O dia em que fiquei sem internet
Um breve relato sobre minha chocante estadia no território do mundo real.
por Augusto Assis
Pra começo de conversa, você precisa saber que eu trabalho com internet desde os 17 anos. Muito embora eu recusasse o título de “criador de conteúdo”, isso era exatamente o que eu fazia com meu blog de 116 seguidores — todos meus!
Depois, comecei a escrever para o Cabine Literária e gravar vídeos para o YouTube. Era o que faltava para eu entrar de vez nesse mundo da “rede mundial de computadores”. Hoje faz dois anos que dedico meu tempo integralmente ao trabalho na internet. Ô bicho moderno que sou! Moderno e viciado. Quando cheguei em casa no último final de semana e descobri que a internet simplesmente não estava funcionando, eu quase tive um treco.
Teve todo aquele drama de religar o roteador, tirar fio, encaixar fio, botar o fio em outras entradas, dar uma assopradinha — eu não entendo nada dessa parte, então fui fazendo qualquer coisa. Liguei para meu pai, que estava viajando, e avisei que tínhamos uma emergência seríssima. Minha saúde estava bem, obrigado, mas eu não prometia continuar assim se não conseguisse acessar.

O que me deu mais raiva foi o fato de que os pauzinhos do sinal estavam todos ali me tentando na tela do celular. Tentei um milhão de vezes e nada. Algumas horas depois, estirado na cama, encarando meu celular, cheguei a conclusão de que não ia ter internet mesmo.
A partir daí, eu notei que estava em casa, sozinho — ou na companhia do capiroto, porque né — os mercados estavam fechados e talvez não houvesse comida na geladeira, já que meu pai não estava em casa há dias.
Era hora de ser corajoso e ver o que o mundo lá fora poderia me oferecer.
Sorte da noite: havia comida. Uma porção de bolinhos com gotas de morango, granola, aveia, leite, chocolate e ovos. Deve haver alguma receita mesclando tudo isso (eu não tinha internet para procurar, felizmente).
Já alimentado o meu pensamento foi “Nossa, que dia horrível, vamos entrar no site da Folha e ver o horóscopo. Deve haver algo errado com os astros”. Sim, eu tenho problemas. Aí eu peguei todos os livros que eu estava lendo no momento e comecei a estudar.

Conclusão: li 30 páginas do Formação do Leitor Literário, dois capítulos inteiros de Viagens na Minha Terra, 3 crônicas do Histórias Curtas do Rubem Fonseca e resolvi 20 questões do meu Guia Enem. Isso certamente é mais do que eu tinha lido no mês até então. Fiquei completamente espantado. Sabe quando você se pergunta por que enrolei tanto tempo para fazer isso? Então, eu descobri o meu motivo.
Saibam que nem tudo foi flores. Durante todo o tempo eu fiquei checando meu celular para ver se tinham atualizações do Instagram, se alguém tinha mandado uma mensagem no WhatsApp ou se alguém me mencionou em algum comentário. Eu queria ver como estava indo o meu vídeo da semana no Cabine Literária. Enfim, tinha uma série de pequenas coisas que, agora ausentes, deixavam tempo para fazer coisas que realmente me interessavam. Era desesperador não ter atualizações.
Cansado de produzir, fui jogar meu novo joguinho favorito que não precisa de internet. Eu te amo, Dark Lands. Acabei estabelecendo metas de cristais para comparar novos aparatos para o bonequinho. Era tão agradável e familiar ver coisas acontecendo a partir da tela touchscreen, se movendo, mudando de cor. Um sonho!

Alcancei minha meta (o elmo novo do avatar) e fui ao meu quarto. Eu sabia que eu tinha ido lá por algum motivo, mas não conseguia me lembrar do que. Até que eu comecei a tremer de frio: eu tinha esquecido que eu queria colocar uma calça.
Durante a leitura que fiz, mesmo tendo sido produtiva, eu me distraía muito. Ficava encarando a janela ou o teto. Eu não estava entediado. Aqueles livros me interessavam muito. Teve uma vez em que eu percebi e estava na sala, não mais na cozinha, olhando pro nada. O que eu fui fazer ali?
Ao longo da noite fui percebendo que minha atenção não estava das melhores. Era difícil me concentrar.
Mesmo agora, escrevendo esse texto, eu já vi as atualizações do Twitter e do Facebook umas três vezes.
Voltando a história. Depois que coloquei uma calça eu olhei para o meu quarto e percebi a zona que estava. Com direito a copos no criado-mudo, roupas no chão, toalha em cima da cama etc. A maloca completa. Não que eu seja fanático por limpeza, mas fiquei me perguntando há quanto tempo eu não olhava em volta do lugar onde eu passo a maior parte do meu dia. Que tipo de relaxado eu tinha me tornado?
Fui assistir televisão e de novo percebi minha falha em concentração. De repente, eu tinha perdido o fio da meada, não sabia qual o assunto e eu estava fazendo só aquilo. Se eu estivesse no celular eu não perceberia. Acharia normal. Afinal minha atenção estaria em coisas “mais importantes”. Mas aquilo me incomodou de verdade.
Eu fiquei todas essas horas acordado pensando no que eu poderia fazer, já que não tinha internet. Falei sozinho quase o tempo todo. Eu adoro falar sozinho e fazia um tempão que eu não fazia isso, porque há dois anos eu estava sempre falando com alguém. O dia todo. Não importa sobre o quê.
Comecei a pensar no quanto a internet está intrínseca na minha vida e até que ponto isso é saudável. Não me entenda mal: não quero dizer que internet é um perigo e que você deveria se isolar numa montanha (ou, na sua própria casa só que sem Wi-Fi). A internet é ótima e uma ferramenta muito útil. É só que talvez nós estejamos dependentes demais da conexão.
Quer prova maior do que isso? Mesmo fazendo todas essas coisas — lendo, estudando, arrumando, comendo, assistindo, me trocando, usando o mixer de casa pela primeira vez — eu estava pensando no que estaria acontecendo por aqui e em como eu precisava contar para vocês da minha aventura fora desse nosso universo. Todas as fotos que eu tirei foram pensando em como eu poderia incrementar o meu post aqui no Medium.
Inclusive, faltou uma:

De resto, intercalei meu tempo entre ler e assistir algo. Comi bastante bolinho e decidi uma nova meta para o próximo ano: quero correr a maratona de São Paulo. Isso pode até parece avulso, mas eu jamais teria me interessado se não tivesse visto uma matéria a respeito.
Meu ponto é: numa noite eu percebi o quanto eu me sentia sozinho no mundo sem estar on-line. Pecebi que eu ultimamente tinha feito muito mais esforço para manter contato com os coleguinhas virtuais do que com minha família, por exemplo. Isso, sem contar na minha atenção que parece estar completamente zoada — mas talvez isso já seja uma coisa minha e não só resultado das minhas horas on-line.
O mundo virtual é onde eu trabalho e estudo e encontro pessoas que pensam como eu, mas talvez seja necessário saber dosar. Eu convido você, leitor, a fazer a experiência de um dia sem internet (eu sei o quanto soa como o fim do mundo) e ver se você chega a mesma conclusão que eu — ou algo melhor, porque pelo amor de deus que lição de vida mais clichê.
Como diz a Marcia Tiburi, tecnologia é muito bom enquanto você está fazendo uso dela. A partir do momento em que você vira escravo, cede todo seu tempo e energia, é a tecnologia que anda usando você.
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