A Palestina resiste no campo de Dheisheh

Augusto Colório
Sep 7, 2018 · 5 min read
Foto tirada no Campo de Refugiados de Dheisheh em 06/01/2018

As visitas ao Campo de Refugiados de Dheisheh ao sul de Bethlehem na Cisjordânia, em janeiro de 2018, logo após ter completado todos os requisitos da Graduação em Relações Internacionais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, ocorreram em um momento em que parecia haver pouca esperança para os palestinos e para o mundo. A experiência me permitiu conhecer aquilo que eu só havia visto em livros. Pude comprovar o que já havia estudado de cinismo e hipocrisia da comunidade internacional — e que em tempos de “Trumps” e “Netanyahus” são ainda piores — para com os palestinos, que há mais de 70 anos foram expulsos de suas antigas propriedades e tem sido sistematicamente violentados em sua própria terra. No entanto, a oportunidade de conhecer os territórios palestinos ocupados me marcou, também, ao permitir que eu desconstruísse diversos conceitos e pudesse conhecer a capacidade dos palestinos de superar a violência irrestrita e o ambiente destrutivo ao qual estão inseridos.

A primeira visita ao Campo de Dheisheh foi recheada de surpresas — em primeiro momento, nem mesmo sabia que o local se tratava de um Campo de refugiados. Porém, logo no início, em que nos encaminhávamos para conversar com o representante da ONG palestina BADIL Resource Center, em conjunto com o grupo do programa educacional que eu participava, pude perceber quase instantaneamente que havia algo errado em minha percepção sobre o local em que me situava. A partir de então, no momento em que nosso palestrante começou a descrever o local onde estávamos, meu “tapete foi puxado” pela primeira vez, das muitas que ainda seriam naquela viagem.

O Campo que foi construído como uma medida emergencial, em 1949, para mais de 3.000 refugiados palestinos de 45 vilas diferentes que fugiam da limpeza étnica[i]dos judeus sionistas durante a Nakba[ii]que havia iniciado em dezembro de 1947, tornara-se uma cidade que abrigava mais de 15.000 pessoas[iii]. Logo, as tendas e instalações provisórias, deram lugar a prédios e construções de concreto que ajudam a representar a longa espera dessas famílias de retornarem aos seus antigos lares. Apesar dos refugiados palestinos de Dheisheh se encontrarem nessa situação há muito tempo, é notável que o sentimento de pertencimento ainda está vinculado à vida de seus antepassados que viviam em outras cidades da Palestina histórica.

A fala do nosso palestrante abordou o sentimento da população refugiada que vive em um ambiente de extrema repressão militar e de contínua violação dos direitos humanos perante os olhos negligentes da comunidade internacional: um povo que não deixa de resistir, seja lutando ou apenas existindo. Da mesma forma, é possível constatar o sofrimento de todas as memórias que são constantemente apagadas pela narrativa da colonização israelense, seja pela inviabilização do direito de retorno dos refugiados aos seus antigos lares, seja pela própria “judaização” da sociedade, dos costumes, dos hábitos.

Ao caminhar pelas ruas estreitas de Dheisheh, pode-se verificar diversos cartazes com fotos de jovens que podem ter sido presos ou que foram assassinados pelo exército de Israel durante a ocupação. Tratados como mártires por suas comunidades, os jovens de Dheisheh assim como todos palestinos que vivem na “Terra Santa” correm constante perigo de violação de seus direitos fundamentais por parte das forças de Israel. São submetidos a diversos tipos de abusos, desde assédio moral, até medidas mais extremas, como o caso da campanha deliberada chamada de “atirar para aleijar”[iv], onde os jovens vêm sendo atingidos propositalmente nos joelhos para que, dentre outras coisas, não possam ser capazes de ajudar no sustento de suas famílias e não retornem a protestar. Ainda acerca das atrocidades cometidas pela IDF (Israel Defence Force), fomos apresentados também ao caso do homem que foi esmagado por um carro das forças israelenses durante um protesto e a sua família teve de ressarcir os danos causados ao veículo dos agressores israelenses.[v]. Ao violar diversas normas do direito internacional, as forças israelenses permanecem protegidas pela incessante “Guerra ao Terror” que as absolvem de todos os abusos cometidos aos palestinos. É nesse ambiente que estão inseridas diversas famílias refugiadas do Campo de Dheisheh, estas que vivem amedrontadas de que no próximo episódio de agressão seja com seus pais, mães, filhos, filhas, amigos ou conhecidos, passíveis de serem violentados ou mortos pelas forças de ocupação.

Entretando, apesar da luta diária de resistência, o Campo de refugiados de Dheisheh me ensinou muito e, dessa forma, penso ter muito a ensinar ensinar para o Brasil e para a comunidade internacional. Nas conversas com os palestinos, ouve-se que os povos latino-americanos, assim como eles, “fazem parte da mesma luta” contra o imperialismo e todos os novos modelos de colonização. Eles afirmam que devemos “unir forças” para combater qualquer forma de racismo e apartheidsocial. Cabe lembrar, também, que os palestinos e a população brasileira marginalizada são atingidos pelo mesmo sistema de repressão, e.g., os laços das empresas de segurança, de armamento e das indústrias bélicas dos dois países que são estreitos[vi]. Ouve-se também que: “não encontraremos nenhum mendigo ou morador de rua nas cidades palestinas devido ao tecido social e a solidariedade do povo palestino”. Mensagem essa que julgo também ser extremamente útil para combater a situação de extrema desigualdade e pobreza que se alastra no Brasil e no mundo em decorrência da lógica de acumulação desenfreada presente no capitalismo do Sistema Internacional.

Apesar do sentimento de desespero que a situação dos palestinos pode provocar, pode-se ver a vontade de viver presente em cada um deles, a qual serve como motor para combater a ocupação. E, nesse sentido, a forma como o nosso palestrante se despediu do nosso grupo é capaz de exemplificar o sentimento dessas pessoas. Nas palavras dele: “meu avô morou aqui, meu pai morou aqui e eu não vou morrer aqui”. O sentimento de que a palestina vive e resiste ficou ainda mais forte.

E assim, mais uma vez a Palestina “puxou o meu tapete”.


[i]PAPPÉ, Ilan. A limpeza étnica da Palestina. São Paulo: Sundermann, 2014.

[ii]Palavra que em árabe significa catástrofe. Utilizada em referência ao período de 1948 em que os palestinos foram expulsos de suas casas pelas milícias sionistas.

[iii]Disponível em: https://www.unrwa.org/where-we-work/west-bank/dheisheh-camp. Acesso 23 de jan. 2018.

[iv]Disponível em: http://www.middleeasteye.net/news/campaign-crutches-palestinian-youth-say-israeli-forces-are-targeting-their-knees-1844468281. Acesso 23 de jan. 2018.

[v]Disponível em: http://imemc.org/article/israel-demands-compensation-from-family-of-palestinian-crushed-to-death-under-army-jeep/. Acesso 23 de jan. 2018.

[vi]Para mais, ver documentário “The Lab”. Disponível em: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/29695/documentario+retrata+territorios+palestinos+como+laboratorio+para+industria+belica+de+israel.shtml. Acesso em 24 de jan. 2018.

Mestrando em Conflito e Segurança Internacional pela Kent University de Bruxelas e apaixonado por Relações Internacionais.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade