CRÍTICA: O nome da morte (2018)

Direção: Henrique Goldman / Elenco: Marco Pigossi, Fabíula Nascimento, André Mattos, Augusto Madeira, Matheus Nachtergaele, Tony Tornado, Martha Nowill / Roteiro: George Moura / Montagem: Lívia Serpa / Direção de Fotografia: Azul Serra / Direção de Arte: Tiago Marques / Trilha Sonora: Brian Eno / Produção: TV Zero, Globo Filmes / Distribuição: Imagem Filmes / Produção Executiva: Rodrigo Letier/ Produção Final:Anna Julia Werneck

Quanto vale a vida? Bom, para os personagens de “O nome da morte” esse valor é negociável.

Inspirado em uma história real, o filme é sobre Júlio Santana( Marco Pigossi) um assassino profissional, que realizou 492 homicídios, mas aos olhos da sociedade era um pai e marido amoroso, que trabalhava na polícia, além de um religioso devoto, típico “cidadão de bem”.

O filme abre com uma bela sequência sem cortes, onde o matador se vê encurralado e tendo que improvisar para escapar ileso de uma multidão que o persegue. A cena corta e vemos a vida pacata de um Júlio Santana, ainda moço, anos antes, em uma região afastada dos grandes centros, onde mora em um humilde sítio com seus pais e seus irmãos. A família recebe a visita de Cícero, seu tio, que a pedido do irmão, leva o sobrinho para a cidade a fim de torná-lo um policial, porém o sujeito é um assassino profissional e graças a ele, Júlio, também se tornará um.

Cícero, ora mostra-se um parente afetuoso, ora um homem extremamente cínico, que não se abala diante dos assassinatos que comete, conseguindo inclusive extrair humor da situação. Apesar de repetir alguns maneirismos de outras interpretações (tal qual o apresentador fanfarrão que interpreta em tropa de elite 2) André Mattos encontra-se muito à vontade no personagem, desempenhando um bom papel. De inicio, quem não aparenta estar muito à vontade é o protagonista, Marco Pigossi interpretando, no começo da trama, um personagem claramente mais jovem, pesa a mão em certos trejeitos em busca de trazer uma certa imaturidade para o jovem Júlio, a maquiagem tenta, com espinhas falsas, contribuir para a juventude do personagem mas acaba por deixar a caracterização ainda mais caricata, a um estranhamento semelhante (porém, em menor escala) quando a personagem de Fabíula Nascimento, Maria (companheira amorosa de Júlio), aparece no filme, felizmente a trama cobre vários anos da vida dos personagens e o estranhamento inicial, não demora a passar, á medida que os personagens envelhecem e passam de um casal sonhador, vislumbrando sua futura casa a pais, tendo que lidar com situações cotidianas, como o fato do filho ter pegado o brinquedo de outro colega e ter mentido sobre isso.

Porém, quem mente de fato é Júlio,que esconde de sua mulher a real fonte de renda da casa.

Apesar de inúmeros crimes, Sem nunca deixar de sentir culpa, enfatizada em diversas cenas como: Quando ainda jovem, mata a primeira vez e cai em prantos ou quando está em uma churrascaria,com o tio, que come sem apresentar o menor traço de culpa por ter matado um homem a pouco tempo, Júlio não compartilha da mesma frieza, nessa cena, a câmera aproxima-se de seu rosto enquanto aos poucos o som ambiente desaparece, deixando espaço para um ruído incômodo, assim o personagem encontra-se sozinho com seus demônios internos.

Esse é apenas um exemplo de como o som é usado para representar o incômodo dentro da mente do matador, assim como a fotografia, que com bastante planos abertos, aproveita muito bem a beleza natural das locações e confere ao filme belas composições (como a curta cena em que um boiadeiro é morto em meio a sua boiada) também contribui para a psique do personagem, por exemplo, há uma cena onde Júlio está sozinho em casa, no escuro, apenas seu rosto está iluminado, eis que sua mulher e filho chegam e abrem a porta, deixando o ambiente com um pouco mais de luz, salvando-o momentaneamente de seus próprios pensamentos, porém lembrando-o porque os têm. A religião também serve como um lembrete de seus pecados, crucifixos estão presentes durante todo o filme, além dos pesadelos do personagem.

A trama alcança a cena inicial, o clímax do filme e o que parecia ser uma decisão acertada no início( começar com uma cena de ação para despertar o interesse do público e depois contar a história até ali) acaba mostrando-se como uma armadilha, já que todo um arco para a personagem Maria é desenvolvido a partir daquele ponto, mas o filme ainda tem que continuar a história de Julio, tudo no terceiro ato, quebrando o ritmo que havia sido estabelecido, além disso a indecisão do roteiro, acerca do tom do filme o prejudica, em um momento estamos vendo um drama de homem que é levado a cometer crimes por influência de sua família, tal qual a trilogia “O Poderoso Chefão”( aqui a comparação mais do que válida já que há referências à trilogia no filme, por exemplo, quando ao executar alguém, o assassino enrola uma toalha na arma, a fim de abafar o som do tiro, muito semelhante a Vito Corleone, interpretado por Robert de Niro no segundo filme da trilogia), em outro momento, estamos vendo um filme que flerta com uma comédia de erros com humor negro, remetendo à alguns filmes dos irmãos Coen (Fargo, é um exemplo), no fim acaba não alcançando nem um dos dois.

A montagem também se mostra problemática em alguns momentos, deixando algumas cenas um pouco mais longas do que eram necessárias, como no primeiro trabalho de Julio como pistoleiro, quando, descendo do ônibus, encontra-se com um rapaz que apontará seu alvo, os dois caminham até o local, a cena é extensa, gerando expectativa no público, apenas para revelar quem o personagem tem que matar, um homem que até então não havia aparecido, o que não gera nenhuma surpresa no espectador, todo o tempo dedicado a essa sequência, poderia ser melhor empregado na antecipação do próprio assassinato.

“O nome da morte” apresenta questões interessantes como: Por quanto, estaria disposto a se corromper? O que estaria disposto a fazer para sair de uma situação difícil? Dá para confiar naqueles que deveriam estar nos protegendo? E a já citada, quanto vale a vida?

Porém a quebra no ritmo e a indecisão sobre qual tom o filme deve seguir (sobretudo no terceiro ato), acabam por, com o perdão do trocadilho, matar as boas idéias.

Estréia prevista para dia 2 de agosto.