Um ano em 100 dias

Augusto Gowert
Aug 19 · 7 min read

No início de 2019, identifiquei que, até então, havia atingido tudo o que almejava. Seja em questões de autoconhecimento, de conquistas materiais ou de realizações profissionais. Vi-me confortável em um ambiente de trabalho leve, cheio de gente inspiradora, no cargo profissional perfeito. Graduado em uma instituição de ensino superior pública, mesclado com um intercâmbio oportunizado pelo programa Ciência sem Fronteiras. Em situações de moradia confortáveis — na casa de familiares — em uma vizinhança bastante convidativa. Meu corpo encontrava-se em condições físicas as quais nunca imaginei alcançar — resultados obtidos através de alguns meses de treino funcional. Vivenciava dias, ainda que estruturados por uma rotina intensa, cercados de confraternização. Marcados pela celebração de diversas amizades, encontros familiares e incontáveis momentos alegres.

Por outro lado, apesar dessas condições favoráveis, sentia-me cansado. Confesso que discernir este cansaço de uma necessidade de mudança foi bastante complicado. Porém, entendia que as energias ao meu entorno anunciavam essa premissa de mudar. A forma como algumas situações se deram ao longo dos meses iniciais de 2019, oportunizaram tal reflexão. Parecia que em cada canto que passava, deparava-me com mensagens, relatos, músicas, cartazes ou pixos que exclamavam a necessidade de permitir-se aventurar. Mensagens que encaixavam-se perfeitamente no momento de vida pelo qual passava.

Pacote de sementes "Para espalhar por aí".

Em busca de novas perspectivas, inicialmente organizei uma viagem de férias, em prol de revisitar Vancouver, BC — cidade onde morei entre os anos de 2014 e 2015, durante o intercâmbio educacional antes mencionado. Contudo, depois de vários diálogos entre amigos e familiares, acabei por apostar em uma trajetória incerta. Pedi demissão e, mesmo sem muito dinheiro, busquei seguir minha intuição. Distanciar-me um pouco da zona de conforto onde me encontrava e continuar viajando além do período estabelecido. Curiosamente, fui impactado com uma inesperada chuva de apoio. O carinho e suporte partiram inimaginavelmente de tanta gente ao meu entorno, através de depoimentos, palavras do bem e auxílio financeiro. Adicionalmente, ao deixar a agência onde trabalhava, fui presenteado com um envelope de sementes de girassol intitulado: “Para espalhar por aí” — uma analogia as sementes que ali tinha deixado. (Infelizmente, por conta de legislações internacionais, não pude carregá-las, mas emocionei-me com a homenagem).

Nos dias precedentes a partida, revisitei quase todos os objetos que estavam ao meu redor. Por mais desapegado que fosse — um aprendizado obtido ao compactar um ano em três malas e, surpreendentemente, entender que poderia ser bem mais sucinto — fiquei perplexo ao identificar o quão mutantes são os papéis que os objetos representam em nossas vidas. Ocasionando a reflexão de que parte de nossa rotina é moldada a partir dos pertences que acumulamos. Com isso em mente, organizei tudo o que julgava realmente necessário para a nova jornada em uma mochila — que expandiu-se ao longo do caminho — e fui.

Assim, 100 dias foram suficientes para experienciar o impacto de um ano.

Antes fosse pela possibilidade de, neste espaço temporal, presenciar um pouco de cada estação: saí do Brasil no outono; na América do Norte vivenciei a transição da primavera para o verão; já na volta à América do Sul, relembrei os breves dias de inverno. Ou então, pela diversidade cultural, territorial e climática experienciadas: uma primeira impressão da correria da “selva de pedra”; um encontro com o pacífico; um reencontro com um espaço que já foi casa; a calmaria de uma ilha circundada por árvores enormes; o calor úmido junto a temporais de verão ou a presença ilustre de uma cordilheira. Cruzei entre turbulências e terremotos; espaços evocativos e pores-do-sol únicos.

Tempo suficiente para presenciar 12 rotinas, em espaços distintos. Onde, entre casas de amigos, familiares e desconhecidos, acabei por adaptar-me a cada um deles. Tempo de experienciar a solidariedade e a confiança de quem abriu as portas de suas residências para receber-me. Vivenciar, em realidades distintas, o íntimo do cotidiano. Compartilhar histórias, refeições, passeios, diálogos, dicas, presença. Impactar e se deixar impactar. Entender, em um grande processo de imersão, que cada história tem suas sutilezas e problemas. Que cada caminhada é única. Inclusive a minha (neste caso, caracterizada por quase 1000 km percorridos a pé).

Sem dúvida, uma das cenas mais impactantes presenciadas durante essas andanças foi assim configurada: ao caminhar por uma das vizinhanças mais ricas de Vancouver — cercada por belos edifícios contemporâneos integrados a uma belíssima vista, onde a água do mar toca a imensidão das montanhas — deparei-me com uma instalação artística já conhecida. Obra composta por um chalé de madeira simples, alocado em cima de alguns postes — tal qual uma palafita. Curiosamente, naquele fim de tarde, um morador de rua havia instalado uma rede entre estes postes, fazendo daquele espaço sua morada para a noite. Em adição, o rapaz aparentava uma idade similar a minha.

"LightShed" de Liz Magor, habitada por um morador de rua.

Ao visualizar a cena, uma série de indagações passaram em minha mente. Primeiramente, o contraste de uma obra de arte que indaga o papel da moradia em frente aos metros quadrados mais caros da cidade. Em seguida, a ironia de uma casa transformada em obra de arte, falhar na essência de proteção e acolhimento que uma casa deveria desempenhar. Em um terceiro momento, identificar os fatores ocasionados pela crise imobiliária, onde um jovem não consegue almejar a compra de um imóvel, por conta dos valores absurdos que estes apresentam. Já através de uma quarta perspectiva, identificar que mesmo em um cenário econômico “favorável”, ainda existem desigualdades extremas, a ponto de indivíduos ressignificarem as ruas como lares (aparentemente, o número de moradores de rua aumentou consideravelmente desde 2014).

Por fim, esta cena também proporcionou o vestimento das “sandálias da humildade”, despertando meus olhos a vulnerabilidade. Querendo ou não, naquele momento eu também vivenciava uma situação similar a do jovem morador de rua: afinal, não apresentávamos uma rotina concreta; todos nossos pertences cabiam em mochilas; por conta do dinheiro bastante limitado, talvez não pudéssemos comprar refeições saudáveis. E acima de tudo: ambos necessitávamos, por demasiado, da ajuda dos outros. Contudo, o que nos diferenciava, além de uma enorme gama de privilégios, era a possibilidade de escolha. Entender que a mim foi possibilitada a escolha de apostar nos sonhos e viajar. Por mais que naquele momento eu não tivesse uma casa, haviam várias pessoas que se dispuseram a compartilhar comigo o aconchego dos seus espaços. Além disso, compreender que possuo uma base interpessoal extremamente forte, disposta a apoiar minhas escolhas. Que todo este amor move. Já o rapaz, não. Talvez estar na rua fosse sua única opção.

A partir de visões como estas, foi possível assimilar que independentemente de estar no Canadá, nos Estados Unidos, no Chile ou no Brasil, o cenário para pessoas de 24 anos é praticamente igual. Em proporções diferentes, os problemas são quase os mesmos. No fundo, todos buscamos: comida, um espaço seguro para dormir e aprovação social. Em adição, seja qual for a trajetória, em algum momento a ajuda dos outros é essencial. Talvez figurada no entendimento de uma língua nova; na orientação em um lugar desconhecido; no compartilhamento de um olhar ou um sorriso.

Neste ponto, vale salientar como é bom pertencer a uma cultura onde as pessoas se permitem observar. Creio que o individualismo presente na América do Norte tem alguns pontos positivos: como o entendimento do espaço entre as pessoas, assim como o respeito entre um e outro. Contudo, estes fatores acabam por interferir no entendimento dos relacionamentos interpessoais. Por vezes, parece que as pessoas apresentam caixas invisíveis aos seus arredores, quase impossíveis de adentrar. Assim, dá uma alegria de pertencer a uma cultura tão rica e diversa, como a brasileira. Culturas que ainda carregam uma humanidade singular. No aeroporto, prestes a voltar para a América do Sul, já foi possível identificar pessoas desconhecidas conversando entre si. Simplesmente por permitirem-se — ou por um espaço cultural permitir — tal aproximação entre estranhos.

Além desse entendimento de pessoas, acredito que um dos maiores ensinamentos destes 100 dias seja a ruptura das expectativas. É inegável que elas já são criadas no momento em que mentalizamos algo. Mas controlá-las, deixar o destino brincar com a trajetória é rico por demais. Compreender que nem sempre nossos planos seguem o fluxo que julgamos correto. Afinal, as melhores experiências da vida podem ser surpresas! Doces presenças de pessoas encantadoras; ruelas que não estão presentes nos mapas turísticos; na alegria de acordar e não saber como o dia pode acabar.

Surpresas como voltar para casa, 100 dias depois. E em 10 dias, não conseguir processar todos os impactos absorvidos durante este “ano exponencial”. Ainda que durante a trajetória, dois diários tenham aliviado alguns dos sentimentos percorridos ao longo do tempo, o turbilhão de informações assimiladas neste período é bastante difícil de interpretar. Ironicamente, cheguei um pouco cansado de ficar na casa dos outros. Buscando um pouquinho de individualidade e descanso. Entendendo que a alternativa considerada um “fracasso”, por fim poderia ser transformadora. Ocasionaria reflexões inimagináveis e um carinho sem fim das pessoas que me apoiaram em todos os momentos.

Dentre as reflexões inimagináveis o entendimento de que sim: um ano cabe em 100 dias. Por mais estranho que pareça, o tempo passa de forma diferente quando nos dispomos a experienciá-lo através de perspectivas com as quais não estamos acostumados. Há dias vivenciados como semanas, ou semanas demarcadas como meses. O mais legal é que não é necessário repensar toda a tua rotina, como aconteceu comigo, para identificar estes aspectos de temporalidade. Por vezes, basta observar o cotidiano com um novo olhar em busca de insights que modifiquem esta relação.

Afinal, o maior presente que podemos nos regalar é um pouco mais de tempo. Da gente, pra gente.

Designer. Committed to education, community building and sustainability. Often described in 3 words: brightness ✨, optimism 🌝 and openness 🌈.

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