
Esse texto foi elaborado como um trabalho para a cadeira de Comunicação, Cidadania e Multiculturalismo. Reproduzo aqui para que possa estimular o debate quanto a interferência das novas tecnologias nas sociedades contemporâneas e no atual sistema internacional. Vamos ao texto.
“ O escândalo gerado, em 2013, quando o analista de sistemas da agência de governo norte-americana NSA, Edward Snowden, vazou documentos e informações sobre as atividades da organização gerou implicações mundiais. A comunidade internacional foi surpreendida pela extensão da vigilância empregada não só pelos EUA, mas também por outros governos. Segundo Snowden, dentre as práticas realizadas a principal atividade era a espionagem com grampos telefônicos e vigilância de atividades online, sem autorização judicial, por meio do apoio das empresas de telefonia e comunicação. Apesar da ampla gama de assuntos que este evento suscitou, gostaria de destacar dois problemas que entendo serem centrais. O primeiro é a possível criminalização dos movimentos sociais, a partir da vigilância ilegal e ostensiva dos governos. E a segunda, é a utilização da vigilância digital como instrumento de poder para controlar e impedir o desenvolvimento de outros estados no Sistema Internacional.
Quanto a criminalização dos movimentos sociais, esse aspecto pode ser entendido, a partir da capacidade que as agências têm adquirido de armazenar dados e coletá-los de forma ilegal, independente de quem seja. Não é à toa que esse anseio de controlar a população por parte do estado, tenha relembrado antigos romances distópicos como 1984 de George Orwell, onde as pessoas estavam submetidas a um estado totalitário capaz de vigiar todas as atividades de sua população. É interessante também destacar que as acusações de Snowden são violações claras de direitos adquiridos ao longo dos anos por parte da sociedade civil e dos movimentos sociais em defesa da liberdade e da privacidade. Por esses aspectos que assustam essa vigilância exacerbada e sem controle. Pois, além de utilizar esses meios para criminalizar os movimentos sociais, essa vigilância pode nos colocar em uma situação de ainda mais vulnerabilidade perante o estado e de constante insegurança.
O segundo aspecto que acho importante deste caso é o da vigilância como instrumento de poder por parte dos estados a fim de obterem vantagens estratégica sob outros. Como o caso Snowden e os vazamentos do Wikileaks nos permitiram conhecer, as agencias de vigilância de EUA e Reino Unido estavam em constante vigilância de líderes e setores estratégicos das economias de outros países. Pode-se citar o caso dos leilões do Pré-sal que ocorriam no Brasil e estavam sendo vigiados de perto pelo Pentágono, além da própria presidenta Dilma que foi alvo das atividades da NSA. Esse aspecto é importante pois demonstra, não só a capacidade de uso dessas atividades para obtenção de vantagens por parte dos estados, mas também da necessidade das nações (principalmente as periféricas) cooperarem para se protegerem e limitarem esse tipo de conduta. Caso contrário estarão reféns de interesses estrangeiros, bem como continuarão com seus status de subalternidade e dependência no complexo sistema internacional.
Por fim, cabe destacar que a nova revolução tecnológica ainda terá consequências imprevisíveis para os países e seus cidadãos. Parece que o caso Snowden é o primeiro a chocar a comunidade internacional quanto a complexidade dos temas e desafios que a tecnologia pode trazer. Logo, devemos estar preparados como sociedade civil organizada e através dos movimentos sociais para vigiar a conduta dos estados e para cobrar as lideranças políticas quanto a privacidade e o uso correto da vigilância.”
Fontes complementares:
E os longas:
Citizenfour e Snowden: Herói ou vilão.