A morte é parar de criar

Quem luta pela sobrevivência o dia todo, não tem condições de criar (ou seja, abrir novos caminhos). No máximo vai tentar se divertir com o tempo que sobra (assistindo TV ou Netflix, passeando com a família nos finais de semana ou namorando — quando dá — nas altas horas: mas, em geral, não consegue nem ler um livro).

E o tempo vai passando… E quem continua lutando pela sobrevivência o dia todo, espera conseguir no futuro melhores condições para lutar menos e poder se dedicar mais a fazer as coisas de que realmente gosta.

Mas o problema é o seguinte: quem luta pela sobrevivência o dia todo não cria condições para deixar de lutar pela sobrevivência o dia todo, pois não consegue configurar aqueles ambientes que lhe permitiriam conhecer novas pessoas com desejos congruentes aos seus e, assim, fazendo novas conexões para fora do cluster onde está aprisionada, encontrar novos atalhos para outros clusters, ou seja, abrir novos caminhos.

Então, a pessoa nessa situação repisa os caminhos que, mal ou bem, lhe permitiram, até hoje, pagar as contas e continuar sobrevivendo. Mas esse repisar os mesmos caminhos a aprisiona ainda mais no cluster onde está, caracterizado pela escassez de caminhos.

Mesmo assim ela continua, pois não vê saída: antes ganhar uns trocados do que não ganhar nada e se arruinar de vez. Essa dinâmica vai se reproduzindo até ao ponto em que as condições físicas e psíquicas da pessoa são capazes de suportar.

E na velhice, a pessoa que viveu todo o tempo assim, lutando para sobreviver, desistirá de procurar novos caminhos (sim, a velhice — ou a morte — é isto: parar de criar).

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