SORRISO SOLTO

Cuia, bomba, erva mate, água e gelo! E aí, vai um tereré?

O que para os sul-mato-grossenses (67’s), como eu, é uma bebida cotidiana típica, adotada na região muito por influência do Paraguai, país de fronteira. O tereré, para muitos brasileiros, é algo um tanto desconhecido, e isso eu pude observar ao falar da bebida nas cidades por onde passei em turnê com a banda.

Pois bem, servido na cuia com água bem gelada e ingerido através de uma bomba, seguindo princípio semelhante ao tradicional chimarrão gaúcho, o tereré, que surgiu inicialmente apenas como alternativa para refrescar e hidratar os trabalhadores rurais nos intensos calores sul-mato-grossenses, por ser tomado de forma compartilhada, em rodas de amigos, colegas de trabalho e etc, ganhou forte aspecto social e cultural, pois o hábito transcendeu a simples necessidade fisiológica de hidratar e refrescar o corpo, e se tornou o melhor motivo para se organizar um encontro da galera! Basta um “bora tomar um téras?” — apelido carinhoso do tereré — e pronto, a turma já tá reunida pra botar o papo em dia!

Mas aí você deve estar se perguntando: o que isso tem a ver com a música “Vem”?

Tudo! Explico.

Aconteceu com um amigo meu. É verdade! Não é mais uma daquelas estórias contadas à Laura Muller no Altas Horas!

Ele, menino risonho, há mais de um par de anos entregue ao enrosco dele, menina do sorriso solto, igualmente apaixonada, com tamanha sintonia que até desconfiavam.

Mas… nem tudo nessa vida é um mar de rosas, e por melhor que fosse o relacionamento dos risonhos, este não estava imune aos desgastes da vida a dois. É, realmente não é fácil! Começaram a rolar aquelas “tretinhas” de casal, sabe? E eles, infelizmente, não estavam um passo à frente disso tudo. Certo dia, sucumbiram. O sorriso solto se escondeu. Pediram um tempo, e o amor estremeceu. Pelo menos por um momento. Foram idas e vindas e a força desse amor estava entregue ao tempo, a quem caberia dizer se superaria a dor ou cairia no esquecimento.

Ah, e o tereré? Parceiro incansável do dia a dia quente dos Campo-grandenses, mediador silente das melhores histórias da turma, mais uma vez teve o seu dia de glória. Justamente num encontro despretensioso de amigos para um “téras” de final de tarde, que o risonho angustiado por toda a sua situação, depois de um gole bem gelado, abriu o seu coração e com ele todo um caminho para que sua história fosse musicada. Ali mesmo na beira da piscina de casa. Com o violão debaixo do braço, papel e caneta empunhada, em menos de meia hora, teve sua história eternizada!

O final dessa história eu prefiro nem dizer, e deixar pra imaginação se o sorriso solto da risonha fez par com o do risonho, até porque, não poderia eu dizer que a história teve um fim. Mas, se pudesse escolher, como bom canceriano, romântico e eterno apaixonado, e conhecendo tão bem os risonhos, arriscaria dizer que presenciei um encontro verdadeiro de sorrisos, daqueles que por mais açaí que se coma, ou jumbitos, permanecem iluminados, como se blindados pela melhor pasta kolynos.

ERIC VINICÍUS