de cerveja e na mesma posição entretido a infinidade de assuntos irrelevantes das suas redes sociais online.

Cara, vamos dar o fora daqui! Tem algum lance muito bizarro acontecendo na sala.

Ele levantou os olhos do seu aparelho e me olhou incrédulo.

Tá de brincadeira? Eles são legais.

É sério. Robôs invadiram minha casa e eu ainda tenho que sair para trabalhar. Havia esquecido totalmente de avisá-los do meu — antes provável e agora já certo — atraso.

Calma, cara. Relaxa. Os robôs só querem se divertir. Você tá muito tenso. Deixa eles aproveitarem na boa e curtirem um som que eles vão embora.

E como você sabe disso?

Ele levantou com a paciência de um monge com a resposta do porquês da vida. Jogou o celular na cama e me pegou pelo ombro. Sem falar nada me levou de volta para a sala. Os robôs nem haviam se importado com minha saída abrupta e meu pânico.

Toma, disse e ofereceu sua latinha. Bebe um pouco e vamos curtir.

Bebi um gole e expirei todo o peso das minhas preocupações. Abri o primeiro botão da camisa impecavelmente alinhada para o trabalho. Um alívio sem explicação inundou minha cabeça. Não é que os robôs estavam mesmo se divertindo. Tocava Shiny Happy People quando decidi entrar na dança.

Acordei tranquilo na manhã seguinte. A casa encontrava-se limpa. Sem pressa nenhuma tomei um banho e sai para o trabalho em tempo. Afinal de contas, as contas continuariam vencendo no fim do mês e aquele era apenas mais um dia de semana como outro qualquer.

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