O artista perfeito

Em uma crônica publicada no dia 06/08/1969 no Jornal do Brasil, intitulada “O artista perfeito”, Clarice Lispector trata do tema “perfeição” na Arte.

Partindo da opinião de Bergson a respeito do assunto, “arte” seria a libertação do utilitarismo, portanto, aquele que libertar não só um, mas todos os seus sentidos, do utilitarismo e do estreito estoque de soluções convencionais seria, então, um grande artista.

Esta seria uma hipótese possível, não obstante, invertendo esta lógica ela percebe que o segredo da arte como forma de expressão não está na negação do utilitarismo, como supõe Bergson. Ela corrobora seu raciocínio considerando que, hipoteticamente, uma criança criada tão livre quanto possível da influência do utilitarismo, tendo conservados os seus sentidos, alertas e puros, não por isto se tornaria um grande artista como poderia pressupor Bergson, cuja lógica diz que os sentidos livres do utilitarismo proporcionam uma percepção total e verdadeira da realidade. Ao querer se expressar artisticamente, a situação desta criança nos impõe uma primeira indagação: seria a sua arte um simples fruto de uma criação diferenciada que prezou por sua pureza frente ao utilitarismo da sociedade? Clarice acredita que não, para ela : “arte não é pureza, é purificação, arte não é liberdade, é libertação”.

Desta forma, a criança não se tornaria artista para expressar esta suposta realidade “livre e pura” que lhe foi apresentada durante toda a vida, até porque ela não é de fato livre, tendo em vista que esta realidade foi de certa forma imposta a ela em seu “processo de educação”, que por si só não é livre. A criança é considerada livre neste contexto apenas por apresentar-se como um contraste ao utilitarismo sobrepujante de nossa sociedade.

Concluindo, ela não iria apresentar uma arte livre do utilitarismo, mas sim, transformaria o utilitarismo em arte. Ela estaria a fazer arte se seguisse o caminho inverso ao dos que passaram “por essa impossível educação: ela unificaria as coisas do mundo não pelo seu lado de maravilhosa gratuidade, mas pelo seu lado de utilidade maravilhosa. Ela se libertaria. Se pintasse, é provável que chegasse à seguinte fórmula explicativa da natureza: pintaria um homem comendo o céu.” E completa dizendo: “nós, os utilitários, ainda conseguimos manter o céu fora de nosso alcance. Apensar de Chagall”.

Tendo se tornado homem-artista, essa criança apresentaria os mesmos “problemas fundamentais de alquimia” de qualquer artista. Porque o que diferencia a arte não é o ‘do que se livra’, mas a libertação em si; libertação esta que ocorre quando a necessidade de transformar sua subjetividade pujante em algo objetivo e real que possa ser compartilhado por todos se materializa em arte. Portanto, se um homem não sentisse enfim a necessidade de arte, “não teríamos um artista. Teríamos um inocente. E arte, imagino, não é inocência, é tornar-se inocente”.