Crime perfeito de um criminoso nem tanto

O homem oferecia a possibilidade única de realizar o desejo de matar alguém sem o risco de ser preso.

Silva não chegava a ser um almofadinha, mas se vestia bem e era muito educado. Era um homem de meia-idade, não era obeso, mas era gordo o bastante para usar um suspensório. Chegou ao escritório de Rubens indicado por um conhecido, que, estranhamente, apenas pedira que o ouvisse. Agora, estava ali, entre sorrisos, vendendo seus serviços. Oferecia a possibilidade única de realizar o desejo de matar alguém sem o risco de ser punido por isso.

— Por que o espanto, meu nobre amigo? — Falou Silva, sem se intimidar com a expressão de Rubens. — O senhor não vai me dizer que nunca sentiu desejo de matar? A mulher, um concorrente nos negócios, um ex-sócio… Ou mesmo pelo simples desejo de matar, pela mera curiosidade humana de saber como seria.

Por mais absurdo que esse diálogo parecesse para Rubens, o visitante o conduzia de uma forma muito natural, como se estivesse vendendo qualquer outro produto.

— Mas ninguém pode sair por aí matando qualquer pessoa — respondeu bruscamente o empresário.

— Claro que não, meu amigo. Não somos insanos a tal ponto. Estamos falando de um serviço profissional, limpo, sem risco, sem qualquer possibilidade de punição. Posso dizer, sem falsa modéstia, que oferecemos aos nossos clientes o crime perfeito.

— Mas não existe crime perfeito…

— Isso é o que se fala. Mas eu lhe garanto que existe sim. Se o não conhecemos, é porque ele é simplesmente perfeito.

Mais curioso do que interessado, Rubens perguntou como seria o serviço. Foi informado que, por uma pequena fortuna, os associados do Silva se comprometeriam a levá-lo a um país estrangeiro, sem acordo de extradição, e lá lhe forneceriam as condições necessárias para a eliminação de uma pessoa qualquer. Um ser humano escolhido a esmo na rua. Um crime sem motivo, sem ligações e sem pistas.

— O tipo de crime que deixa as autoridades, principalmente de outro país, sem muito o que fazer — enfatizou Silva com um ar de certa satisfação.

O cliente, como Silva explicou solenemente, fica no local escolhido para o serviço apenas o tempo necessário para desembarcar no aeroporto, ser levado até um ponto movimentado, atirar num infeliz qualquer e ser trazido rapidamente para casa. Voltaria são e salvo, com sua segurança, integridade física e futuro garantidos.

Enquanto ouvia os detalhes da operação, Rubens pensou que o plano não era de todo mal. Lembrou ainda que pessoas morrem todos os dias em subúrbios violentos, dominados por traficantes, como nas periferias pobres das grandes metrópoles, principalmente no Terceiro Mundo, onde os crimes, em sua maioria sem solução, são atribuídos à guerra de gangues.

— Tudo bem, eu até acredito na eficiência dos seus serviços, mas, como eu disse, não se pode sair matando por aí.

Silva sorriu internamente ao ouvir o empresário usar o mesmo argumento duas vezes. Sabia que a repetição é uma demonstração de fraqueza.


Não lembrava muito bem o rosto do homem caído no chão. Lembrava-se dos tiros, da fuga desesperada para o aeroporto.

As duas horas de espera para o voo de volta foram uma eternidade. Por segurança, passara a maior parte do tempo dentro de um carro próximo ao aeroporto, não o veículo da fuga, mas outro que fora trocado no meio do caminho. Tentou se mostrar calmo enquanto a moça da companhia aérea conferia seu bilhete antes do embarque na aeronave.

Dentro do avião, Rubens se sentiu mais seguro. Dissolvia lentamente uma dose de uísque enquanto tentava organizar as últimas horas na cabeça. Seu desembarque na cidade, o encontro com os associados do Silva, que, hipoteticamente, garantiriam a sua segurança a qualquer custo, com a própria vida, se necessário.

A parte mais difícil não foi o tiro ou escolher a vítima, apontada na rua movimentada por um dos acompanhantes. Os tiros, abafados por um silenciador, saíram quase que automaticamente, embora suas mãos suassem por causa do nervosismo. Foram dois tiros, para garantir o serviço, como o alertaram antes de lhe entregarem a arma. A vítima vinha em sua direção, mas nem vira a pistola ser disparada da altura da cintura. Caíra sem ter tempo para entender o que tinha acontecido.

O difícil mesmo foi a fuga, o medo de ser pego, ir para cadeia. Foi a pressa de sair dali, não qualquer tipo de constrangimento, que não o deixara olhar melhor o rosto da vítima, que aparentava ser jovem. Imaginou o corpo no chão, populares curiosos ao redor e a polícia perdida, tentando descobrir o assassino improvável. Soltou um sorriso de satisfação… de poder.


Jofre, como sempre, estava alegre, contando piadas e falando pornografia entre uma dose e outra. As mulheres estavam na piscina da cobertura enquanto os dois conversavam numa mesa próxima.

Por duas vezes, Rubens tentou falar sobre a viagem ao exterior, mas não conseguira encontrar coragem. As imagens do homem caído, da fuga e do avião ainda povoavam sua mente.

— Jofre, você já teve curiosidade de saber como é matar alguém?

— Já. Inclusive já pensei até em matar algumas pessoas. Eu não tenho é coragem.

— Mas, se você soubesse que não seria preso, você mataria?

— Acho que não. Não nasci para isso.

— Será? Eu acho que todos nós, de certa forma, seríamos capazes.

— Se tivesse essa coragem, dona Odete não estaria mais aqui… Eu acho que, se Deus criou a mulher, o Diabo deve ter criado a sogra.

— Você está brincando. Mas se eu disser para você que essa é uma possibilidade real… Um amigo me garantiu que existe um serviço que proporciona esse tipo de oportunidade.

— Que oportunidade?

— Matar alguém sem ser preso.

— Deixa de conversa.

Rubens começou a falar a história que o tal amigo lhe contou. Falou da viagem, do suporte no exterior e da fuga. Como Jofre continuava fazendo pouco caso, irritado, terminou admitindo que não ouvira de ninguém e que fora ele mesmo quem viajou para matar o desconhecido.

— Você está brincando… Você não faria isso.

— Brincando? Lembra que lhe contei que ia fazer uma viagem na terça-feira? Pois é, foi para isso.

— Tá bom. Eu acredito… Agora, vamos mudar de assunto que esse papo está meio macabro.

Rubens não gostou da descrença de Jofre, embora tivesse mudado de assunto, como ele pedira. Por alguma razão, que não entendia bem, queria que o amigo soubesse. Sabia que estava se arriscando, que ninguém sai por aí contando que matou alguém.

Não queria ser preso. Sem falar que tinha sua empresa, a família e sua imagem, e tudo poderia vir abaixo. Mas, mesmo assim, sentia uma vontade quase incontrolável de contar o que fizera, falar do homem caído no chão, da sensação de poder, da adrenalina da fuga…

No dia seguinte, no escritório, a secretária avisou que dois policiais estavam na recepção querendo falar com ele. Surpreso, pediu um tempo antes de os homens entrarem. Mesmo assustado, não deixou de sentir um certo contentamento ao imaginar que talvez o amigo, ao contrário do que fizera parecer, tenha realmente acreditado na sua história.