Por que é tão difícil mudar?

Todo mundo acha que é difícil mudar. Quem já fez regime para emagrecer, sabe disso. Quem tentou parar de fumar ou de beber ou de comer carne, também sabe disso. Quem tentou aprender um novo idioma depois da primeira infância, idem. Às vezes, quem tentou ter uma vida diferente, acordar mais cedo, sair para caminhar em vez de sentar no computador, trocar o café por chá verde, dormir sem televisão ou netflix ou mesmo ler um livro até o final, idem-idem. O que não dirão os que tentaram ver o mundo de modo diferente e ter um comportamento compatível com essa nova visão? Ou os que tentaram seguir os conselhos daquele poema “Instantes” (que não é de Jorge Luis Borges e sim de Nadine Stair), sobre não se preocupar tanto, que começa assim:

“Se eu pudesse novamente viver a minha vida,

na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser tão perfeito,

relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido…”

Várias vezes abordei esse tema. A última foi num pequeno texto, publicado aqui no Facebook e reproduzido no Medium em 6 de setembro de 2016, intitulado Por que você pensa como pensa.

Concluí o referido texto dizendo que uma pessoa não muda seu pensamento porque não muda seu comportamento, que clona determinadas configurações, mais antropológicas do que sociológicas, que tendem a se conservar.

Ou seja, é difícil mudar a forma como pensamos porque é difícil mudar a forma como nos comportamos (sim, é o contrário do que se pensa, hehe). Mas a forma como nos comportamos não depende das escolhas racionais que individualmente fazemos e sim da pessoa que somos (incluindo nosso emaranhado de relacionamentos, que gera pegajosidades antropológicas). Assim, a única maneira de mudar (de comportamento e, então, de pensamento) é mudando a configuração desse emaranhado.

É difícil, sim, persistir num regime para emagrecer se as pessoas que se relacionam com você não estiverem fazendo o mesmo regime. É difícil aprender inglês, se você não foi transferido para Oxford e tem que se virar de qualquer jeito. E se os jornalistas não conversassem tanto entre si, os noticiários e as análises seriam menos pasteurizados.

Assim, se uma pessoa quer mudar, tem que deixar água nova entrar na sua vida. Ou seja, tem que viver em outros ambientes sociais. E se quiser experimentar um ritmo constante de mudança, tem que navegar pelos interworlds, pulando de ilha em ilha, acompanhando a vida nômade das coisas.

Isso, todavia, não é tão difícil quanto parece a alguém que fica parado. A convivência social é um fluxo interativo, não uma estrutura rígida. Basta ficar ao léu. Difícil não é mudar e sim manter. Manter um status em vez de se abandonar a um processo é uma operação intensiva em energia. Ficar parado em um mundo em contínua mudança exige um sobre-esforço de construir diques, dinamitar pontes, erigir casamatas, lançar âncoras cada vez mais pesadas, se acorrentar em rochedos…

Sim, ficar imune à rede (quer dizer, ao fluxo interativo da convivência social) dá um trabalho danado. Esse é o trabalho, por exemplo, de quem constrói castelos com fossos, muros, escadas, portas, fechaduras. É o trabalho que dá para montar organizações hierárquicas com paredes opacas, protegidas das influências do mundo exterior, “tapando com cimento, como fazem as térmites, todas as saídas para a luz”, para citar uma magnífica passagem de Saint-Exupéry (1939) em Terra dos Homens.

Só há um conselho para quem quer mudar: mude a sua egonet. Se a configuração de relacionamentos composta por seus amigos, pelos amigos dos seus amigos e pelos amigos dos amigos dos seus amigos, mudar, a fórmula é infalível. Porque você será outra pessoa.

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