A Nakba que permanece

Em 1948, o estabelecimento do Estado de Israel constituiu para os palestinos o que ficou conhecido como Nakba, ou seja, “a grande catástrofe” em árabe. Ocorre que inversamente ao que a narrativa oficial sionista declara, não foi um processo natural e de defesa dos judeus que corriam “perigo” de violência por parte dos povos árabes. Como Ilan Pappé descreve em “A limpeza étnica da Palestina”[i], o plano sionista de construção de um estado para os judeus foi concebido sob as propriedades de mais de 700 mil palestinos que tiveram em torno de 500 vilas destruídas e se tornaram refugiados ou deslocados internos.
Apesar da Nakba estar completando mais de 70 anos, esse fenômeno permanece invisível para a comunidade internacional, mas extremamente evidente para os palestinos. Ao visitar a Palestina, em janeiro de 2018, pude perceber através de algumas falas que na verdade a “catástrofe” dos palestinos é vivenciada todos os dias por meio da ocupação e da violência exercida pelas forças israelenses. A situação atual da população palestina, fornece elementos capazes de auxiliar na compreensão dos efeitos que esse evento trouxe para as famílias que precisaram fugir das suas casas por conta da perseguição das milícias sionistas. O estágio corrente de apartheid[ii]social é uma consequência direta da Nakba e é paralelo à situação vivenciada pelos sul-africanos durante 1948–1994. O caso da Jerusalém é elucidativo quanto a essa questão.
A cidade que em 1948 foi divida entre o controle da Jordânia (Jerusalém Oriental) e o controle de Israel (Jerusalém Ocidental), posterirormente foi anexada ao Estado de Israel, em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, violando diversas normas do direito internacional. Ao longo da ocupação da parte oriental, os palestinos passaram a sofrer diversos tipos de abusos. As diversas leis discriminatórias de Israel[iii]e a violência estatal são alguns dos instrumentos que têm sido utilizados para transferir as famílias palestinas de suas casas. O principal objetivo ao transferir as famílias palestinas de Jerusalém Oriental é de atingir o “equilíbrio demográfico, que para o Governo Israelense significa uma maioria de 70% de população judia e uma minoria de 30% de população palestina. Ao andar pela cidade percebem-se claramente algumas diferenças.
Enquanto os israelenses recebem forte apoio do governo para se estabelecerem nas terras de Jerusalém oriental, os palestinos sofrem com a falta de investimento e com a incapacidade financeira de se manterem no território ocupado. A segregação dos serviços públicos também é perceptível. Por mais que a população árabe de Jerusalém seja de em torno de 37%, os dados[iv]de 2013 demonstram que apenas 13% do orçamento do município é voltado para os bairros palestinos. Logo, como consequência da diferença no orçamento, em torno de 75%[v]da população palestina que vive na parte oriental da cidade encontra-se abaixo da linha da pobreza. Ademais, outra característica marcante das casas palestinas que permite que se perceba a situação de apartheid social são os reservatórios de água. Ao passo que os israelenses têm acesso intermitente a esse recurso natural, os palestinos possuem acesso limitado à água. Estima-se que apenas 64% das casas palestinas estejam ligadas aos tubos de água da municipalidade de Jerusalém, por isso as casas possuem reservatórios para que possam acumular água da chuva. Apesar de Israel se descrever como a “única democracia do Oriente Médio”, as políticas discriminatórias e o tratamento da população são flagrantes casos de racismo social e devem ser condenados pela comunidade internacional não apenas com discursos, mas com medidas efetivas.
Outra experiência que tive na Palestina, a qual considero importante para ilustrar os efeitos da Nakba para os palestinos, foi a visita à vila de Lifta. Situada nas redondezas de Jerusalém, Lifta abrigava aproximadamente três mil pessoas até 1948. No entanto, a limpeza étnica da vila por parte das forças israelenses durante a Nakba expulsou a população nativa que vivia a mais de dois mil anos naquela região. Ao conversar com um palestino cuja a família habitava Lifta antes de 1948, percebia-se o sofrimento de quem estava tão perto de suas terras e, inclusive, guardava as chaves da antiga casa, mas não possuía o direito de voltar para sua propriedade. Ao visitar o local, atualmente uma reserva natural, fica-se consternado pela falta de conhecimento histórico e da alienação dos israelenses que frequentam o local. Claramente, o cenário de casas antigas inabitadas não incomodava os visitantes. Por outro lado, a intenção do Governo israelense é perceptível. Através do fenômeno que ficou conhecido como “greenwashing”, busca-se transformar em reservas naturais as terras que anteriormente pertenciam às famílias palestinas. O objetivo de transmitir uma imagem “eco-friendly” por parte do Governo Israelense, no entanto, está erigido sob a limpeza étnica dos palestinos.
Conhecer a Palestina foi importante também por outros fatores. Me permitiu compreender melhor a forma como os assentamentos podem violentar a rotina dos palestinos. Em Hebrom, por exemplo, ouvi histórias de como os colonos que habitam o segundo andar de apartamentos jogam seus excrementos nas lojas dos comerciantes palestinos no centro da cidade. Da mesma forma, pude ver como alguns personagens são capazes de mudar completamente a história. Foi o caso do General responsável pela limpeza étnica em Nazaré, durante a Nakba. Ele se recusara a exterminar a população, não por empatia, mas por medo de ser julgado por crimes de guerra. Fato que faz com que, atualmente, Nazaré permaneça como a cidade israelense com o maior número de palestinos. No Deserto do Negev, por sua vez, ao conversar com as populações beduínas, ouvi um ancião dizer que o tamanho da vontade do Governo Israelense de expulsar as famílias de suas casas era tanto que: “tive que reconstruir 124 vezes minha casa após ter sido destruída pelas forças israelenses”.
Por fim, foram inúmeras experiências e passar 1 mês na Palestina me marcou de diversas formas. Com certeza saí mais cético sobre o futuro e com menos certezas do que incertezas. No entanto, ficou claro que o povo palestino, além de muito forte, tem muita vontade de viver. Saio mais do que nunca com medo do futuro, mas com uma certeza.
Quero voltar, pois ainda tenho muito a aprender com essas pessoas.
[i]PAPPÉ, Ilan. A limpeza étnica da Palestina. São Paulo: Sundermann, 2014.
[ii]FALK, Richard; TILLEY, Virginia. Israeli Practices towards the Palestinian People and the Question of Apartheid. 2017. Disponível em: https://www.middleeastmonitor.com/wp-content/uploads/downloads/201703_UN_ESCWA-israeli-practices-palestinian-people-apartheid-occupation-english.pdf. Acesso em 28 jan. 2018.
[iii]Lei do retorno (1950); Lei da propriedade absentista (1950); Lei de cidadania de Israel (1952);
[iv]Peace Now. Israeli settlements in 2017. Disponível em: http://peacenow.org.il/wp-content/uploads/2017/05/settlements-map-EN-2017.pdf. Acesso 28 jan. 2018.
[v]Association for Civil Rights in Israel. East Jerusalem 2015: facts and figures. Disponível em: https://www.acri.org.il/en/wp-content/uploads/2015/05/EJ-Facts-and-Figures-2015.pdf. Acesso em 28 jan. 2018.